Fernando Cássio

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Doutor em Ciências pela USP e professor da UFABC. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Opinião

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O ensino médio que faz dormir

Depois de anos criticando o excesso de conteúdos escolares, Novo Ensino Médio entrega telecurso e salas sem professores nas redes estaduais

(Ilustração: iStock)
(Ilustração: iStock)
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Criado por estudantes de uma escola estadual da cidade de São Paulo, um divertido perfil no Instagram dedica-se a mostrar imagens de estudantes do ensino médio dormindo durante as aulas. Deitados sobre as carteiras, no chão, em cadeiras enfileiradas e até numa cadeira de praia, dezenas de adolescentes dormem o sono dos justos nas salas de aula. Nem todos dormem, é verdade. Alguns fotografam, marcam os perfis dos dorminhocos no Instagram e escrevem comentários deliciosamente sarcásticos para celebrar as maravilhas da escola pública sem conteúdos. Para matar o tempo das muitas aulas na semana sem professores, os mais desinibidos compartilham dancinhas pelo TikTok.

A genial pianista Martha Argerich conta, em uma rara entrevista, que aprendeu a tocar o magnífico Concerto n. 3 para Piano e Orquestra de Prokofiev enquanto dormia. Ela, que durante a adolescência já apreciava a vida noturna, ouvia a sua colega de quarto ensaiando ao piano durante o sono de manhã. Entre risos, Argerich diz que até cometia os mesmos erros de execução da colega. Para além da anedota pianística, um grupo de cientistas mostrou em 2019 que é realmente possível aprender novas palavras durante o sono. A julgar pela quantidade de dorminhocos nas escolas estaduais de São Paulo, depreende-se que este “itinerário do sono” faça parte do revolucionário projeto de aprendizagem do Novo Ensino Médio.

O vídeo de uma “aula do itinerário” X para o 2º ano, postado pelos alunos no Instagram, mostra metade da classe dormindo e a outra metade conversando entre si ou mexendo no celular. Ao lado do quadro, vê-se uma televisão ligada no conteúdo da “aula”: um material audiovisual pasteurizado produzido pelo Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP) e exibido pela tela do “kit multimídia” distribuído às escolas pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP).

Além da exibição de vídeos em sala da aula, o kit multimídia serve para viabilizar o denominado “ensino híbrido” na rede estadual. O equipamento inclui um carrinho de metal com uma televisão acoplada e um computador portátil com caixa de som, microfone e webcam. O computador fica atrás da TV, de modo que o professor fala para a câmera sem enxergar os alunos que estão imediatamente à sua frente. Assim, tanto quem está acompanhando a aula de casa quanto quem está na sala de aula vê o professor através da tela. Os estudantes fisicamente presentes na sala de aula ficam com a impressão de que a cabeça do professor foi substituída por uma televisão.

A imagem de uma pessoa com uma televisão na cabeça foi extensivamente empregada nos anos 1980 e 90 para representar o emburrecimento provocado pelo excesso de horas na frente da tela. Na inovadora sala de aula do século XXI, em que a cabeça da professora parece um aparelho de TV, a audiência remota não conversa com a presencial, posto que câmera e microfone não alcançam os estudantes presentes na sala de aula. Portanto, a suprema inovação educacional promovida pela Seduc-SP consiste na mesma aula monológica de sempre, só que agora sem a presença física dos estudantes na escola. Faz sentido, uma vez que a milagrosa expansão da carga horária no ensino médio paulista, para a maioria dos estudantes, será feita a distância. O ensino médio na modalidade telecurso não é uma prerrogativa do estado de São Paulo. Modelos semelhantes já foram ou estão sendo implantados em estados como Goiás e Paraná.

Os momentos de formação docente na rede estadual paulista também não escapam à modernização via telecurso. A Seduc-SP recomenda que os horários das ATPCs (Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo) nas escolas sejam preenchidos com vídeos produzidos pelo CMSP. Os professores devem se reunir presencialmente nas escolas para assistir televisão, mas atestar a sua presença na atividade de maneira virtual.

