Vozes femininas em tempos de negacionismo e de misoginia

Uma hora a máscara cai. Às vezes, literalmente. E quando não cai, é preciso arrancá-la.

Vozes femininas em tempos de negacionismo e de misoginia

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Nas últimas semanas, temos assistido com perplexidade à inabilidade do Governo Federal em lidar com os desafios impostos pela terrível pandemia de Coronavírus (Covid-19). A primeira reação dos negacionistas de plantão, obviamente, foi refutar o irrefutável. É uma fantasia, dizia Jair Bolsonaro a respeito da gravidade do vírus, que até o dia da publicação deste texto, 27 de março, matou cerca de 24 mil pessoas no mundo todo.

A sequência dos recentes discursos e ações do presidente comprovam seu total desprezo pela vida do povo brasileiro. Nos últimos dias, tem sido chamado de criminoso e perigoso por várias autoridades e personalidades políticas. “Agora ele ultrapassou todos os limites”, disseram.

A tendência a manipular a realidade e o descompromisso com a vida, porém, não são novidades entre o clã Bolsonaro e seus apoiadores. Mesmo antes de se tornar presidente, durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, o então deputado federal dedicou seu voto ao torturador da ditadura militar (1964-1985), o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Atacou ainda a ex-ministra e também deputada Maria do Rosário, dizendo que ela “não merecia ser estuprada” porque a considerava “muito feia”.

Portanto, sempre cultivou uma visão revisionista e misógina, que ataca a memória e ataca as mulheres. Ali mesmo no plenário da Câmara dos Deputados, ele já havia ultrapassado todos os limites. Em um país que leva a sério sua legislação e suas instituições, deveria ter sido julgado por apologia à tortura e à ditadura e impedido de ser candidato – afinal, seria uma candidatura incompatível com a democracia. Mas foi. E venceu.

Sua gestão seguiu tentando manipular a realidade e subjugando corpos femininos. É o que faz, por exemplo, ao atacar grosseiramente a repórter Patrícia Campos Mello, no intuito de fazer valer a sua versão e descredibilizar a jornalista, que há tempos vem denunciando escândalos nacionais envolvendo a alta cúpula.

Seis anos após a entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2014, o Brasil é governado por pessoas que agridem a memória coletiva ao justificar crimes contra a humanidade pelos quais o país já foi condenado internacionalmente. Reforçam mitos como o de que só morreu quem pegou em armas, de que não havia corrupção, e outras versões falsas da história que os oficiais tanto tentaram fazer crer. Ao distorcer os fatos, ofendem os familiares de pessoas atingidas numa evidente disputa de narrativas.

Ressignificando o passado, tentam lançar as bases de um novo futuro, no qual o autoritarismo, a censura, a repressão a manifestações de oponentes e a perseguição política são coisas toleráveis ou mesmo necessárias.

Ao mesmo tempo, este é um governo que violenta as mulheres das mais diversas formas. Desde ofensas explícitas a mulheres como Brigitte Macron, primeira-dama francesa, à jovem ambientalista sueca, Greta Thunberg, e à filha do presidente, que segundo o próprio foi fruto de uma “fraquejada”, até ações que nitidamente nos desqualificam e nos desprotegem, como a nomeação de apenas duas mulheres dentre os 16 ministros, o desmonte de políticas de enfrentamento à violência contra a mulher e a facilitação do porte de armas, que certamente ampliará as já alarmantes taxas de feminicídio.

Mas uma hora a máscara cai. Às vezes, literalmente. E quando não cai, é preciso arrancá-la. É o que pretende  fazer o livro Heroínas desta História*, uma iniciativa do Instituto Vladimir Herzog publicado em parceria com a Editora Autêntica, que traz o perfil de 15 mulheres cujos familiares foram mortos durante a ditadura militar e que, desde então, têm lutado por memória, verdade e justiça.

