Opinião

Lula tem inúmeros acertos em política externa, mas a diplomacia também se ressente de erros

Teria o chanceler, em algum momento de sua longa carreira, pisado o humilde solo nicaraguense?

O presidente Lula em viagem à França. Foto: Ricardo Stuckert
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“O ponto de partida da ação foi uma reunião de Bolsonaro com cerca de 60 embaixadores estrangeiros em 18 de junho de 2022, no Palácio da Alvorada”André Barrocal, em CartaCapital

Têm sido inúmeros os acertos do presidente Lula em política externa, nos últimos dias.

A viagem a Roma para encontrar o Papa e unir esforços para a paz; a visita a Paris e a fala contundente para a multidão de jovens reunida em frente à Torre Eiffel, em que deixou claro que a dívida ambiental cabe aos países industrializados; a recepção, ontem, ao presidente da Argentina, na qual foi anunciada linha de crédito especial para empresas brasileiras que exportem ao país vizinho.

Entretanto, como toda atividade humana, a diplomacia também se ressente de erros: o voto de condenação à Nicarágua, na Organização dos Estados Americanos, talvez possa ser atribuído à ignorância do Itamaraty, mas essa dificilmente poderia ser escusada.

Na hipótese de que se tenha tratado de desconhecimento cabem as seguintes perguntas: o responsável pelo voto, o ministro das Relações Exteriores, esteve no país previamente, para conhecer, in loco, a situação?

Não é pergunta ociosa: seu predecessor, Roberto de Abreu Sodré (sim, o banqueiro e ex-governador de São Paulo, responsável pela Operação Bandeirantes, que assassinou e torturou incontáveis presos políticos – ou seja, impoluto do ponto de vista de seu direitismo) lá esteve, para dialogar diretamente com as autoridades locais, antes de formar opinião, já no longínquo 1987.

Segunda demanda: teria o chanceler, em algum momento de sua longa carreira, pisado o humilde solo nicaraguense?

O mesmo vale para o embaixador junto à OEA, que, com salário beirando os 100 mil reais, poderia ter exaurido a saudável curiosidade de visitar país tão bonito e diversificado, em nada perdendo a Washington e às belezas de seu país de resistência atual, os Estados Unidos da América.

Terceira pergunta: teriam todos os dois refletido sobre o absurdo que é condenar um país que nem sequer integra a agremiação, como é o caso da Nicarágua com relação à OEA? Fidel Castro, coberto de razão, a intitulava “Ministério das Colônias”.

Por fim, como recorda meu amigo o jornalista Beto Almeida, todos os países que foram alvos de tentativas de golpes de Estado não detiveram, justamente, os culpados? Não o fez o próprio Brasil?

Não seria o ranço lavajatista da diplomacia brasileira (se todos dizem que a Nicarágua é uma ditadura – maiormente os impolutos Folha de S. Paulo, O Estado e O Globo – deve ser mesmo) apenas um fruto podre da irresponsabilidade do Ministério das Relações Exteriores? Não contribuiu a instituição para a famosa reunião do genocida com os embaixadores, acima referida, a qual deverá levar o monstro à inelegibilidade? Não estava o então chanceler presente à mesma, ocupando a primeira fila? A instituição pediu desculpas ao País por ter tomado parte ativa na tentativa de deslegitimar as eleições e, por aquele meio, dar um verniz de legalidade ao golpe de Estado?

Inquirido sobre a recente tentativa de golpe de Estado na Rússia, no fim de semana passado, o presidente Lula respondeu que ainda não contava com elementos para responder.

O que faz o MRE? Não produziu os subsídios necessários? Pode existir alguma dúvida quando uma milícia ameaça um Estado? Estariam torcendo pelo mesmo desfecho dos colegas ocidentais?

Depois, o assessor especial respondeu que a instabilidade na Rússia não interessa ao Brasil. Bem, parece o óbvio – e é… Em contraste, não caberia refletir sobre o que une as atualidades do Brasil, do Sudão e da Rússia?

Não foram todos os três Estados ameaçados por milícias? No Brasil, não chegaram a governar por quatro anos, sendo vencidas por eleições em que seu representante máximo cometeu todo tipo de ilegalidade que o cargo de presidente lhe facultava? Não tentaram golpes de Estado, antes, durante e depois do pleito?

No Sudão, não bombardearam a capital e mantêm a população refém por mais de um mês? Não mataram dezenas de pessoas e deslocaram milhares para os países vizinhos, empobrecidos e palco de instabilidade política também eles?

Então, qual a dificuldade em entender o que ocorrera na Rússia?

Na melhor das possibilidades, os diplomatas não refletiram sobre o neocolonialismo e como as potências coloniais (basicamente, as mesmas dos últimos três séculos, vale notar) utilizam-se dessas forças políticas e militares – quando as conveniências requerem – não importando que sejam irregulares, ilegais e ilegítimas, ao mesmo tempo em que fazem juras de amor à democracia, nos palcos – que assim manipulam – da ONU, da OEA etc.

Para isso, buscam infundir nas sociedades a noção de que a política é um mal. Com isso, enfraquecem o Estado e abrem campo para a atuação das milícias, que podem ser armadas ou não (no caso da Nicarágua, do Sudão e da Rússia, eram; no caso brasileiro, um misto, sendo o armamentismo crescente delas estimulado pelo então chefe supremo).

Vale notar que no enfraquecido, mínimo Estado libanês, nove entre dez famílias não contam com recursos suficientes para o mínimo necessário à subsistência.

No Haiti, outro exemplo de estado mínimo, segundo o UNICEF, fundo das Nações Unidas para a infância, dois milhões de pessoas vivem em áreas controladas pelas milícias, na maioria mulheres e crianças, vítimas de todo tipo de violações, inclusive sexuais.

Naquela ilha caribenha, mais de 165 mil pessoas tiveram de deixar seus domicílios e 5 milhões não contam com os meios mínimos de subsistência, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.

Mas vidas do Sul pouco importam aos olhos dos governantes do Norte: a embarcação de imigrantes superlotada que naufragou há mais de uma semana na costa da Grécia, um barco pesqueiro com mais de 700 pessoas, foi identificada pela marinha grega e pela União Europeia, sem que a socorressem, deixando que soçobrasse, com centenas de mortos, inclusive mulheres e crianças.

Já o submarino com cinco milionários, que buscava os restos do Titanic nas águas profundas do Atlântico, contou a assistência de vários navios de resgate dos EUA, do Canadá e da França, tendo sido lançados ao mar até radares flutuantes, na tentativa de identificação da embarcação milionária, que também contou com barco robô não-tripulado, francês, em seu encalço. Para os desgraçados imigrantes, tentando fugir da pobreza gerada por esses mesmos países, nada disso se viu…

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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