Durante a suspensão das aulas presenciais, a orientação era que os alunos assistissem aos conteúdos do CMSP em substituição às aulas dos professores não vacinados. Estes também poderiam transmitir as suas próprias aulas para que os estudantes assistissem depois ou ouvissem na forma de podcast. Ao cabo de dois anos de ensino remoto precário em São Paulo, o currículo do ensino médio minguou de tal forma e as escolas foram desorganizadas a tal ponto, que os próprios estudantes transpuseram para a sala de aula presencial o modelo de sleep learning que vigorou durante a pandemia.

Passados mais de um mês e meio do início das aulas, o governo de São Paulo ainda está contratando os professores que atuarão nas disciplinas de “qualificação profissional” nas escolas estaduais. Enquanto isso, milhares de adolescentes são obrigados a inventar formas para lidar com o tempo ocioso das aulas vagas – inclusive nas festejadas escolas do Programa Ensino Integral (PEI), onde o governo paulista opera o milagre da melhoria dos índices excluindo estudantes negros e pobres.

Uma professora relata que, no começo desta semana, uma das turmas de sua escola estava sem a primeira aula (novidade!). A porta estava fechada e os estudantes em silêncio. Lá dentro, a TV do kit multimídia estava conectada ao celular de um dos alunos. Sem nada para fazer na escola, os estudantes estão descobrindo formas de usufruir da “liberdade de escolha” que lhes foi prometida pelos arautos da reforma do ensino médio. Enquanto o governo de São Paulo oferece aos estudantes um revival chinfrim do Telecurso 2º Grau, eles debulham o Instagram e o TikTok e evisceram a farsa do ensino médio self-service por meio de dancinhas e perfis bem-humorados alimentados no horário das aulas.

Ironicamente, um dos itinerários formativos do NEM paulista se chama “#SeLigaNaMídia” (área de Linguagens e suas Tecnologias”. Em vez de aulas de “tecnologia” ministradas por pessoas menos proficientes do que eles, os estudantes do ensino médio precisam é de aulas de Sociologia, História, Física etc. para mantê-los acordados e em movimento de aprendizagem. É natural que uma aula de Química às 7:30 da manhã nem sempre pareça agradável a todo mundo. Aprender é cansativo e dá trabalho, mas é justamente o que mantém as pessoas acordadas e responsivas. Fazer cara feia e reclamar da escola, não custa lembrar, também é ser responsivo.

Faz seis anos que a propaganda governamental do Novo Ensino Médio atribui às escolas e ao excesso de conteúdos escolares a culpa por todas as mazelas da educação brasileira. Epistemicidas e desonestos, os elaboradores da reforma chamam a supressão das disciplinas de “interdisciplinaridade”. Assim foi formulada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio, que nas redes estaduais se traduz em currículos oficiais sem conteúdo e irreconhecíveis aos professores – muito embora, bastante reconhecíveis aos parceiros empresariais que assessoram as secretarias de educação.

Meses atrás, os estudantes do 2º ano de uma escola estadual de Mauá/SP estavam enfrentando um dilema. Parte deles desejava repetir de ano para aprender aquilo que não havia aprendido durante o período do ensino remoto. A outra parte não queria repetir de jeito nenhum, pois sabia que, a partir de 2022, com o Novo Ensino Médio, não haveria mais conteúdos a serem aprendidos na escola. Não obstante diferentes, as posições dos dois grupos eram justificadas pela percepção de que o conhecimento importa e que o papel cumprido pela escola não é o mesmo papel cumprido por, digamos, o TikTok e o Instagram. Dormindo ou acordados, os estudantes parecem ter compreendido o sentido da reforma educacional “modernizadora” antes de muitos de seus professores. Sabendo que não vão aprender bulhufas em um ensino médio esvaziado de conteúdos, já estão mostrando isso pela via do escracho para quem quiser ver.

Nota: a fim de evitar punições a estudantes e profissionais da educação, não revelaremos o nome das escolas e nem o endereço do perfil dos dorminhocos no Instagram. Que outros estudantes, em outras escolas do país, sigam o exemplo.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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