Política

Aborto, reformas, debates… O que o PT decidiu (ou não) comunicar na campanha de Lula

A CartaCapital, o secretário nacional de comunicação do partido, Jilmar Tatto, admite o temor de uma nova onda de fake news nas redes e nos aplicativos

Foto: Ricardo Stuckert
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Ao lançar, em 7 de maio, sua chapa com o ex-tucano Geraldo Alckmin (PSB), o ex-presidente Lula colocou oficialmente a pré-campanha na rua. Em teoria, a acorrida para suceder Jair Bolsonaro só pode começar em agosto, culminando com as eleições em outubro. Na prática, porém, já se iniciou.

Cada vez mais os olhos se voltam para Lula, que lidera as principais pesquisas. Setores da imprensa não hesitaram, nos últimos meses, em apontar supostos equívocos do pré-candidato, como a menção à necessidade de garantir aborto seguro no País e as críticas a reformas neoliberais aprovadas após a queda de Dilma Rousseff.

É fato, porém, que a pré-campanha passou por reformulações na comunicação. O ex-ministro Franklin Martins perdeu espaço, enquanto o deputado Rui Falcão e o prefeito de Araraquara, Edinho Silva, ganharam. Também houve troca de marqueteiros: caiu Augusto Fonseca, ligado a Martins; ascendeu o baiano Sidônio Palmeira.

Agora, com a pré-campanha se intensificando, surgem perguntas sobre como o PT espera abordar temas como o direito ao aborto, a Reforma Trabalhista e as privatizações. Por isso, CartaCapital entrevistou nesta quinta-feira 19 o secretário nacional de comunicação do partido, Jilmar Tatto.

Confira os destaques da entrevista:

CartaCapital: Houve uma crise na comunicação do PT? Qual é o cenário atual?

Jilmar Tatto: Do ponto de vista do comando da comunicação da campanha de Lula e do PT, uma grande unidade. Temos feito reuniões toda semana com a equipe de Lula, com a equipe do PT e com os secretários de comunicação do PT nos estados. Vamos fazer a articulação também com os secretários de comunicação dos partidos, além de mover a assessoria de comunicação de Geraldo Alckmin. Há uma sintonia, uma harmonia.

Foi um grande sucesso o ato de pré-lançamento de 7 de maio. A partir daquele lema – “Vamos Juntos pelo Brasil” – estamos criando uma capilaridade muito grande. Vamos fazer isso a partir de estados e municípios, das redes e dos movimentos sociais. Estão acontecendo várias reuniões com entidades do movimento social, sindical, sem-terra, mulheres, negros, evangélicos.

Acho que podemos chegar a um acordo por Haddad candidato a governador e França fazendo parte da nossa chapa

CC: Como o PT pretende tratar de temas como o aborto enquanto tenta conquistar o eleitorado evangélico?

JT: Lula é grande, e se tornou um líder mundial porque soube pautar no seu cotidiano as necessidades e os anseios do povo brasileiro. A nossa pauta tem a ver com a diminuição da desigualdade social, com o combate à fome, com a geração de emprego e renda.

Essa é a pauta que temos de colocar no cotidiano e é isso que Lula tem feito. E é justamente uma pauta que Bolsonaro não tem condições de atender. Por falta de compromisso com o povo, por falta de caráter. Foi assim no combate à pandemia.

O Lula, ao contrário, fez um pronunciamento dizendo da necessidade do Brasil de ter vacina no braço e comida no prato. Essa é a pauta. Vamos nos orientar pelo legado do governo do presidente Lula e, ao mesmo tempo, por uma pauta econômica, que trate do combate à carestia, que é o que o povo está sofrendo.

O programa do PT é o programa do Lula. Isso vale também em relação à defesa da soberania, das empresas públicas

CC: O PT está preparado para a campanha nas redes sociais? O cenário é muito diferente daquele de 2002, até daquele de 2014…

JT: O PT está preparado, mas isso é uma evolução constante. Até porque as próprias ferramentas mudam de importância. Temos uma estrutura de comunicação que serve para a pré-campanha, mas não é suficiente para a campanha eleitoral. Por isso, está havendo uma integração de todos os grupos de comunicação existentes, não só do PT, mas de Lula, das nossas lideranças nacionais  como Dilma, Gleisi, parlamentares, governadores – e também lideranças do movimento social, youtubers, influencers, artistas, pessoas que têm uma relação direta com o seu público.

Está havendo um esforço concentrado para que haja uma capilaridade para difundir a pré-campanha de Lula. E o PT é parte disso. Essa é uma área que sempre precisa de mais, mas, diante das nossas dificuldades financeiras e das nossas limitações, diria que temos dado respostas à altura dos desafios.

Temos que articular com outros setores para combater as fake news e não deixar o bolsonarismo pautar o País. Ao contrário, o presidente Lula tem pautado o País com assuntos que interessam ao povo brasileiro, tudo isso através de um monitoramento de redes horário por horário.

CC: O PT teme um movimento de fake news pior que o de 2018?

