Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

Opinião

Ciro Gomes

O pedetista não consegue esconder o ressentimento: de Lula e dos eleitores

O pré-candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes. Foto: Divulgação/PDT
O pré-candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes. Foto: Divulgação/PDT
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Ah, Ciro, Ciro, como é um espe­táculo triste ver alguém se suicidar politicamente ao vivo e em cores. Mais triste ainda é essa morte ser evidente para quem olha de fora, atônito ao necroespetáculo, e não consiga ser percebida pelo próprio defunto.

Sempre considerei Ciro um sujeito inteligente, ou, talvez deveria dizer, um sujeito de conhecimento. A inteligência é um poliedro, tem aquela inteligência que acumula conhecimento, aquela afetiva, aquela relacional, tantas. São inteligências das mais variadas morfologias, das mais variadas sensibilidades, mas todas relevantes. Possuir conhecimento sem uma inteligência afetiva e relacional que organize socialmente esses saberes, que dê consciência do lugar no mundo, do espaço, do momento, da própria significância ou insignificância, enfim, sem uma inteligência estratégica, sem uma inteligência dialógica, uma inteligência política, é uma assimetria que na vida pública custa caro. Talvez o poliedro de inteligências de Ciro, em algum momento de sua biografia, tenha sido mais equilibrado, mais proporcional, refletia luzes de vários ângulos. Não mais. Agora, quando olho para eles, vejo muitos vácuos, muitas sombras, muitos cinzas.

Escuto Ciro falando e escuto um homem ressentido. E não é que o ressentimento por si só seja intrinsecamente malévolo e abjeto, mas, quando o ressentimento vira uma das forças motrizes da vida, quando vira oxigênio, alimento, motivação… aí lascou.  Ressentido por que, eu me pergunto? Ressentido com quem? Parece-me que há duas origens do ressentimento, Lula e nós, o povo. Ciristas poderão tentar me contradizer, mas um homem é escravo de suas palavras e, nossa, como Ciro é escravo das suas. Quando fala de Bolsonaro, fala com desprezo, como de fato se fala a respeito de um ser abominável, mas, quando fala de Lula, fala com ressentimento, fala do ponto da cicatriz, fala do lugar da mágoa, uma mágoa que se faz ostensiva, que aparece como um pavão ao esticar as penas. É evidente. Não sei se tentou esconder ou se ensina com orgulho, mas a cicatriz sempre aparece.

Lula roubou o grande papel que a história lhe reservava. Essa é a cicatriz. ­Obviamente, ele vai negar, os ciristas negarão, mas a cicatriz fala por ele, porque a cicatriz de Ciro é força motriz. E, amigos, cá entre nós, a gente sabe muito bem que o discurso da corrupção perdeu a originalidade. Não só Lula roubou de Ciro seu destino messiânico, como o povo continua a lhe roubar esse destino. Pois só Ciro tem a resposta, só Ciro pode tirar o País do caos, só Ciro tem um plano, porque, como disse no embate com Gregório ­Duvivier: “Se Deus me der a ventura de proteger o ­Brasil”. Temo que Deus esteja em outra, Ciro. Nem estava com Bolsonaro, nem parece estar com você. Eu o encontro no padre Júlio ­Lancellotti, cuidador de outro tipo de cicatrizes, umas muito diferentes das suas. Mas é isso. A chance de um ­B­rasil “fodástico” está na nossa frente e o brasileiro não enxerga. Como o povo é burro e prefere Lula?

Ah, Cirão das massas… na real, tirem o “das massas”, porque pega um pouco mal se autodenominar das massas com 7% de intenções de voto. Ah, mas pesquisa é só a radiografia do momento, não dá para cravar nada. Não dá para cravar tudo, mas um pouquinho dá, né? E o que dá para cravar mesmo é que 7% não é a massa e que 48% é bastante mais massa.

Algo que detesto é a arrogância manifesta, escancarada. A arrogância daquele que não sabe debater a não ser diminuindo seu interlocutor, pois ele sabe mais, estudou nos EUA, ou o outro é jovem, inexperiente, ou comediante… Talvez porque, como mulher, eu tenha me deparado tantas e tantas vezes com homens que, em vez de falar, pontificavam, cuspiam dogmas de suas bocas, tentavam me vilipendiar intelectualmente. Talvez seja porque, como mulher, veja tantas e tantas colegas brilhantes a falar baixinho, sem se apropriar de seu brilhantismo e se apagando na frente do ego masculino. E isso dói, como dói.

Então, Ciro, se você for de fato o enviado de Deus, por que não consegue convencer o povo? Se Bolsonaro só oferece terror e Lula só oferece corrupção, deveria ser muito mais fácil ganhar a confiança dos eleitores, não é? Por que suas “massas” não passam de 7% a 48%? O povo é tão burro assim?

Cansada, cansada das carteiradas dos homens brancos. Cansada de ver o ressentimento se impor. Cansada desse antipetismo mórbido. No embate com Gregório Duvivier, Ciro disse uma frase que não perdoo, “bolsonaristas e lulistas são a mesma coisa”.

Nesse momento Ciro expulsou a purulência de sua cicatriz pela boca. E, no fundo, entendi o que ele queria falar. São a mesma coisa porque são “as massas dos outros”, porque a dele só chega a 7%.

A gente se vê em outubro, Ciro. Desta vez vai para onde, Dubai? •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1211 DE CARTACAPITAL, EM 8 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Ciro Gomes”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

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