O avanço da fome no governo Bolsonaro

A pandemia e a resposta do governo à crise sanitária foram determinantes para o agravamento das estatísticas relacionadas à pobreza e fome

Créditos: EBC

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Frente Ampla

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostram que a pobreza está aumentando no Brasil e junto com ela, a fome. A renda média do trabalhador, em queda constante, atingiu seu menor patamar desde 2017, lastreada por um contingente de desempregados que ultrapassa as 14 milhões de pessoas e a inflação que começa a bater na casa dos dois dígitos. Quem mais padece é a população menos favorecida.

No final do ano passado, cerca de 58 milhões de brasileiros e brasileiras estavam em situação de insegurança alimentar, isto é, pessoas que corriam o risco de não terem comida por falta de dinheiro. O número equivale a 27% da população, mais de um quarto do total, evidenciando a sua extensão no país e as consequências para a sociedade.

A pandemia do novo coronavírus e a resposta do governo federal à crise sanitária foram determinantes para o agravamento das estatísticas relacionadas à pobreza e fome no Brasil. A disparada dos preços de gêneros básicos presentes na dieta das famílias brasileiras é apenas um dos reflexos da gestão econômica equivocada, sendo o aumento da miséria a face mais perversa da incompetência administrativa instalada no País.

 

O fantasma da fome só não é mais assustador graças ao auxílio emergencial, cujo valor em mais de uma ocasião foi majorado pelo Congresso, tendo-se em vista as propostas iniciais apresentadas pelo governo federal com valores irrisórios e incapazes de fornecerem o mínimo para o sustento digno de uma pessoa.

A dificuldade de recuperação da economia trouxe consigo a volta da inflação, que vem atingindo especialmente o setor alimentício. Nele, o índice acumulado no primeiro ano da pandemia chegou aos 15%, superando bastante a inflação média nacional.

A insegurança alimentar no Brasil cresceu ao ponto de novamente figurarmos no “Mapa da Fome”, conjunto de nações em que 5% ou mais de sua população são subalimentadas. Em 2014 havíamos deixado a infame lista – para retornarmos durante a mais grave crise sanitária já registrada em nossa história. São 19 milhões de seres humanos que não têm nada para comer.

Enquanto isso, o governo federal parece gerir um país paralelo em que o desemprego, a estagnação econômica e um saldo de quase 600.000 mil mortos pela pandemia (com aumento de infecções por novas variantes) não fazem parte do dia-a-dia da população. A prova disso foi o desconexo discurso proferido na abertura da Assembleia Geral da ONU, cuja participação brasileira foi marcada pela mentira, a vergonha e a irresponsabilidade.

Em sua fala, o presidente reiterou que não tem nenhuma condição de liderar o País e perdeu a oportunidade de tentar reaver o mínimo respeito para o Brasil enquanto nação. A debilidade do discurso – ilustrada pela inacreditável defesa do tratamento precoce contra a Covid-19 e a suposta “vitória sobre um socialismo iminente no Brasil” – é prova inequívoca do mundo paralelo em que Bolsonaro vive. O agravamento do isolamento internacional e a fuga de investidores são resultados presumíveis.

Enquanto isso, a fome avança em um país cujo agronegócio bate recordes de produtividade ao mesmo tempo que a agricultura familiar, a grande responsável por compor as cestas básicas que irão para a mesa das famílias brasileiras, perde terreno para a monocultura voltada à exportação.

O aumento da miserabilidade é mais uma das mazelas do governo antipovo, genocida e corrupto que tomou de assalto o Brasil. A extinção de conselhos e outras instâncias públicas de debate sobre a fome no País – sem falar do fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário – não são somente provas da incompetência deste governo. São, sobretudo, expressões da necropolítica a qual nos querem submeter.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

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