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O primeiro mês de Bolsonaro

Opinião,Política

O primeiro mês de Bolsonaro e sua turma no governo foi ridículo e assustador. Nada, no entanto, que não se pudesse antecipar.

Imprevisível era que esses 30 dias terminassem em tragédia. Mas aconteceu, com o rastro de morte e destruição provocado em Brumadinho por mais um desastre humano e ambiental. Juntamente com a lama, lá se foi o discurso econômico da turma.

É cedo para decretar, mas tudo indica que, muito antes do que se poderia imaginar, o “bolsonarismo” morreu. Ao longo das próximas semanas e meses, teremos pesquisas para dar números ao fenômeno, cujos sinais são visíveis.

Dizer que o bolsonarismo acabou não significa supor que não há mais quem goste do cidadão. Gente assim ainda existe, até porque foi cedo atraída e estabeleceu laços com o personagem. Em sua maioria, é saudosa da ditadura militar, acredita na violência como remédio para tudo, é intolerante, agressiva e ressentida.

Tanto no Brasil quanto em outros lugares, pessoas com esse perfil são lamentavelmente comuns, em especial quando os países atravessam crises econômicas e há muita frustração de expectativas. Bolsonaro tornou-se seu candidato por ser igual a elas.

Segundo as pesquisas, o bolsonarismo de origem não é muito grande, mas tem tamanho significativo: em 2018, ocupava um nicho de cerca de 15% do eleitorado. Na média de todos os levantamentos publicados, o capitão só saiu dele no fim de agosto, em plena campanha, quando atingiu 20%. Alcançou 25% quando faltava menos de um mês para o pleito, turbinado pelo desânimo com os outros candidatos conservadores e depois da misteriosa “facada”.

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Houve um momento, logo após a eleição, em que parecia ter potencial para crescer, consolidando a votação obtida e se enraizando na opinião pública. Antes do fim do ano, a hipótese se desfez. O primeiro mês a sepultou.

Será que o bolsonarismo genuíno ainda tem o apoio de 20% da população? Ou refluiu para o piso de 15%?

Quem sabe hoje nem sequer chegue a isso?

Tudo indica que não apenas não conseguiu crescer e alcançar o porte necessário a reivindicar algo próximo a uma hegemonia como retrocedeu e retornou ao gueto social onde nasceu. Em menos de um mês, desapareceu a pequena liderança que possuía. Até Temer durou mais.

A dissolução do bolsonarismo não muda, contudo, o antipetismo que existe em nossa sociedade. Uma coisa é Bolsonaro ser o que é, outra é a parcela antipetista mudar de opinião.

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A aversão dessas pessoas ao PT supera a vergonha de haver votado em Bolsonaro. Por maiores que sejam as evidências de sua incapacidade, por mais que o governo vá de uma palhaçada a outra, mesmo que se sucedam as denúncias contra pai e filhos (de desvio de recursos públicos a envolvimento com o crime organizado), o antipetismo lhes fornece um motivo para não dar o braço a torcer.

É a rejeição ao PT que torna possível a Bolsonaro ultrapassar o círculo de seus seguidores amalucados. Ele precisou dela para tornar-se competitivo na eleição e agora é seu dependente. Aproveita, por isso, qualquer oportunidade para atacar Lula e o PT, mesmo em lugares onde apenas revela sua mesquinhez (como em uma conferência internacional).

Esta, porém, é uma estratégia ineficaz a médio e longo prazo, ainda mais depois de uma eleição em que o eleitorado foi levado a acreditar que todos os problemas nacionais são “culpa do PT”. Se a causa é simples, depois de removida a cobrança por resultados é imediata e a repetição da lengalenga antipetista passa a ser contraproducente.

E a tragédia em Brumadinho? Ela sugere que o ultraneoliberalismo da elite, adotado por conveniência por Bolsonaro e traduzido no programa econômico de Guedes, está fundado em uma balela. Livres da “ingerência do Estado”, o capitalismo brasileiro e sua burguesia não são capazes de se autorregular e produzir progresso e bem coletivo. Muito pelo contrário.

Depois que a “luta contra a corrupção” saiu de cena, o que resta à turma de Bolsonaro é torcer para que maioria da sociedade se convença de que bom é o “Estado mínimo”: menos previdência social, menos direitos, menos proteção aos mais fracos, menos educação, menos saúde, menos moradia popular, menos fiscalização, menos controle ambiental. Em que o mercado é suficiente para assegurar o crescimento da riqueza e sua justa repartição.

A chance de isso dar certo é remota e talvez Bolsonaro só disponha mesmo da muleta do antipetismo. Por enquanto, dá ao clã mais tempo para fugir das consequências de seus “rolos”. Vamos ver até quando funciona.

Quanto à imagem, a luz vermelha já está acesa para Bolsonaro.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

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