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Mourão pró-aborto? Relembre práticas e discursos nada moderados do vice

Opinião,Política

O general Hamilton Mourão resiste a assumir o papel de vice decorativo. Se mesmo antes da eleição ele já tentava preencher os vácuos deixados pelo estilo brucutu de Jair Bolsonaro, o militar personificou de vez a ‘face razoável’ do governo desde que assumiu interinamente a presidência pela primeira vez.

Nas últimas semanas, Mourão tem distribuído afagos à imprensa, recebido diplomatas e feito questão de tornar públicas suas opiniões sobre os mais diversos temas.

A declaração mais recente do militar da Reserva a dividir opiniões envolve um tema caríssimo ao núcleo duro do governo. Ele disse acreditar que o aborto deve ser uma escolha pessoal da mulher. “Minha opinião, como cidadão, não como membro do governo, é de que se trata de uma decisão da pessoa”, disse, em entrevista ao jornal O Globo.

Coube a Mourão assumir a presidência da República quando Bolsonaro foi a Davos e, também, por um dia, enquanto Bolsonaro recuperava-se da cirurgia para remover a bolsa de colostomia que carregou desde o atentado a faca que sofreu durante a campanha eleitoral. Ainda internado, o capitão da Reserva agora despacha de dentro de um escritório improvisado, no quarto hospitalar. “O trabalho tem que continuar”, escreveu o presidente nas redes sociais. Indireta?

Seria o general um defensor solitário do livre pensar no governo? Ou trata-se uma tática para pavimentar o próprio caminho em caso de um desgaste incontornável do chefe? Só o tempo dirá.

Enquanto isso, relembre algumas posições contraditórias do vice “moderado” de Jair Bolsonaro.

Imprensa

Diferente da relação conturbada que o presidente construiu com a imprensa, em boa parte incensada pelos filhos e por blogueiros alinhados ao PSL, Mourão não se furta a conversar com a imprensa nem foge de assuntos controversos.

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O general é presença fácil nas entrevistas quebra-queixo nas cercanias do Planalto – aquelas em que repórteres cercam o entrevistado, eventualmente atingido por algum microfone. Corre o boato de que o apelido dele entre os repórteres setoristas em Brasília é ‘Mozão’.

Apesar dos afagos, a prática mostra que o apreço de Mourão pela liberdade de imprensa não passa da página 2.

A Lei de Acesso à Informação foi alterada significativamente sob sua caneta. Em decreto, o vice ampliou o rol de servidores que podem tornar ‘secretos’ ou ‘ultrassecretos’ documentos do governo. Esse tipo de sigilo é válido por até 25 anos. Até então, só ministros, embaixadores, comandantes da Forças Armadas, o presidente e o seu vice podiam fazê-lo.

Durante a campanha eleitoral, quando provocado por um espectador em uma palestra na Associação Comercial de São Paulo, Mourão reafirmou a importância da liberdade de imprensa. “Prezo demais pela liberdade de imprensa, digo e repito sempre: a mídia é para [fiscalizar] os governantes, e não para os governados. Se não, teremos aqui só o Pravda, o Granma. Críticas têm que ser feitas.”

Mas complementou a pensata com uma declaração nada moderada:

“Só faço certa objeção quando se busca inocular na população alguns conceitos ideológicos que não estão de acordo com os parâmetros do que somos, e somos uma democracia cristã. Não podemos exaltar bandidos, e temos que exaltar a nossa história, os heróis que chegaram até aqui.”

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Ditadura

Este é um dos únicos assuntos nos qual a opinião do general não parece ter mudado muito. Em 2015, anos antes de tomar assento na chapa de Bolsonaro, Mourão ganhou notoriedade por convocar os militares para a “luta democrática”, em discurso no Clube Militar. Dias mais tarde, achou por bem organizar uma homenagem ao Coronel Brilhante Ustra, que dispensa apresentações. A ousadia lhe custou a chefia do Comando Militar do Sul.

Em entrevista jornal ao El País publicada nesta sexta 1, Mourão voltou a relativizar as barbáries do Regime Militar, afirmando que se viveu “uma pequena guerra” no período, e que toda a conjuntura de então deveria ser revista pelos historiadores.

Segundo o vice de Bolsonaro, o período não deveria ser considerado uma ‘ditadura’, mas sim um ‘período autoritário’. “Chamar de ditadura um período que, a cada quatro anos, mudava o presidente é uma ditadura muito diferente”, disse, sem mencionar que não era o povo quem escolhia, pelo voto, seu presidente ou seus governadores.

Venezuela

Em meio à pior crise do governo Nicolás Maduro, o general saiu-se mais uma vez como voz moderada. Em um breve comentário nas redes sociais, Mourão defendeu uma saída interna para o país, contrastando com o tom belicoso de outras figuras que orbitam o Planalto e do próprio presidente da República.

“A questão da Venezuela só será resolvida quando as Forças Armadas venezuelanas se derem conta que não dá para continuar como está e oferecerem uma saída para Maduro e o grupo dele”, escreveu.

As análises que ele fazia na campanha eram um pouco diferentes.  À época, o então candidato admitia a possibilidade de as Forças Armadas brasileiras atuarem em “missão de paz” no país.

“Na minha visão, aquilo vai terminar em um banho de sangue, e acho que a nossa próxima Força de Paz [sic] vai ser lá dentro da Venezuela”, disse o general, também na Associação Comercial de São Paulo, em setembro. Ele mesmo repetiu a declaração em entrevista à GloboNews no mesmo mês.

Militares na Reforma da Previdência

Quando a discussão se dava sob o governo Temer, Mourão rejeitou com veemência a inclusão de si e dos seus nas contas. Argumentava, entre outras coisas, que as especificidades da carreira exigem ‘tratamento diferenciado’. Também saiu contra a constatação de que o gasto com oficiais inativos é grande demais. (Leia o texto na íntegra.)

Agora no governo e sob pressão do mercado para aprovar logo a Reforma, o general parece ter mudado de ideia. Em entrevista recente ao El País, Mourão garantiu que os militares serão incluídos. Embora não pela idade mínima, como o restante dos civis, e sim trabalhando por mais tempo antes da inatividade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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