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Por que a Prefeitura está pintando de branco o Escadão da Marielle?

Opinião

O “Escadão da Marielle”, a escadaria que leva da rua Cristiano Viana para a rua Cardeal Arcoverde, na zona Oeste de São Paulo, era um grande mural de grafite com uma foto da vereadora do Rio de Janeiro assassinada Marielle Franco (PSOL). Tinha frases sobre ela, sobre a violência que sofreu, sobre a sua presença, que prevalece sobre a sua morte. Tinha.

Nesta quarta-feira 16, isso mudou. A prefeitura de São Paulo apagou quase tudo, só a foto da Marielle ficou no meio, rodeada de um branco vazio. As autoridades municipais assim explicam: “A Subprefeitura Pinheiros informa que a escadaria localizada na Rua Cristiano Viana está passando por obras de readequação. O local receberá rampas de acessibilidade, corrimão e reparos nos degraus. Após o fim dos trabalhos, grafiteiras serão convidadas para fazer pinturas homenageando mulheres que fizeram história.” Se vão tirar a foto de Marielle? Não negam nem confirmam.

A poeta e escritora Paula Corrêa passou a tarde acompanhando o trabalho da prefeitura. Por lá, conheceu Francisco, o Alemão.

Paula Corrêa, autora dos livros “In Vitro”, “As Calotas Não Me Protegem do Sol” e “Tudo Que Mãe Diz É Sagrado”, é a nova colunista da Carta Capital. Vai escrever semanalmente sobre a cidade e sobre os que a habitam. Hoje, fala de Francisco e de Marielle. Boa leitura.

O guardião de Marielle

“Não vão pintar a foto, não!”

Francisco, olhando por Marielle e por quem passa (Foto: Paula Corrêa)

Francisco, o Alemão. O guardião invisível.

A Marielle está ali, sorrindo. Francisco, o Alemão, pede desculpas pelo jeito que fala.

É analfabeto. Queria trabalhar na roça, está em São Paulo há 20 anos, ajuda na igreja, e recebe doações.

Mora como um Harry Potter, embaixo da escada do Escadão Marielle Franco, que hoje está sendo pintado.

Sem camisa, bronzeado, Alemão conduz os transeuntes, ajuda a todos, mesmo os que estão lá para pintar o escadão.

De branco.

Oferece água para os homens designados a pintar o escadão. Mora num cubículo, um mesmo cômodo com cama, fogão, geladeira, televisão, colchões. Está lá há oito anos.

Sabe somente escrever o próprio nome. Não lê, nem escreve. “Mas não me perco”, diz ele.

“Se quiser me mandar para qualquer lugar, eu acho”.

Ano passado a prefeitura quebrou a calçada em frente ao calçadão, e deixou lá, quebrada.

Uma senhora caiu. Francisco, o guardião, ajudou a senhora.

A prefeitura hoje cimentou a calçada, e colocou redes em volta para os pedestres não passarem. Mas não fizeram uma passagem para os mesmos pedestres transitarem pela rua em segurança. Alemão estava lá, sinalizando, ajudando as pessoas a passarem de lá para cá.

“Cuidado que o cimento tá fresco!”.

Marielle Franco sorri para ele. Não sei se saberia se estivesse viva, mas ela tem um protetor, um guardião chamado Francisco.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Escritora, poeta e jornalista paulistana. Escreveu os livros de poesia "In Vitro" (2004), "As Calotas Não Me Protegem do Sol (2010) e "Tudo o que Mãe Diz É Sagrado", este último pela editora Leya, prefaciado por Eliane Brum e Ignácio de Loyola Brandão. Publica crônicas e contos em revistas literárias.

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