Mulheres negras da diáspora em festa com prêmio da paz alemão a Tsitsi Dangarembga

Tsitsi, escritora e cineasta nascida no Zimbábue, brilhou na maior premiação literária do país.

Thomas Lohnes / POOL / AFP

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Diversidade,Opinião

Esse último de 24 de outubro foi um dos melhores dias do ano, certamente um dos melhores desde que aqui na Alemanha, onde vivo e resisto há mais de 20 anos. Um dia que foi falado sobre direitos humanos, diversidade e respeito, sem que tenha sido mais uma morte trágica ou mais um dos muitos atos de agressão aos quais estamos sendo submetidos pelo simples fato de sermos e de existirmos. Mas nesse domingo 24 de outubro, não. Nesse dia especial Tsitsi Dangarembga, mulher negra, escritora, ativista, cineasta, recebeu o Prêmio de Paz da Câmara de Comércio de Livros da Alemanha.

Criado em 1950, o prestigiado prêmio da paz, foi concedida a uma mulher negra pela primeira vez na história. Nele, editores, editoras, livreiros e livreiras da Alemanha laureiam a personalidade que contribuiu para a realização de uma ideia de paz.

Tsitsi Dangarembga nasceu no ano de 1959 no atual Zimbábue, quando o país ainda tinha o nome de Rodésia do Sul. Porém, dos dois e seis anos ela viveu na Inglaterra e, por isso, a sua primeira língua, ou língua materna como costumamos chamar, é o inglês e não Shona, a língua de sua etnia que ela teve que aprender depois retornar ao país que nasceu, quando da declaração da independência. Ela é filha de Susan Susan Dangarembga, a primeira mulher negra que conseguiu ter um título de bacharelado essa terra africana que foi invadida e saqueada por europeus do império britânico.

Sua mãe, Susan conseguiu ter seu bacharelado no ano de 1953, oito anos depois do fim oficial da Segunda Guerra Mundial (tenho certeza que ela também deve ter possuído um nome africano que não deve ter sido escrito no seu diploma de bacharelado).

Mas como disse, quero falar desta escritora que me inspirou em anos difíceis na minha jornada acadêmica aqui na Alemanha, ela foi inspiração porque foi um dos primeiros livros que li em alemão durante meu estudo de etnologia na Universidade de Mainz, onde fui uma das poucas estudantes negras.

Daqui da minha sala vi o discurso de Tsitsi de pé, vibrando com cada palavra pensada e pronunciada. Cada palavra teve uma coloração quando foi pronunciada por ela, como, por exemplo, quando ela falou dos métodos discriminatórios do colonialismo britânico e de como a minoria branca tomou o poder e fez esterilizarão em mulheres negras sem que elas soubessem o que estava acontecendo, isso em pleno século vinte.

Esta mulher inspiradora tem uma trajetória de produção cultural, social e política singular, sua literatura é universal e africana, sua literatura é UBUNTU. Ela filosofou sem medo de que alguns venham a dizer que ela vem de um país subdesenvolvido, pelo contrário.

Esta foi a primeira Feira Internacional de Livros depois da pandemia e o brilho foi dela, nossa irmã Tsitsi, linda e brilhante com seu sorriso de menina peralta ocupou na Igreja de S. Paulo – em Frankfurt este “Lugar de Fala”.

Como sempre, nesses eventos onde estão coesas as pessoas privilegiadas da Alemanha, havia muito poucas pessoas de descendência africana, apesar de ter sido na cidade de Frankfurt am Main onde há uma grande comunidade negra e ativa, que teria estado feliz de poder participar deste evento.

A Igreja de S. Paulo em Frankfurt tem um papel importante na restauração, ou melhor, no surgimento da democracia na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, e por isso é uma casa onde, tradicionalmente, acontecem atos políticos e de reflexões sobre democracia.

Como mulheres negras que têm muito o que falar, Marianne Mahn, ativista de Frankfurt, não aceitou que lhe recusassem o direito de cumprimentar Tsitsi Dangarembga apesar de os poderosos terem ignorado seu pedido. Assim, quando o prefeito começou a falar, ela simplesmente chegou no pedestal e deu sua mensagem, falou das agressões e que isso não pode ser tolerado em um país que quer ser democrático

Não foi fácil, mas ela conseguiu colocar sua presença negra naquele espaço branco mostrando ao prefeito que aqui estamos. Isso não passou despercebido à nossa querida Tsitsi Dangarembga. Duas gerações de mulheres ativistas.

Foi um ato muito especial no qual a ativista de direitos humanos Tsitsi brilhou e ocupou este espaço, onde o público majoritariamente branco e privilegiado de pessoas acadêmicas desfrutam até hoje dos privilégios ganhados através de colonizações. Um público que estava lá recebendo uma grande chance para refletir o que é direito e o que é demonização de seres humanos, refletir sobre genocídios que foram praticados durante centenas de anos no continente africano no passado assim também como no presente.

Como Tsitsi disse, são violências sistêmicas que incorporaram filosofias imperialistas britânicas, violências que privilegiaram os poucos brancos que até hoje têm influências nas políticas das ex-colônias. Que estruturaram o racismo como veículo de lucro e a exploração, extorsão da terra e dos seres humanos que nela vivem.

Ela subiu ao pedestal depois de ter sido apresentada por uma outra mulher potente que é Auma Obama. Nascida no Quênia, Auma é socióloga, ativista e meia-irmã mais velha do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama. Assim como Tsitsi, uma mulher empoderada que também decidiu por viver no país africano de origem e lá assumir a responsabilidade de educar crianças, ensinando-lhes que existe um mundo, ali mesmo, um mundo que é delas e tem que ser cultivado e respeitado por elas mesmas, para que, no futuro não venha uma delas, a ser mais uma das vítimas ao  atravessarem o mar mediterrâneo arriscando a vida, morrendo, ou morrendo todo dia um pouco dentro da Europa por conta de falta de chances.

Minha ídola vestiu uma roupa colorida, uma roupa com uma estética africana. Sua voz me empoderou e sempre estará em minha alma como um mantra que nos mostra que sempre haverá caminho e que não devemos desistir, que quem compreende o que é UBUNTU não se corrompe e não abre mão de humanidades. Que ela seja a primeira, mas não a única a receber este prêmio, e que não precisemos esperar pelo reconhecimento da Europa para conhecer autoras africanas e aprendermos com elas o esquecemos através das violências que nos reduz a nossa cor da pele sem respeitar nossas diversidades.

Tsitsi Dangarembga mereceu este prêmio de paz, mereceu porque reconheceu que a literatura pode abrir portas e indicar caminhos. Ela percebeu que também através das línguas de colonizadores poderemos escrever nas entrelinhas e trazer nossas experiências, crenças e moral para melhorarmos os mundos. Pensamos, logo existimos africanizando, existimos porque somos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBa. Pós-Graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etinologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescentes na Alemanha.

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