Sobre ser ‘a filha do marrom’

Experiências como filha de um homem negro marcaram toda minha vida, a começar pela escola

Foto: Mateus Pereira/GOVBA

Foto: Mateus Pereira/GOVBA

CartaCapital,Justiça,Opinião

Quando o assunto é questão racial, tenho muito cuidado. Piso com atenção, não só porque a complexidade do tema exige, mas porque reconheço minha condição de aprendiz e de privilegiada.

A gente sabe que, no Brasil, não precisa ser branco para ser privilegiado. Basta ser lido como branco e os privilégios vêm de bandeja. E não há escolha, é uma vida inteira degustando das mais variadas benesses que um país estruturalmente racista é capaz de nos conferir.

No meu caso, ser filha de pai preto nunca me impediu de acessar os mais variados lugares; nunca foi óbice para alcançar um emprego; nem razão de preterimento; muito menos me submeteu a pré-julgamentos. Afinal, o tom claro da minha pele facilitado pelo processo de embranquecimento a que tive o privilégio de me sujeitar sempre me garantiram, algumas vezes até mesmo sem abrir a boca, respeito e reconhecimento.

E é, daqui, do meu lugar social e a partir das experiências que vivenciei (e ainda vivencio) ao lado de meu pai que divido este texto. Faço isso por amor à nossa conexão que se mantém mais forte que nunca e, sobretudo, para romper com o silêncio ensurdecedor que até hoje me faz retornar àquele lugar de dor, seja em minhas lembranças, seja através das pessoas que insistem em me fazer regressar.

Meu pai era aquele paizão que deixava infringir as ‘regras’. E eu amava: tomar refrigerante no café da manhã, almoçar salgadinho, ficar descalça no parque e me molhar nas poças d’água, por que não? Nas lições de casa, era ele quem me auxiliava. Apesar do pouco estudo, domina as ciências exatas e tenho muito orgulho de dizer que o que sei de tabuada e números romanos devo à sua paciência infinita em me ensinar.

Quando comecei a ir à escola, aos três anos, era meu pai quem me buscava. Eu esperava ansiosamente sua chegada e, logo que aparecia no portão, corria para seu colo. Era o momento de ficarmos juntos até o dia seguinte. Sim, eu dormia com meu pai.

Mas a história toma um novo rumo, quando minhas coleguinhas de sala notam que meu pai é um homem negro. Risos, piadas, apelidos, me tornei “a filha do marrom”. Eu não sabia o que significava ser “a filha do marrom” nem que estavam fazendo referência à cor da sua pele. Só sabia que ser “a filha do marrom” me fazia sentir muita dor.

Passei a fugir do meu pai na escola, a hora da saída virou momento de tortura. Eu sabia que elas iam gritar de novo. Era ele apontar na porta do colégio, que eu corria para sala de aula, me escondia embaixo da mesa e tampava os ouvidos antes que tudo começasse.

Meu pai ficou preocupado, chamou minha mãe para presenciar a cena, conversou com as professoras que nunca relataram o real problema. Sem dúvida, este foi meu primeiro contato com a dor. Eu ficava período integral na escola, me lembro de que, na troca de turno, não saia do canteiro que tinha no pátio até que a professora me obrigasse a retornar para sala de aula. Eu chorava do início ao fim.

A escola passou, as consequências seguem, aqui, ainda que em novo formato.

Vira e mexe meu pai vem rindo e relembra de quando eu fugia dele na escola. Nunca fui capaz de verbalizar, tamanho horror que essa lembrança me causa. Talvez ele não saiba, talvez tenha sido a forma que encontrou de se amparar. Porque, sim, meu pai desenvolveu os mais variados traquejos para lidar com o mundo.

Renata Coutinho e seu pai, Roberto Coutinho de Almeida.

Passei anos acreditando que éramos inferiores e, ao contrário do que muitos pensam, minha autoestima nunca foi elevada, especialmente na adolescência. Foram décadas para começar a entender que não havia nada de errado com meu pai, com ser negro. O processo de desconstrução é constante; exigente. Envolve dores, rompimentos. Disposição para ouvir, disposição para falar, disposição para perder.

Veja, e se eu fosse uma menina negra? Se fosse eu: “a marrom”? Quanto mais agredida a minha subjetividade seria? O quão preparadas estão as Instituições para lidar com essas situações?

A perversidade sútil do racismo e sua capacidade de atingir camadas profundas da alma, direta ou indiretamente, nos direcionam a um ponto de não-retorno. O racismo é ruptura. Um marco. Um lugar de onde não se sai ileso.

Meu pai nunca se intitulou militante, contudo, nunca abriu mão de fazer ‘coisas de preto’. Era na figura do sambista que foi e ainda é; no toque do seu atabaque; no comer ‘de mão’; no banho de mar, de cachoeira e de lama (sim, lama do manguezal) que ele se apresentava e nossas raízes emergiam.

A sua existência é militância. E a ela devo tudo que sou. A ela me curvo, me orgulho, me filio. E não há outra possibilidade de existência para mim, assim como não há um único lugar que eu vá com meu pai, que o apresente como meu pai, que não surja um para nos chamar de canto e dizer em tom de elogio: “amei conhecer seu padrasto”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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