Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

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O Pix de Campos Neto, o jornalismo e a taxa de juros

Considerações políticas de um leigo em economia

Roberto Campos Neto e Paulo Guedes. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
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Não possuo formação específica em Ciências Econômicas. Sequer penso ter alguma competência, mesmo que diletante, para discutir questões técnicas e específicas desse ramo, como os critérios que devem reger decisões sobre a adequação das taxas de juros, em determinados contextos e conjunturas, tomadas por uma instituição encarregada de regular o sistema financeiro.

Tampouco são as Ciências Econômicas um império do saber regido por uma tecnicidade hiper-objetiva que congrega seus profissionais em torno de um conjunto expressivo de axiomas. Na verdade, a economia sequer faz parte das Ciências Exatas – ainda que nem mesmo estas estejam livres dos dissensos e do princípio do falibilismo, para o bem da epistemologia popperiana que rege a lógica da pesquisa científica do que Ian Shapiro chama de Iluminismo maduro.

Dito isto, afirmo duas coisas: 1) Que o debate técnico seja respeitado e as autoridades epistêmicas da área de economia debatam publicamente e nos instruam os leigos da melhor maneira possível com a maior quantidade e diversidade de informações disponíveis; 2) a discussão ou a polêmica em torno da taxa de juros do Banco Central e da posição ocupada por Roberto Campos Neto tem passado longe de se restringir às tecnicidades necessárias à economia. Estamos lidando, também, com questões políticas que adentram dimensões simbólicas caras à área de Comunicação Política.

Em primeiro lugar, já encaramos uma certa polissemia no uso atribuído ao termo “técnico” no jornalismo profissional brasileiro – principalmente dentre os veículos de imprensa tradicionais de ampla circulação. E isso guarda uma correlação direta com críticas que têm sido publicadas em diversos espaços de CartaCapital e mesmo pelo Ombudsman do jornal Folha de S.Paulo no último domingo. Convocar tecnicidades para esse debate tem servido, basicamente, para obstruir uma saudável pluralidade ao debate público e suprimir a diversidade de vozes e opiniões concorrentes sobre a matéria em questão, mesmo entre especialista da área de economia.

Na verdade, estamos presenciando um fenômeno curioso neste momento. Sempre tivemos um jornalismo profundamente aguerrido no trato com as taxas de juros praticadas historicamente no Brasil. Todos os julgamentos demeritórios acerca dessa prática advinham de uma constatação simples que, agora, dá lugar a um discurso de que o problema é “deveras complexo”: o Brasil tem a maior taxa de juros do mundo.

Isso bastava para recriminar, ao vivo ou no impresso, os juros praticados no País. Agora, não. Comentaristas espalhados por toda a grande imprensa continuam se posicionando contra as altas taxas de juros (porque precisam fazê-lo sob pena de desagradar certas linhas editoriais e comprometer a coerência), mas agora rebatem a posição do atual governo federal alegando que as coisas não são tão simples assim e o debate tem que ser “técnico”. Percebem que não estamos a falar de tecnicidades ou mesmo do respeito às autoridades epistêmicas aqui. Estamos, tão e somente, assistindo ao uso eufemístico dessa expressão cuja serventia é atacar as taxas de juros para, por incrível que pareça, defendê-las.

Sabemos, e não é de hoje, que há uma convergência de interesses sinérgica entre operadores do mercado financeiro e parte expressiva da grande imprensa brasileira – e aqui não estou a evocar uma teoria da subjugação do funcionário aos caprichos e interesses do patrão, mas a apontar que existem perfis e mentalidades bastante alinhadas, diante de determinadas matérias, dentre os profissionais de jornalismo dessas grandes empresas. Infelizmente, quando há esse alinhamento, temos menos jornalismo do que assessoria de imprensa.

Não é à toa que José Henrique Mariante escreveu o seguinte em seu texto na Folha: “A boa prática jornalística pediria também algum investimento no contraditório. Quase não houve”. Creio que resta evidente que as constatações que faço aqui passem longe de ser meras impressões subjetivas e ideologicamente enviesadas.

Já disse e reforço: não vou blefar sobre questões técnicas das Ciências Econômicas, portanto, restrinjo-me a observar as dimensões políticas desses embates. E política é a minha praia. A mim parece bastante convincente a hipótese de que o mercado financeiro, claramente representado corporativamente pelo presidente do Bacen, esteja mantendo taxas de juros bastante elevadas como tática para pressionar o Governo Federal a adotar uma política fiscal que contemple seus interesses e projeções.

Se a hipótese estiver correta, a mim, pelo menos, só resta lamentar. Isto porque Roberto Campos Neto, até pouco tempo parceiro de última hora de Jair Bolsonaro e de Paulo Guedes (continua sendo?), não é o melhor representante dos interesses e prioridades que deveriam conduzir este País neste momento. Em entrevista dada ao Canal Livre, da Bandeirantes, o diretor do Banco Central, ao tratar da suposta agenda e sensibilidade sociais de sua gestão, nos brindou com um testemunho tocante: um garoto que vendia bala na rua lhe afirmou que sua vida foi transformada com o advento do PIX. Campos Neto confessou que quase foi às lágrimas.

Esse é o tipo de transformação social que também emocionaria Paulo Guedes, aquele que disse, dentre outras barbaridades, que pobre só vive nessa condição porque gasta tudo que recebe. Não sabe poupar. O garoto vendendo bala na rua não incomoda. Trata-se de uma condição quase natural às criaturas dessa espécie.

Não deve ser coincidência.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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