O trabalho miliciano de base

Jair Bolsonaro já tem sua frente armada e a ampliará significativamente até 2022

Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro

Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro

Opinião

“Parabéns aos Policiais Civis do Rio pela eliminação do miliciano ‘Ecko’, que nunca foi policial e era o mais procurado do país! Todo respeito e apoio incondicional aos verdadeiros Policiais de todo o Brasil”, escreveu Flavio Bolsonaro no dia 12 deste mês de junho em sua conta oficial no Twitter. O filho do presidente comentava, com ares congratulatórios, a morte de Wellington da Silva Braga pela Polícia Civil na zona oeste da capital carioca.

Como costuma ser de praxe em casos similares, pairam enormes suspeitas sobre as circunstâncias do episódio. A quem ainda sobra alguma lucidez e sensatez, é evidente que a mentira, a dissimulação e a desfaçatez não são apenas manifestações ontológicas da natureza bolsonarista, mas também método e estratégia. Não à toa, o tweet de Flavio Bolsonaro, em primeiro lugar, suscitou reações de incredulidade e de suspeita nas redes sociais. A relação simbiótica da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro, afinal, não é uma especulação, mas fato público e notório.

A morte de Ecko guarda profundas semelhanças com a de Adriano da Nóbrega, morto na Bahia em uma ação conjunta (e pra lá de suspeita) da Polícia Militar e Polícia Civil. Para quem talvez não saiba, Adriano, ex-BOPE – aquela corporação profundamente romantizada por José Padilha em seu Tropa de Elite – foi um ex-policial que atuou tanto como assassino de aluguel da chamada contravenção do Rio quanto nas organizações milicianas da comunidade de Rio das Pedras. Exímio atirador, foi para a cova com um currículo extenso de assassinatos encomendados por bicheiros ou realizados como tarefa precípua do cotidiano das ações milicianas na cidade.

No entanto, diferentemente da celebração pela morte de Ecko, Flavio Bolsonaro concedeu a Adriano da Nóbrega a maior honraria do estado do Rio quando ainda era deputado estadual: a Medalha Tiradentes. Quando a recebeu, Adriano estava atrás de grades por suspeita de homicídio. O pai de Flávio, já presidente, o chamou no ano passado de herói. Mas as relações não param por aí: o Ministério Público do Rio de Janeiro afirma que mãe e ex-esposa de Adriano da Nóbrega eram empregadas de Flavio Bolsonaro no esquema das rachadinhas no gabinete do então deputado da Alerj. Tudo em famiglia.

Milícias, como ensina Bruno Paes Manso em seu magistral livro A República das Milícias – obra etnográfica de profundo valor documental – são organizações paramilitares compostas essencialmente por policiais que atuam em comunidades de baixa renda oferecendo um falso serviço de segurança privada que deveriam fornecer como serviço público pelo qual recebem salários. Mas não para por aí: as milícias cariocas superfaturam e controlam a venda de serviços e produtos, como sinais piratas de canais por assinatura e fornecimento de gás, aplicam o chamado “arrego”, ou seja, exigem o pagamento de suborno por parte de traficantes, atuam, junto com oficiais das Forças Armadas, no tráfico de armas e munições, praticam grilagem e constroem prédios que caem e matam para faturar com aluguéis e promovem, rotineiramente, práticas de tortura e mortes nas regiões que controlam.

Esses grupos paramilitares também atuam politicamente na medida em que controlam o acesso de campanhas eleitorais nas comunidades que dominam. Além disso, também atuam, há muito, nas instâncias institucionais de representação política, seja por meio de grupos econômicos ligados a seus negócios, seja diretamente por meio da eleição de seus membros a cargos legislativos. E, agora, como se vê, também a cargos no Poder Executivo. E esse é o ponto em que a morte de Ecko, a milícia e a política brasileira se ligam para nos dar um alerta.

A perspectiva miliciana defendida pelo bolsonarismo é uma recauchutagem do velho e tradicional punitivismo brasileiro. Elemento fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro. Trata-se do famoso “bandido bom é bandido morto”, como se o algoz do bandido não fosse um bandido muito pior e um criminoso muito mais vulgar e perigoso. A milícia brasileira é um empreendimento essencialmente militar, representado em grande parte por policiais, mas que não deixa de fora oficiais das Forças Armadas. E são muitos deles que estão no poder e confraternizando ao finais de semana com o presidente em cima de motocicletas ou prendendo pessoas que chamam o presidente pelo termo que melhor o designa nessa pandemia. Genocida.

Na Venezuela, Hugo Chavez criou seus próprios grupos paramilitares para defender com armas seu projeto bolivariano de poder. Foi além ao conseguir, por meio da degradação institucional do Parlamento, assumir o controle das polícias do país, aquilo que Bolsonaro sonha em fazer e até projeto de lei já tem para tal. O resultado desse empreendimento na Venezuela já é evidente. No Brasil, a evidência já é banal, mas parece que quem deveria cuidar disso com grande atenção está optando por pagar para ver em 2022 como pagou para ver em 2018. Jair Bolsonaro já tem sua frente armada e a ampliará significativamente daqui para outubro de 2022. O projeto não é de um mero golpe, mas fazer do Brasil um país de milícias que atuam politicamente sob a ideologia iliberal e uma concepção anarquista de liberdade: a guerra de todos contra todos.

A celebração da morte de Ecko por Flavio Bolsonaro embute uma sutileza importante: “ele nunca foi policial”. Nas entrelinhas, a mensagem é a seguinte: se for policial, então tem o passe livre para torturar, extorquir, corromper e matar, afinal, como disse o vice-presidente da República Hamilton Mourão, heróis matam. Não é à toa que que Adriano da Nóbrega foi condecorado por quem hoje celebra a morte de um miliciano que, talvez, tenha saído um pouco da linha para quem sabia demais.

“Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro” é o subtítulo do livro de Bruno Paes Manso.

A era dos esquadrões da morte tem tudo para parecer um passeio no parque em comparação ao que nos avizinha. A milícia é imagem e semelhança do bolsonarismo que pretende fazer do Brasil o seu espelho. Não é à toa que o presidente estreita seus laços não apenas com militares das Forças Armadas, mas com as forças policiais dos estados por meio de constantes acenos e participações em eventos de formatura de novos oficiais.

Ao fim e ao cabo, o que Jair Bolsonaro está fazendo é aquilo que, tradicionalmente, a esquerda chamou de “trabalho de base”. Enquanto faz sua política de base – relativamente silenciosa e sorrateira – para a conformação de uma ampla liga miliciana pelo país, nós, humanistas e democratas, depositamos fé na institucionalidade e normalidade democrática num país em que, definitivamente, as instituições deixaram de funcionar a contento há um bom tempo.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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