Opinião

Não serão (generosas) isenções fiscais a manter indústrias como a Ford no País

‘Os países que mais cresceram investiram pesadamente em indústria. Nós fizemos exatamente o contrário’, escreve Antonio Neto

*por Antonio Neto

Depois de um ano tão difícil como 2020, o novo ano começou com mais uma notícia triste para o Brasil: o fechamento das fábricas da Ford no País e a perda de cerca de 5.000 empregos diretos e 60 mil indiretos, em um cenário de desemprego recorde e a iminência de milhões de pessoas caindo na miséria com o fim do auxílio emergencial.

Em dezembro, a Mercedes-Benz já havia anunciado o encerramento de sua produção de veículos por aqui, e possivelmente outras montadoras seguirão o mesmo caminho.

Pandemia, crise econômica, diminuição do mercado interno, um presidente desequilibrado e que não inspira confiança, a desvalorização do real (sim, Paulo Guedes fez tanta besteira que o dólar foi a muito mais do que R$ 5), tudo isso explica em parte a decisão da Ford.

A parte que não fica tão evidente é como o capitalismo transnacional tem pouco compromisso com o desenvolvimento do país que o acolhe

Desde 1999, a empresa recebeu R$ 20 bilhões em incentivos fiscais. A fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, reverteu um longo processo de decadência da companhia e fez com que ela voltasse a dar lucros milionários por anos. Ou seja, não será com generosas isenções fiscais que vamos garantir a permanência de indústrias como a Ford no Brasil. É preciso ousadia e medidas que enfrentem o problema estrutural que está matando os nossos postos de trabalho.

Em primeiro lugar, é necessário reverter o processo de desindustrialização do país. Em 1985, a indústria representava 48% do PIB nacional; em 2019, esse percentual caiu para 21%. Se considerarmos apenas a indústria de transformação, em 1985 ela respondia por 36% do PIB, e em 2019 por apenas 12%.

Os países que mais se desenvolveram nas últimas décadas foram os que investiram pesadamente em sua indústria. Nós fizemos exatamente o contrário: em 1990, a produção industrial brasileira era equivalente à da China; em 2015 representava só 6% do que o país asiático produziu naquele ano.

A história também mostra que os países mais ricos exportam proporcionalmente mais produtos industrializados, de maior valor agregado, do que produtos agrícolas in natura. É a indústria que gera mais empregos de qualidade e em grande quantidade. São da indústria a maioria das inovações que impulsionam o ganho de produtividade. A indústria 4.0 – com cada vez mais automação e tecnologia da informação – é o caminho do desenvolvimento e do crescimento econômico sustentável.

Para isso, precisamos investir maciçamente em educação, pesquisa e qualificação de mão-de-obra, para reposicionar o Brasil na divisão internacional do trabalho não apenas como exportador de commodities, mas também de produtos industrializados de alto valor agregado.

E, para chegar lá, precisamos de uma nova política industrial e de um Projeto Nacional de Desenvolvimento, como defendido por Ciro Gomes.

 

Para que o Brasil finalmente se torne um país mais justo e menos desigual, é preciso uma política econômica que produza uma taxa de câmbio favorável, juros baixos, alta poupança interna e que consiga unir o setor produtivo e a academia para garantir os avanços tecnológicos que impulsionam o crescimento.

É preciso também uma reforma tributária que garanta simplificação e, principalmente, progressividade. E, neste momento de crise, é urgente a retomada de obras públicas de infraestrutura, a criação de frentes de trabalho e o apoio às micro e pequenas empresas para gerarmos empregos e renda.

Só vamos virar o jogo com o aumento da renda. Renda é dinheiro no bolso do consumidor, e consumo é produção

Não adianta dar incentivos fiscais bilionários, isso não segura uma empresa num país nem depois de cem anos de lucros. Quem pode impulsionar as indústrias e o crescimento do país é o povo empregado, bem educado, bem pago, exercendo o seu direito a uma vida digna.

O Brasil não merece nada menos do que isso.

*Antonio Neto é presidente municipal do PDT em São Paulo, presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros e presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da Informação do Estado de São Paulo. Foi candidato a vice-prefeito de São Paulo na chapa de Márcio França (PSB).

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