Política

Em carta, governo diz à ONU que não houve golpe militar no Brasil

Conforme o telegrama enviado à entidade, tomada do poder pelas Forças Armadas serviu para afastar uma “crescente ameaça comunista”

José Cruz/Agência Brasil
José Cruz/Agência Brasil
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Denunciado à Organização das Nações Unidas por incitar celebrações ao golpe de 64, o governo de Jair Bolsonaro enviou ao órgão máximo de cooperação internacional uma carta na qual nega que o golpe tenha sido, de fato, um golpe.

O telegrama foi revelado em primeira mão pela BBC Brasil e confirmado posteriormente por CartaCapital. Diz o texto que “não houve golpe militar” em 1964 no Brasil, e que a tomada do poder pelas Forças Armadas serviu para afastar ameaças de “uma tomada comunista”, além de “garantir a preservação das instituições nacionais, no contexto da Guerra Fria”.

O governo afirma ainda que “os anos 1960-70 foram um período de intensa mobilização de organizações terroristas de esquerda no Brasil e em toda a América Latina”, e que a derrubada de João Goulart foi apoiada pela “maioria dos brasileiros”.

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Trata-se de uma resposta às críticas de Fabian Savioli, relator especial da ONU para Promoção da Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição. Na sexta-feira 29, Savioli exigiu que Bolsonaro reconsiderasse seus planos de celebrar um regime que cometeu “crimes horrendos” é “imoral e inadmissível”.

O parecer de Savioli foi classificado como “sem fundamento”. O governo brasileiro pediu ainda que o relator “deve respeitar os processos nacionais e procedimentos internos em suas deliberações”.

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Em sua defesa, o governo evocou defesa da liberdade de expressão e reforçou que a recomendação de Jair Bolsonaro para que os quartéis comemorassem a data “foi tomada com pleno respeito à lei nacional, incluindo a Constituição Federal”.

O apelo da autoridade da ONU ocorreu depois de uma denúncia feita pela OAB e pelo Instituto Vladimir Herzog. No pedido, as organizações alertam para uma “tentativa de modificar a narrativa sobre o golpe de 31 de março de 1964 no Brasil”, cuja principal atuação viria “através de instruções diretas do Gabinete da Presidência ao mais alto comando militar para transmitir uma mensagem positiva sobre o período, desconsiderando as atrocidades cometidas pelo respectivo regime.”

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Repercussão ruim na Alemanha

Também pegaram mal lá fora as declarações de Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo sobre as origens do nazismo. Durante viagem a Israel, o presidente corroborou a tese de Araújo e afirmou categoricamente que o nazismo é de esquerda: afinal, o partido de Hitler tinha socialista no nome.

Representantes de partidos políticos da Alemanha comentaram o caso ao blog do jornalista Jamil Chade, do UOL, e atacaram o presidente. A deputada Yasmin Fahimi, do Partido Social-Democrata, lembrou que “os nazistas também usaram o termo ‘social’ como uma máscara para seu real programa político” e disse que Bolsonaro, ao usar essas mesmas estratégias, faz “ridicularização inaceitável das vítimas que foram mortas pelos nazistas”. O PSD, vale lembrar, faz parte da coalizão que governa a Alemanha e tem papel importante nos assuntos internacionais do país.

Thais Reis Oliveira

Thais Reis Oliveira Editora-executiva do site de CartaCapital

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