Trata-se de uma obra sobre mulheres, feita por mulheres. As perfiladas são operárias, camponesas, indígenas, mulheres de classe média e de periferia, do Sudeste ao Nordeste brasileiro. Por trás da obra, uma equipe toda composta por mulheres, entre jornalistas, sociólogas, fotógrafas e revisoras de diferentes gerações, que garantiram o olhar necessário para tratar com sensibilidade temas ainda tão latejantes.

Este livro foi feito tanto para reiterar a verdade sobre os crimes cometidos no período, como para mostrar aspectos menos conhecidos. Destaca, por exemplo, que não apenas militantes políticos, estudantes e intelectuais de classe média foram assassinados: entre os perseguidos havia também camponesas, operárias e indígenas. E que a ditadura era profundamente machista, algo que ficou claro na forma como as mulheres eram submetidas à tortura, duplamente culpabilizadas e punidas – primeiro por confrontarem o regime, segundo por desafiarem o papel socialmente imposto a elas: o de “bela, recatada e do lar”.

Heroínas desta História resiste à misoginia da ditadura e do governo atual ao contar histórias de mulheres que até hoje estavam invisibilizadas. Elas passaram décadas em busca de documentos, indo a quartéis, institutos médicos legais, escrevendo cartas para autoridades. Foi o trabalho, a luta e a pesquisa dessas mulheres que levaram às políticas de memória, verdade e justiça criadas no Brasil após a redemocratização. Mas até hoje eram referidas apenas como “a viúva”, “a irmã”, “a companheira”. Queremos tirá-las da sombra, tirá-las “detrás”, onde de fato nunca estiveram. Queremos mostrar sua liderança e sua perseverança em busca de respostas a perguntas que até hoje ecoam ocas.

O livro foca no heroísmo cotidiano dessas mulheres: das que fazem leis, levam casos à cortes internacionais, enfrentam torturadores em tribunais, mas também da resistência diária, da coleção de jornais, dos diários e cartas, do cuidado com os objetos pessoais dos familiares mortos, do sutil, delicado, do silêncio.

Se eles negam que a ditadura existiu, o livro explicita que sim existiu e demonstra que atingiu diversas camadas da sociedade. Se negam o protagonismo feminino, o livro apresenta mulheres que lutaram por décadas para esclarecer as circunstâncias dos assassinatos e seus autores e para responsabilizá-los. Ao dar voz a essas mulheres e ao disseminar as arbitrariedades sob a ótica delas, a publicação se posiciona contra a tentativa de manipulação do passado. É uma forma de reafirmar que acreditamos na memória como fator de mudança e como aliada contra arbitrariedades recorrentes. É um grito de liberdade contra os que sempre quiseram calar essas mulheres e nos calar. Uma ode à coragem e à resistência contra o negacionismo e a misoginia.

Ontem e hoje.


* Na contramão do presidente e pensando na responsabilidade coletiva em cessar a disseminação da pandemia, o ato de lançamento do livro foi suspenso até que os riscos estejam controlados. A publicação já está disponível em diversas livrarias do país para compras online em formato físico e digital.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Formada em Relações Internacionais (UnB) e Mestre em Educação (USP). Trabalhou no Escritório da UNESCO em Genebra, no Ministério da Educação e na Secretaria Geral da Presidência da República. Criou e conduziu a Coordenação de Direito à Memória e à Verdade da Prefeitura de São Paulo na gestão de Fernando Haddad. Atualmente, presta consultorias e é colaboradora do Instituto Vladimir Herzog.

Jornalista de direitos humanos. Fundadora da Ponte Jornalismo e da Agência Pública. Trabalhou na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva". Recebeu quatro prêmios Vladimir Herzog de Direitos Humanos e foi homenageada pela Comissão de Anistia. Coeditora de Luta, substantivo feminino - Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à Ditadura; organizadora de Infância Roubada - Crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil. É colaboradora do Instituto Vladimir Herzog.

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