O Fator Sangalo e o impeachment

A quantidade de celebridades que resolveram se manifestar mostra que os custos sociais de se opor a este governo estão caindo

Foto: Reprodução/Redes Sociais

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Opinião

A semana ainda não acabou e tudo indica que não acabará nos próximos meses. Não usarei metáforas pugilistas para definir o atual estado do governo Bolsonaro. Não está nas cordas, muito menos na lona. Na merda muito menos, pois nunca esteve distante dela. O que temos é simples: o processo de impeachment parece não ser mais simples hipótese, mas um fato concreto.

Essa gente que nos governa apostava, devidamente, que a CPI da Covid não renderia lá muita coisa além do que já sabido: o governo federal apostou na morte para salvar a reeleição de Jair Bolsonaro, quero dizer, para nos salvar da pandemia. Mas o tal do Diabo não apenas mora nos detalhes como, segundo João Guimarães Rosa, é traiçoeiro. “Invertor” da natureza das coisas. Quis o acaso, que chamamos de Diabo ou às vezes de Deus, que o deputado Luis Miranda viesse a público defender seu irmão – um servidor do Estado e não do governo – contra um esquema que tem todos os clichês de corrupção.

Mas é preciso retroceder para compreender melhor o panorama. Nesta mesma semana tivemos manifestações públicas que muitos julgaram acessórias ou irrelevantes, mas não foram. A cantora Ivete Sangalo teve que falar mais, talvez muito mais, após fazer uma postagem relativamente lacônica sobre sua posição política diante da desgraça que vivemos. Disse que não era sobre partidos, mas sobre humanidade. Acertou sobre humanidade. Errou sobre partidos. Trata-se de partido e se trata de política. É sobre alguma parte que se coloca diante de outras. E no nosso caso temos uma evidente polarização: quem está do lado da civilidade, da tolerância e da vida e quem se opõem a esses objetos e valores.

Diante da enorme repercussão de sua publicação, Ivete Sangalo se manifestou após o episódio nos seguintes termos: “Esse governo que aí está não me representa nem mesmo antes da ideia dele existir”. A sinceridade da fala não deve ser o objeto de nossa atenção ou ceticismo. O que importa é o conjunto do qual essa posição faz parte. A quantidade de pessoas públicas, celebridades, figuras relevantes no cenário da cultura, do entretenimento e da politica que resolveram se manifestar contra o governo Bolsonaro mostra algo virtuoso: os custos sociais de se opor a esse governo estão caindo. Os constrangimentos que favoreciam o “em-cima-do-murismo” estão se dissipando. Não é à toa que Djavan vem à público para se manifestar publicamente contra um governo que, ao que tudo indica, ele depositava alguma fé.

Climas de opinião. Essa é a palavra-chave. Celebridades são boas birutas ou excelentes balizas para usarmos como termômetro do humor e das posições sociais alargadas sobre personagens, fatos e fenômenos. São aqueles que patinam em gelo fino porque, no fim das contas, são os que respondem e são cobrados, muito mais do que nós, por seus atos diante de milhares de pessoas que constituem seus públicos. Não é um mero tuiteiro, mas alguém que tem de lidar, por força da obrigação devida, com a pluralidade das vozes que convergem em seu trabalho. Quando se posicionam, meus caros e caras, é porque precisam. E as valências das respostas dizem mais do que o enunciado em si.

Em outras palavras, Ivete Sangalo não é causa, mas consequência. O fator Sangalo é denotativo do fato de que os ventos da opinião estão mudando, ainda mais para quem nunca teve qualquer problema em se vincular politicamente com grupos tradicionais da política brasileira à esquerda ou à direita, como sabe todo bom observador das coisas da Bahia. Está cada vez mais custoso não se posicionar contra o morticídio deliberado desse projeto de poder. Temos, enfim, uma espécie de quadra virtuosa da democracia que ainda nos resta. Há um clima de opinião crescente em desfavor de um morticídio deliberado e é isso que o fator Sangalo explica; temos demonstrações públicas crescentes em favor do impedimento de uma cidadão repugnante que nunca deveria ter se tornado presidente da República num país que se pretende decente; há um caso aparentemente evidente de corrupção que vincula o presidente da República na aquisição de vacinas indianas; temos as elites que nada têm de alguma coisa melhor no sentido etimológico do termo apavoradas com a possibilidade de Lula se reeleger.

Mas há o elemento final, preponderante. A OAB já prepara há um tempo aquilo que a grande imprensa está chamando hiperbolicamente de “super pedido de impeachment”. O pedido congrega grupos aparentemente improváveis se estivéssemos pensando em 2018: do PT ao MBL. Tudo indica que estejamos pensando em democracia e no reestabelecimento das divergências no campo democrático e não no flerte com o extremismo fascista.

Muitos estavam esperando uma tal da frente ampla para as eleições de 2022. Parece que, na verdade, essa frente ampla tem tudo para se constituir apesar das eleições de 2022. A História já está nos cobrando. Vidas não podem continuar sendo números em planilhas. O impeachmento de Jair Bolsonaro não é uma questão política, mas um ato de defesa da vida. Da saúde púbica.

FORA BOLSONARO!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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