Regina Duarte, a coveira da cultura

Com a morte disfarçada de vida, a coveira Regina Duarte começa a enterrar a cultura brasileira.

Regina Duarte e Jair Bolsonaro (Foto: Carolina Antunes / PR)

Regina Duarte e Jair Bolsonaro (Foto: Carolina Antunes / PR)

Justiça,Opinião

Junto com a proliferação da pandemia do COVID-19, proliferam os absurdos bolsonaristas. O primeiro encontra fortes raízes no segundo, tornando-se profícuo analisar os absurdos e não apenas o cemitério de mortos que, parafraseando Regina Duarte, se arrasta nas costas do (des)governo de Bolsonaro, com a constante e irresponsável multiplicação de cadáveres, enterrados em valas comuns que se perdem de vista. O espetáculo é cínico e tem método: o pútrido bolsonarismo é proliferador de morbidades, mas cresce, notadamente, pela negação da óbvia existência do mórbido.

O eloquente governo, representado por Regina Duarte, Paulo Guedes, Nelson Teich, Abraham Weintraub, Ricardo Salles, Damares Alves e outros ministros, sob o baluarte de Jair Bolsonaro, parece ter saído de um manicômio funesto e bizarro. Contudo, trata-se de loucura metódica e calculada, que faz a constante gestão da morte, bombardeada pela rede de fake news e artimanhas que controlam robustamente a verdade. Qualquer um que se posicione contra o governo é construído e eliminado como inimigo, somando-se à constante normalização dos absurdos, que fazem os olhos se acostumarem com a podridão.

Nesse cenário, cada um dos ministros é, ao mesmo tempo, assassino e coveiro de seus próprios ministérios.

A narrativa violenta do ódio, da defesa da ditadura militar e da minimização da tortura se marcam não apenas nas produções de fake news do gabinete do ódio, mas encontram território de proliferação nas inúmeras cadeias que ultrapassam os financiadores, os empresários e as lideranças políticas que coordenam as ações.

A negação da morbidez encontra complexa tática de difusão na produção de conteúdos aparentemente despolitizados, mas que propagam ideias de extrema direita, construídas como neutras e ganhando rápido crescimento em vários territórios. Tais cadeias são ligadas por grupos e interesses difusos de transmissão, que, tais como hospedeiros, já existiam antes do romper do ninho do governo de Jair Bolsonaro, tendo encontrado espaço de expansão na escravização contemporânea do sujeito e na intolerância dirigida aos desiguais. Narciso odeia o que não é espelho, diria Caetano Veloso. A resposta infantilizada de Regina Duarte se coaduna com a própria incapacidade de ver e lidar com o mundo real. O bolsonarismo é mesmo maior do que o próprio Bolsonaro.

Assim como o COVID-19 encontrou um terreno fértil de proliferação nos humanos, o bolsonarismo encontrou um terreno fértil pré-estabelecido em redes de difusão propagandistas, o que explica a relação umbilical do governo de Bolsonaro com a gestão de morte que o antecede. Morte essa travestida de vida, como a que a ex-namoradinha do Brasil, agora noiva cadáver de seu próprio ministério, Regina Duarte, toma como figura desencontrada de si mesma, olhando endoidecida para o espelho. Na negativa dos corpos torturados e tratorados agora e na ditadura militar, a pura semântica deteriorada da morte calculada é tornada banal ou negada, como em uma neurose infantil que deseja brutalmente um paraíso idílico, desencontrado da realidade.

Quando pensamos no cemitério e na zumbificação das pessoas, devemos lembrar que zumbis são aqueles que se acham potentes de vida, querendo constantemente tornar os outros seus iguais, pois o múltiplo incomoda, os corpos destoantes têm que ser domesticados. Com a negativa da complexidade, heterogenia e incongruência da realidade mesma, faz-se a morte da política, para dar assento apenas à sua própria política, uma necropolítica que apenas sobrevive da negativa e da morte real e simbólica do outro.

O método governamental de Bolsonaro se centra na proliferação de mortos e absurdos e na minimização obscena das feridas que deveriam ser curadas. Escorado na defesa da ditadura, do negacionismo e do revisionismo histórico, ele se arrasta virulento com a destruição das florestas, dos povos das florestas e de todos aqueles que, dados os interesses momentâneos, são construídos como inimigos políticos. A imbecilidade de Regina Duarte e de todo o governo bolsonarista se trata de morte disfarçada de vida e, assim, da licença contínua para arrastar cemitérios, produzindo seus novos zumbis.

A cura não se trata de matéria simples e fácil, ela exige a construção de alternativas e metamorfoses para isolar as cadeias de transmissão. Assim como com o próprio COVID-19, trata-se da paralisação e estanque dessa doença virulenta chamada bolsonarismo, que encontra profícuo terreno no alastramento dos mortos.

Algum broto de vida ainda pode brotar… O pacto com a morte seletiva de velhos hábitos é agora, mais do que ontem e menos do que amanhã, uma questão de sobrevivência.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Direito na FND/UFRJ. Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada.

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