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Bolsonaro diz “não ter dúvidas” de que nazismo é movimento de esquerda

A declaração foi feita após o presidente visitar o Yad Vashem, Centro de Memória do Holocausto em Jerusalém

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Jair Bolsonaro mostrou nesta terça-feira 2 que está “alinhado” com as declarações do seu chanceler Ernesto Araújo sobre as origens do nazismo. Logo após visitar o Yad Vashem, Centro de Memória do Holocausto em Jerusalém, o mandatário declarou em uma entrevista coletiva “não ter dúvidas” de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Trata-se de mais uma polêmica diplomática envolvendo o presidente em sua viagem a Israel.

O que o presidente parece não saber, ou ao menos não se atentou, é que a própria instituição a qual ele visitou afirma que o nazismo foi um resultado do radicalismo de extrema direita. Em seu site, a instituição traz um breve histórico sobre a ascensão do partido nazista na Alemanha entre guerras.

Bolsonaro participa da cerimônia de oferenda floral, no Centro Mundial de Memória do Holocausto (Foto: Gali Tibbon/ AFP)

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deu uma declaração que ganhou força nas redes sociais. O chanceler atribuiu o nazismo e o fascismo à esquerda. “Uma coisa que eu falo muito é dessa tendência da esquerda de pegar uma coisa boa, sequestrar, perverter e transformar numa coisa ruim. É mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda”, destacou Araújo, na entrevista divulgada pelo site Brasil Paralelo.

A verdadeira origem do nazismo

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A estratégia de tentar classificar o nazismo como uma ideologia de esquerda não é nova e chegou a ocorrer no passado em vários países. Mas nunca chegou a virar um debate sério entre especialistas.

Na Alemanha, durante as pesquisas e debates sobre o Terceiro Reich, iniciados nos anos 1960, chegou a haver tentativas de classificar o regime como um movimento socialista. No entanto, há décadas não restam dúvidas, seja no âmbito acadêmico, social ou político, sobre a natureza de extrema direita do nazismo.

O debate sobre o nazismo como uma ideologia de esquerda foi levantado no Brasil a partir dos anos 2000 por Olavo de Carvalho. A visão rapidamente se espalhou por páginas brasileiras de direita na internet, ganhando adesão também entre contas de viés liberal que adotaram posições conservadoras. Entre os adeptos está o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

No País, os atuais defensores da visão “nazismo de esquerda” costumam se basear no nome oficial da agremiação nazista, chamada de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. A presença da palavra “socialista” revelaria a linha ideológica do regime. Historiadores internacionais de renome, porém, destacam que essa nomenclatura e a inclusão de políticas tidas como de esquerda no programa de governo apresentado antes das eleições de 1933 não passaram de uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora.

Leia também: Bolsonaro, Israel e a ditadura no Brasil

Nacionalismo, antissemitismo e racismo extremos

O historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, deixa claro que os nazistas jamais seguiram políticas de esquerda. “Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira”, afirma.

Segundo Kansteiner, tanto o entrevistador quanto o ministro jogam com a palavra “totalitarismo” e, durante sua argumentação, Araújo tenta com ela traçar uma fronteira entre o nacionalismo, que seria algo bom, e o socialismo, que seria algo ruim. “Historicamente isso é um disparate”, ressalta o especialista, que também é autor do livro In pursuit of German memory (Em busca da memória alemã, em tradução livre).

Peter Carrier, coordenador de um projeto de pesquisa da Unesco sobre o ensino do Holocausto, promovido pelo Instituto alemão Georg Eckert, acrescenta que o ministro comete erros ao fazer referências à teoria do totalitarismo.

“Se Araújo tivesse lido precisamente os teóricos do totalitarismo e fosse fiel a suas teses, ele deveria condenar tanto a direita quanto a esquerda, pois o totalitarismo implica que regimes autoritários de direita e de esquerda são igualmente ruins”, afirma.

Alexandre Putti

Alexandre Putti
Repórter do site de CartaCapital

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