Economia
A visão do governo Lula sobre os 3 tarifaços de Donald Trump
O Planalto avalia que cada etapa da ofensiva comercial dos EUA teve objetivos diferentes, embora todas sejam tratadas como medidas de teor político
O governo Lula (PT) avalia que os três tarifaços anunciados pela gestão de Donald Trump contra o Brasil fazem parte de uma mesma escalada, mas foram motivados por contextos distintos. Na leitura do Palácio do Planalto, o primeiro, anunciado em 2025, teve caráter político-judicial; o segundo, de 25%, que entrou em vigor nesta semana, carrega motivação político-eleitoral; e o terceiro, de 12,5%, confirmado na quinta-feira 23, é visto como uma medida político-econômica destinada a dar sustentação jurídica à política tarifária norte-americana após derrotas em tribunais dos Estados Unidos.
Na visão do governo, o primeiro tarifaço nasceu diretamente da crise envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em julho de 2025, Trump anunciou a sobretaxa e a vinculou diretamente ao tratamento dado ao ex-capitão, que respondia a ações no Supremo Tribunal Federal por sua liderança na trama golpista. Meses depois, Bolsonaro foi condenado pelo STF.
Para auxiliares de Lula, a carta enviada por Trump e as justificativas apresentadas na ocasião deixaram claro que a decisão extrapolava a esfera comercial e buscava pressionar as instituições brasileiras em meio ao julgamento do ex-presidente. Depois, quando a medida foi regulamentada, vieram centenas de exceções, reduzindo significativamente seu impacto.
Já o tarifaço de 25%, oficializado neste mês após a conclusão da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), é interpretado pelo Planalto como uma pressão direta sobre a disputa presidencial brasileira. Integrantes do governo avaliam que a ala “mais ideológica” da administração Trump aposta na vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para reabrir as negociações em condições mais favoráveis aos interesses norte-americanos.
Essa leitura ganhou força depois que o senador pediu formalmente ao USTR o adiamento da aplicação das tarifas para depois das eleições e afirmou que um eventual governo bolsonarista teria condições de construir um novo acordo comercial com Washington. Para o governo Lula, a manutenção da sobretaxa durante a campanha eleitoral também busca desgastar politicamente o petista.
O terceiro tarifaço, de 12,5%, é recebido de forma diferente pelo governo. Embora também rejeite as acusações norte-americanas sobre falhas no combate ao trabalho forçado, o Planalto entende que essa medida responde principalmente à necessidade de a Casa Branca reconstruir juridicamente sua política tarifária depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou boa parte das tarifas globais anunciadas por Trump no chamado “Dia da Libertação”, em abril de 2025.
A tarifa temporária de 10%, criada para substituir aquelas medidas, expirou nesta semana e foi sucedida pelo novo pacote de 10% e 12,5% fundamentado em investigações da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Na avaliação do governo brasileiro, o argumento do trabalho forçado funciona como base legal para preservar uma política tarifária ampla, que havia perdido sustentação após a decisão judicial.
Apesar das diferentes leituras para cada etapa da escalada comercial, a estratégia do governo brasileiro permanece a mesma: manter abertos os canais de negociação com Washington, concluir as consultas aos setores mais afetados, ampliar o Plano Brasil Soberano e buscar novos mercados para as exportações. Ao mesmo tempo, a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica continua em análise e dependerá da conclusão dos estudos técnicos e das consultas públicas previstas na legislação, enquanto o governo aposta que uma negociação mais ampla com os Estados Unidos só deverá avançar após as eleições presidenciais.
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