Gato escondido com rabo de fora

Quem quer fazer política precisa se apresentar à luz do dia em vez de circular pelas sombras, embuçado em uma toga

Foto: EVARISTO SA / AFP

Foto: EVARISTO SA / AFP

Frente Ampla

Nenhuma surpresa: o homem que emprestou seu posto na magistratura para pilotar o desmonte do Brasil finalmente botou a cara ao sol na política.

Ainda que tratada como a “entrada na política do ex-juiz” por parte da imprensa, a filiação de Sergio Moro a um partido político e sua possível entrada na corrida presidencial apenas encerra a fase do “gato escondido com rabo de fora”.

Melhor assim. Quem quer fazer política precisa se apresentar à luz do dia em vez de circular pelas sombras, embuçado em uma toga, lembrando os vampiros de velhos filmes em preto e branco — o sol, aliás, costuma reduzir essas criaturas a cinzas, reza a lenda.

 

 

A farsa se encaminha para o gran finale.

No primeiro ato, assistimos ao juiz que fez de tudo — inclusive se envolveu em conluio com a acusação — para afastar o candidato favorito à Presidência e embarcar alegremente no bonde do grande beneficiado pela tramoia.

No caminho da Lava Jato, adotou o impatriótico método de perseguir empresas e não dirigentes corruptos dessas empresas. Deixou um Brasil devastado com a perda de milhões de empregos formais e bem pagos na área de petróleo, construção civil, construção naval, infraestrutura, tecnologia de ponta — como o projeto do submarino nuclear brasileiro. Acarretou a perda de pelo menos 100 bilhões de reais em investimentos na esteira da operação.

A serviço de quem? Um dia saberemos.

No segundo ato da farsa, fomos restituídos a um mínimo de lucidez e ao direito de acreditar na Justiça, quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a parcialidade do ex-juiz, avisando ao País que o devido processo legal, assegurado pela Constituição, ainda está valendo.

Agora, chegamos ao terceiro ato. Depois, cai o pano.

No enredo deste terceiro ato, Moro vai descobrir que na política feita às claras, na vigência da democracia e do Estado de Direito, não há qualquer possibilidade de um indivíduo, independentemente do cargo que ocupe, decidir sozinho o destino de um País.

Vai descobrir que fazer política às claras vai muito além de corromper a Justiça sob o pretexto de combater a corrupção.

Vai descobrir que fazer política à luz do dia é ouvir a quem se pretende representar, que é preciso construir consensos, dialogar para formar maiorias, percorrer o País para conhecer seu povo, sentir sinceramente a dor dos que não têm nada e passaram a ter menos ainda a partir da razia que o gato escondido com rabo de fora promoveu na economia, na altivez e na autonomia do Brasil.

Criaturas que medram nas sombras não têm vocação nem grandeza para essa missão.

Pouco importa se o ex-juiz vai aprender a lição. O fundamental é que a farsa está finalmente escancarada à luz do dia.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

Compartilhar postagem