JT: A democracia teme, os democratas temem. O que está em jogo é a democracia. Algumas ações foram feitas, do ponto de vista da legislação, para evitar que essas fake news se proliferem de maneira estrutural e organizada. O próprio STF e o próprio TSE têm essa preocupação. Essa é uma tarefa de todos. Não só do PT, mas da imprensa e de todos aqueles que não disseminam a mentira.

Nós temos ajudado, através das nossas lideranças, no sentido de fazer com que haja uma legislação mais segura e mais dura para ter o que intimide essas pessoas que propagam fake news no Brasil.

CC: Como o PT falará da revogação de reformas e do combate às privatizações na campanha?

JT: O PT tem uma opinião de revogar a Reforma Trabalhista e ao mesmo tempo apresentar uma proposta de legislação trabalhista moderna que atenda ao novo mundo do trabalho. Você tem novas profissões surgindo, principalmente na área dos aplicativos e na área dos empreendedores. E essa nova legislação precisa atender e dar segurança a esses trabalhadores.

O programa do PT é o programa do Lula. Isso vale também em relação à defesa da soberania, das empresas públicas. Lula tem falado em relação à Eletrobras: não comprem. Já entramos na Justiça contra a privatização da Eletrobras e tem uma ação grande em relação a outras empresas.

No caso da Petrobras, ter uma regulação de preço, principalmente relacionada ao óleo [diesel] e ao gás de cozinha. No caso da Eletrobras, ter uma política de energia principalmente para a baixa renda. Quem consegue fazer isso é a empresa pública. Se você privatiza, não consegue fazer isso.

Vamos rever parte dessas privatizações e aquilo que for possível reverter, vamos reverter. Para o que não for possível reverter, vamos criar mecanismos de controle para que a fúria dos acionistas não seja tão grande, prejudicando o povo brasileiro.

CC: O PT já decidiu se Lula participará dos debates antes do primeiro turno?

JT: Não conversamos a respeito disso. Temos de perguntar a Rui Falcão e Edinho.

CC: Você trabalhará diretamente na campanha de Fernando Haddad ao governo de São Paulo. Quais os principais desafios?

JT: O primeiro desafio é montar o palanque. Já fechamos com PCdoB, PV, PSOL e Rede. E estamos com tratativas com o PSB, com o Márcio França. Tem um debate nacional dos palanques com o PSB – Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Amapá.

Em São Paulo, estamos conversando. Sou bastante otimista. Acho que podemos chegar a um acordo por Haddad candidato a governador e França fazendo parte da nossa chapa. Ao mesmo tempo, estamos em tratativas com o PSD de Gilberto Kassab, para que eles possam compor a nossa chapa no primeiro turno.

Haddad está com muitas agendas de rua, dialogando com a população, recolhendo subsídios do que um governo dele pode fazer nessas regiões. Estamos fazendo pesquisas regionalizadas para entender os anseios da população.

Sobre o Rio de Janeiro: Por que você entende que a candidatura de Freixo pode “estreitar” o palanque de Lula?

Decidimos fazer uma pesquisa no Rio. Há uma preocupação do GTE [Grupo de Trabalho Eleitoral do PT] de estreitamento da candidatura do Freixo. Se o PSB cumprir o acordo com o PT, vamos apoiar o Freixo, com André Ceciliano ao Senado. Então, o PT vai cumprir o acordo, disso não tem dúvida. O fato é que o PSB lançou a candidatura do Molon ao Senado.

Outra coisa é que se acendeu o sinal amarelo no Rio em relação ao palanque de Lula. Está estreito, não é suficiente. Reconhecemos a importância da candidatura do Freixo, mas é muito pouco para o Rio. Nós podemos ter um palanque lá onde eventualmente o Lula tenha 60, 70%. Então, essa é a nossa preocupação. Temos que dialogar também com Eduardo Paes (PSD), que tem dado sinais de que pode vir a apoiar Lula no primeiro turno. O próprio Felipe Santa Cruz (PSD) pode estar nessa articulação. E Rodrigo Neves, que é do PDT, apoia o Ciro, mas há um desconforto em relação à candidatura do Ciro e ele poderia, em um movimento mais amplo nosso, apoiar Lula no primeiro turno. E há o papel do Ceciliano, que tem uma força grande no Rio. Grande do ponto de vista da articulação na assembleia com deputados, mas também com prefeitos além do PT.

Então, essa é a preocupação que temos. Vamos ter que sentar no sentido de ampliar o palanque de Lula no Rio. Por isso, antes de tomar qualquer decisão, resolvemos fazer essa pesquisa. Ela deve estar pronta na semana que vem.

Temos que abrir um diálogo inclusive com o PSB. A preocupação de ampliar o palanque de Lula tem de ser do PSB também, porque o PSB está na chapa e quer ganhar a eleição. Não é um movimento unilateral do PT, tem de ser de todos os partidos que estão com Lula, mas principalmente do PSB, que tem Alckmin na vice.

 

Leonardo Miazzo

Leonardo Miazzo
Editor do site de CartaCapital. Twitter: @leomiazzo

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