Ser negra no estrangeiro

Audre Lorde (1934-1992) e May Ayim (1960-1996), afrofeministas com trabalho na Alemanha. Foto de Dagmar Schultz. nos anos 80.

Audre Lorde (1934-1992) e May Ayim (1960-1996), afrofeministas com trabalho na Alemanha. Foto de Dagmar Schultz. nos anos 80.

CartaCapital,Opinião

Diáspora é movimento. Água. Sal.

As palavras me levam a nadar com força, a boiar, no cansaço, mas também a mergulhar profundamente neste mar que me move, que me impulsiona a alcançar a praia, retornar ao chão das raízes fincadas.

São as águas de Iemanjá na poética decolonial da potente escritora Carla Akotirene, em “O que é Interseccialidade”. Águas que me remetem à “diáspora negra de suor, lágrimas e sangue ao gosto do mar…”. E com o sal na boca do mar-encruzilhada da história, mergulho, em silêncio, na memória da minha travessia sobre o Atlântico, em direção a ocupar a Europa, e trago aqui alguns elementos desta reflexão muito pessoal.

Prisioneiras, sociólogas, traficantes, pesquisadoras, diaristas, serventes, tradutoras, dançarinas, doutoras, cuidadoras, garçonetes, mães, viúvas, entre tantas outras. Diferentes identidades, lugares sociais, corpos em movimento fora do Brasil. Somos a maioria: mais de 53%. Mulheres emigram por razões diversas: casamentos, estudos, intercâmbios, trabalho formal e informal. Mas também, estão drasticamente entregues ao tráfico humano para o trabalho sazonal e a prostituição. Se há obscuridade quanto ao total de pessoas brasileiras no estrangeiro, imaginem o que se refere a nós, mulheres negras! Quem somos? Quantas somos? O que fazemos? Desconhecido no mundo teutônico.

Se no Brasil somos vistas como “privilegiadas”, pela “sorte grande” de termos “chegado lá”, aqui somos diluídas à condição de “migrantes”, com toda a pertinente hierarquização destes corpos “estranhos”, à mira do racismo e do preconceito cotidiano, numa sociedade que constantemente nos estrangeiriza.

A nossa condição de “outridade“, na perspectiva do feminismo negro e do debate crítico sobre a condição do migrante, permeia o dia a dia das experiências de nossos corpos racializados. Vivo na Alemanha, numa cidade “migrante”, onde minha brasilidade não oferece nenhum privilégio ou diferenciação. Visível é o meu corpo preto, meu cabelo pixaim. Aqui em Frankfurt, sou da Etiópia ou da Eritreia, por meus traços físicos, o que confesso, em nenhum momento, me opor. A consciência diaspórica me faz rir de alegria ao ser confrontada.

Não há algo mais curativo para um corpo negro do que andar pelas ruas de uma cidade com população predominantemente negra, o que vivenciei por ocasião de visitas profissionais a Addis Abeba. A experiência de não me sentir a “outra“, “migrante“, “visitante“, de pertencer intrinsecamente a uma paisagem, foi fundamental como unguento nas chagas da herança colonial coletiva de meu povo negro em diáspora.

Refletindo a singularização em que sou colocada enquanto “migrante“, me recordo de “Memórias da Plantação”, de Grada Kilomba. Ao lê-la, eu, mulher negra, de carreira técnica no estrangeiro, olho-a nos olhos e ouço sua voz de mulher fenomenal, lusófona e negra, conhecedora da experiência da ”outridade”, tanto em seu país de origem, pela descendência africana, quanto como residente na Alemanha. Ela que, no mundo acadêmico, afronta epistemologicamente o lugar que lhe é imposto.

O lugar da “outridade“, ao qual pertenço enquanto migrante, é, sob o olhar de Grada, determinado a partir “de um grupo que tem o poder de se definir como a norma – a branca, cuja dinâmica das relações é norteada especialmente pela dominação”. O lugar da esposa simpática e exótica do homem branco, um “souvenir” vindo do Brasil, é o preferido a mim imposto por alemães ou de outras nacionalidades, em detrimento da cooperante internacional e consultora que fui durante muitos anos.

Em contexto brasileiro, tanto aqui na Alemanha como no Brasil, é quase impossível alguém pensar que já representei a Alemanha em diferentes situações oficiais, com meu trabalho. A confusão que isto causa e um certo desconforto é bastante visível nos olhares surpresos e nos silêncios decodificados da sutilidade de nosso racismo “à la brasilis“.

Sempre fui sublinhada como a “diferente“ num ambiente de brancos. Por exemplo, quando sozinha em viagem à trabalho, a posse de um passaporte de serviço em contexto diplomático me foi questionada por seguranças. Ou em outras situações, nas quais a veracidade do mesmo passaporte foi minuciosamente controlada, enquanto meus colegas brancos, cujos documentos eram exatamente iguais ao meu, livremente transpunham as barreiras fronteiriças. Meu corpo não cabe nesses espaços de maioria branca. Não cabia nem mesmo numa sociedade de maioria negra!

Ressignificar o meu lugar é desafiador. As relações na “comunidade brasileira ” na Alemanha, onde intuitivamente buscamos “acolhida“, “Zuhause“,“ um lar fora de casa“, nem sempre são cordiais. A complexidade do racismo, enquanto “crime perfeito”, como nos alerta Kabengele Munanga, atravessa também o Atlântico. Se falamos de racismo estrutural no Brasil, no estrangeiro esse debate também é inadiável.

Clichês ou apagamentos, entre outros, são práticas comuns, especialmente quando se trata de provocar o debate racial, como tentamos em diversos contextos, seja no trabalho ou nos engajamentos sociais e políticos. A identidade “migrante”, não é suficiente para colocar a todos em pé de igualdade. A luta diária para superar a „outridade“ da condição de migrante no chamado processo de “integração” nos faz concorrentes, inconscientemente. E é justamente aí onde cor, classe social e relações de dominação aprendidas no Brasil se mostram em toda a sua nudez. O resultado é o afastamento de muitas de nós desta „comunidade“, a busca por outras, ou, em casos extremos, o aprofundamento da isolação, com todas as suas consequências.

A fenomenal Carla Akotirene diz: “Mulheres negras foram marinheiras das primeiras viagens transatlânticas, trafegando identidades políticas reclamantes de diversidade.” É com a força das águas atlânticas, carregadas da nossa ancestralidade diásporica, que ocuparemos, “reclamantes de diversidade“, este continente, historicamente algoz, mas em processo de transformações históricas justo pela presença de nossos corpos e vozes diaspóricas, empoderadas de pretitude. E este continente haverá de parar para nos ver e ouvir. E o outro continente também!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Socióloga, ativista de direitos humanos e da diáspora ressignificando a Europa. Cooperante internacional na Alemanha, Angola, Turquia e Bósnia e Herzegovina

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