Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

Lula, o aborto e os militares

Há mais cálculo político e testes do que parece

Foto: Ricardo Stuckert
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O candidato à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou dois episódios políticos que mexeram com os brios de muitos analistas e comentadores de redes digitais. Mais especificamente, tratou do tema do aborto e fez uma fala relativamente dura ao tratar dos militares.

Ainda que, nos dois casos, só tenha dito verdades, muitos democratas de plantão manifestaram preocupação com os efeitos políticos dessas falas, afinal, hoje, pensar em derrota de Lula é pensar em vitória de Jair Bolsonaro. Não tem mais para onde correr. Houve um certo consenso de que Lula errou ao tratar dos temas com os enquadramentos que utilizou. Alguns foram, inclusive, adiante e vaticinaram: Lula teria ouvido o assessor errado.

Bem, eu acho que não podemos perder de vista uma coisa fundamental se mantivermos alguma lucidez e honestidade intelectual: Lula possui uma inteligência política ímpar. Do mesmo modo, é um dos políticos mais experientes do mundo e de bobo nada tem. Achar que Lula foi mal conduzido por um terceiro é subestimar demais essas verdades absolutas. Lula faz cálculos políticos e escolhas diante dos cenários e das conjunturas. Eu creio que esse foi o caso.

Segundo todas as boas pesquisas disponíveis, Lula reina plenamente quase na casa dos 45% de intenções de voto. E mostra uma estabilidade bastante expressiva se considerarmos que se mantém nesse patamar pelo menos desde janeiro e com quase 70% de seu eleitorado manifestando convicção no voto. Por essas e outras que eu até acho engraçado quando dizem que Lula está “estagnado”, dando um ar negativo a essa condição, quando, na verdade, é tudo que o candidato precisa para alcançar seu objetivo final: estabilizar-se nesse patamar. O que isso significa?

A meu ver, significa que Lula tem bastante gordura para queimar. Inclusive para testar posturas, posições e discursos. Creio que tenha sido esse o cálculo do ex-presidente nos dois episódios da semana. Vamos a eles.

O aborto. De onde vejo, Lula pautou a discussão de um tema profundamente relevante em termos morais, mas principalmente em termos de saúde pública. O direito ao aborto, acredito eu, é um daqueles temas de eterna controvérsia. Nunca teremos um consenso a respeito. Será sempre uma tema de intensa disputa no debate público. O receio geral é justificável, afinal, o aborto sempre foi uma agenda instrumentalizada pelo moralismo de extrema-direita para criar fantasmas e espantalhos contra seus adversários. Portanto, a fala de Lula, num país ultraconservador como o Brasil, poderia dar combustível para a candidatura de Jair Bolsonaro.

Contudo, eu creio que Lula prestou um bom serviço ao tratar do tema. A começar pelo enquadramento bem, digamos, maroto que utilizou: o Lula como indivíduo e cidadão é contra o aborto. Sinaliza para o eleitorado conservador. Mas o Lula gestor e candidato a presidente entende que a descriminalização do aborto é uma questão de saúde pública. E, de fato, é. E, de fato, precisa ser discutida quando temos mulheres de baixa renda morrendo por realizarem procedimentos cirúrgicos em condições animalescas de higiene diante de outras mulheres, seus maridos, namorados, amantes, parceiros e parceiras com condições de realizarem o aborto sob condições dignas de higiene. Não entrarei em mais detalhes, mas, como diz o sábio ditado, o ultraconservador e a ultraconservadora são contra a descriminalização do aborto até a amante do marido engravidar, não é? É.

Eu creio que há misto de convicção e cálculo nessa investida de Lula ao tratar de tema tão espinhoso e de fácil instrumentalização. Há algum gordura para queimar em termos de voto. Além disso, Lula sabe, como qualquer um que tenha lido minha coluna anterior, que seus votos muito dificilmente o abandonarão. Mas há mais: a agenda moral que elegeu Jair Bolsonaro em 2018 – e o aborto fez parte dessa agenda – muito dificilmente terá a força que teve diante dos problemas de escassez material, da inflação e da carestia que atingem todos os brasileiros e brasileiras. Mesmo o ultraconservador religioso para quem o tema do aborto é de extrema relevância não é um ser político unidimensional. Os problemas econômicos também o atingem e, certamente, seu voto será definido levando em conta essa variável. Lula não chega a empatar no voto evangélico com Jair Bolsonaro à toa.

Desse modo, eu creio que Lula tenha feito um cálculo bastante simples: eu tenho gordura para queimar, eu tenho votos e posso, portanto, pautar um tema fundamental, ainda que controverso. Bem, para adicionar um outro elemento, remeto a uns tweets publicado pelo professor Fábio Malini, especialista em monitoramento e cartografias digitais da UFES, que identificou que a repercussão da fala de Lula se deu com impacto apenas entre aqueles que manifestaram receio de Lula perder votos. Ou seja, o cálculo de Lula pode ter sido mais acertado do que julgaram seus críticos.

Os militares. Lula, mais uma vez, só disse verdades e, definitivamente, o problema aí transcende as eleições. O ex-presidente disse que pretende tirar milhares de militares lotados em diferentes instâncias de diferentes escalões do governo federal. Como se sabe, Lula estava falando tão e somente do aparelhamento político e armado que Jair Bolsonaro tem feito no Estado brasileiro usando militares em sua gestão. Do meu ponto de vista, essa é a questão mais importante da democracia brasileira: encarar, com lucidez e coragem, o fato de que há anos que os militares tutelam nosso sistema político promovendo absurdos como o próprio emparedamento do Superior Tribunal Federal para evitar que Lula disputasse as eleições em 2018 e Jair Bolsonaro vencesse. E conseguiram.

Lugar de militar não é na política. É na caserna. Creio que Lula fez o mesmo cálculo nesse episódio. Usou de sua popularidade para tratar de um tema urgente e crucial para pensarmos em alguma sobrevida do pouco que ainda nos resta de democracia.

Bem, mas como disse, o papo aí é de outra ordem que não eleitoral. O que Lula pode ganhar nessa história é a ativação do rancor militar politicamente interessado que não quer Lula presidente como nunca quis. Em outras palavras, dá munição para o golpismo militar que, ao contrário do que dizem muitos e muitas especialistas por aí, está mais engatilhado do que se imagina.

Para quem talvez não tenha conhecimento, o novo comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, estava à frente do Comando de Operações Terrestres (Coter) antes de assumir o novo cargo. O Coter é um órgão do Exército cujo objetivo é coordenar e conduzir ações de controle sobre Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares. Para bom entendedor, meia palavra basta: Jair Bolsonaro já sabe há muito tempo que sua disputa não é contra Lula, mas contra a democracia. Para tanto, nada melhor do que azeitar as relações entre Forças Armadas e Polícias Militares. É bastante evidente que é por aí que o atual presidente pretende vencer as eleições: fraudando-a. E, não. Se houver golpe, definitivamente não será nos termos que conhecemos e já vivemos historicamente.

Desse modo, eu creio que Lula mais acertou do que errou. E mesmo que o que tenha dito alimente os ímpetos golpistas dos militares, eu só vejo vantagem. Prefiro sempre a transparência. Acho melhor que saibamos exatamente onde estamos e em que tipo de democracia vivemos do que ficarmos fingindo que vivemos em algo diferente da realidade concreta e objetiva, afinal, o Brasil vem naturalizando absurdos e inventando ficções terríveis sobre si, como foi mesmo o caso do General Villas-Boas e sua ameaça certeira ao STF em 2018. Na contramão da corrente, portanto, creio que Lula tenha feito boas escolhas nos dois casos.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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