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Mino Carta: A herança de Caim

Opinião,Política

E Galileo Galilei disse: “Eppur si muove”. Bertolt Brecht já os escalou na ribalta. Vejo-o voltar-se para a plateia, com expressão matreira para murmurar um trovão manso: “E, no entanto, move-se”. Falava da nossa Terra, processado por heresia pela Inquisição, no melhor estilo de Sérgio Moro, que pretendia o planeta no centro do universo, enquanto o Sol girava ao seu redor.

Pergunto aos meus resignados botões se o guru do presidente Bolsonaro, Olavo de Carvalho, e a ministra Damares percebem a diferença das estações, ao menos entre calor e frio. Ora, ora, respondem, felizmente eles não dispõem de tempo para se interessar por fenômenos desimportantes, têm mais para pensar. Aqui no meu canto, ocorre-me um grego chamado Tales capaz de medir de cabeça a distância entre a Terra e a Lua por ocasião de um eclipse. Constatou então que planeta e satélite não eram planos e errou por muito pouco no seu cálculo, algo em torno de 10 mil quilômetros, uma bagatela diante dos 360 mil apurados com o emprego de instrumentos modernos. Tales, de Mileto, nasceu 624 anos antes de Cristo.

Há quem diga que a vida é um sonho e haver mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia. Figuras como o inspirador presidencial e a ministra abençoada pela visão de Jesus em um pé de goiaba pertencem à categoria dos seres humanos imunes ao contágio da vã filosofia. Verifico que nesta edição Nirlando Beirão das alturas do QI dirige aos leitores umas tantas perguntas a respeito do criacionismo, certamente sugeridas por seu infatigável espírito investigativo e melhor conhecimento das questões ali aventadas.

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Não tenho perguntas a acrescentar ao questionário, a não ser uma constatação inevitável. Expulsos do Paraíso Terrestre para ganhar a consciência de sua finitude e, em geral, dos riscos da vida, Adão e Eva põem no mundo um filho bom e outro mau. Este, Caim, mata Abel. Nirlando pergunta: quem foi a mulher para dar continuidade à estirpe? Deu-se, obviamente, o primeiro incesto. Permito-me ir além: descender de Caim não é um trunfo, somos os herdeiros do vilão primevo, integral e absoluto. Aterradora conclusão, embora explique diversos aspectos da natureza humana.

O presidente Bolsonaro diz ter a missão de combater a corrupção e a violência. São legados de Caim. Árdua, imponente, a tarefa a que se propõe o primeiro mandatário. Como de hábito, sou assolado pelas dúvidas, instigadas de saída por uma situação banal. Ando pela rua e observo, pendurados nos postes, cartazes em que se estampa a garantia de que quaisquer infrações de trânsito, até a retirada da carteira de motorista, serão perdoadas desde que o infrator ligue para certo número de telefone. Nunca vi algo similar em países do mundo dito civilizado. O exemplo é aparentemente pequeno, mas persuasivo, da devastação moral provocada por uma doença endêmica. Em política, nenhuma bala é perdida. Não há partido que escape, a começar por aqueles mais habilitados a perpetuar as oligarquias e a servir à casa-grande.

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Tanto mais pesada a missão do presidente, a se considerar a tensão criada pelo caso do motorista Queiroz e pelas suspeitas a envolver as famigeradas milícias cariocas. E por falar em violência, colocar armas nas mãos da família brasileira não me soa como a medida mais adequada. Gozo, inclusive, da aprovação até do mundo mineral.

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