Um ano de Covid-19 no Brasil: como o País se tornou o pior do mundo na gestão da pandemia?

Não foi só incompetência

Sepultamento em área reservada às vítimas da COVID-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus (Foto: MICHAEL DANTAS / AFP)

Sepultamento em área reservada às vítimas da COVID-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus (Foto: MICHAEL DANTAS / AFP)

Opinião

Nesta semana, a epidemia de Covid-19 completa um ano desde que o primeiro caso foi oficialmente registrado no Brasil. Na mesma semana, o País chega à marca dos 250 mil mortos, de acordo com os números oficiais. O balanço desse período é, infelizmente, muito negativo. E não pelo acaso ou por mero descuido.

Era esperado que o governo cometesse erros —  no começo da pandemia. Afinal, há tempos o mundo não esteve diante da ameaça global de um novo agente infeccioso – as quatro pandemias reconhecidas pela OMS nos últimos cem anos foram causadas pelo vírus da gripe.

Um exemplo emblemático é o do Reino Unido. Há um ano, a postura do governo britânico era de total desdém em relação ao recém-descoberto coronavírus. Acreditou-se na falácia da “imunidade de rebanho”. Não demorou até que essa estratégia se mostrasse equivocada, com rápida saturação da rede hospitalar e aumento no número de mortos.

O primeiro-ministro Boris Johnson reconheceu publicamente o erro e, desde abril do ano passado, quando ele próprio foi vítima da Covid-19, mudou de atitude. Outros países viveram situações semelhantes.

Há pelo menos dez meses já se sabe que a solução para a crise sanitária só chegaria com a descoberta das vacinas. E que, até que isso acontecesse, o controle deveria ser feito com medidas de distanciamento físico, reduzindo a propagação do vírus entre as pessoas.

O Brasil não só continua apegado ao desastre como, ao longo desse período, dobrou a aposta nele

Diante disso, estava claro que deixar a população se contaminar não seria alternativa viável. Mesmo onde há grande capacidade instalada para atendimento médico-hospitalar.

O Brasil não só continua apegado ao desastre como, ao longo desse período, dobrou a aposta nele. A intenção sempre foi facilitar a disseminação do vírus entre a população brasileira. O presidente Jair Bolsonaro, sempre minimizando o perigo, incentivou as pessoas a aglomerarem, ao mesmo tempo em que criticava governadores e prefeitos que adotaram as ações sanitárias.

O pretexto usado é que o País não pode parar e é preciso retomar a atividade econômica, mas até o uso de máscaras foi desestimulado.

As ações do governo federal têm sido compatíveis. O que mais poderia explicar a insistência no tal tratamento precoce – não usado em nenhum outro país – por tantos meses se não a ideia de estimular a população a se expor? Ou o boicote às vacinas, ao ponto de ter colocado o Brasil no final da fila do consórcio mundial dirigido pela OMS? Ou mesmo o descaso com a política de testagem, desperdiçando testes diagnósticos no ápice da epidemia?

É evidente que há também incompetência. Que o digam situações como confundir Amazonas com Amapá na remessa de vacinas. Mas só isso não explica que o Brasil chegue a um ano no momento mais grave da epidemia, registrando há mais de um mês uma média diária de mortes superior a mil mortes, lotação de leitos em diversas regiões do país e municípios entrando em colapso.

O que estamos vendo é resultado de um plano deliberado do governo Bolsonaro, que há um ano assume o risco de deixar a população exposta mesmo sabendo que muitas mortes seriam evitáveis.

O que deveria surpreender é continuarem fazendo isso impunemente.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médico e advogado sanitarista, pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP e do Institut Droit et Santé da Universidade de Paris.

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