Educação

‘Escolas abertas’ e crianças não vacinadas

Elites negacionistas evocam ‘evidências científicas’ para forçar retorno presencial, mas desconversam quando se trata de vacinar crianças

Créditos: Reprodução Gênero e Educação Créditos: Reprodução Gênero e Educação
Créditos: Reprodução Gênero e Educação Créditos: Reprodução Gênero e Educação

O estardalhaço da CPI da Covid ficou para trás. Os memes divertiram; as entrevistas coletivas e os depoimentos chocaram. Perfis no Twitter inundaram as redes com informação qualificada (e nem tão qualificada assim) e foram premiados com a cobiçada florzinha da certificação, lustradora de vaidades e ilusões de fama. Terceira via, Lulalckmin, media training. Lacração de fora a fora. Nesse meio tempo, o governo Bolsonaro seguiu inabalável em sua marcha de aniquilação da vida: apagão de dados da saúde, ataques a servidores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), falta de doses de reforço e, mais recentemente, procrastinação e desestímulo à vacinação de crianças de 5 a 11 anos, com vistas a destruir uma prática cultural cristalizada no Brasil. Isso para ficar apenas na esfera da saúde pública e, dentro desta, na seara da pandemia.

A Covid-19 continua firme e forte. A variante ômicron do coronavírus, mais transmissível, multiplica o número de infectados rapidamente e a níveis inéditos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que, se as taxas de infecção permanecerem como estão, mais da metade da população da Europa poderá contrair a nova variante até o mês de março.

Isso significa que, mesmo que os sintomas individuais da Covid-19 sejam amenizados pelas altas taxas de vacinação na população, um número não desprezível de pessoas (a maioria não vacinadas, evidentemente) forçará a reabertura de leitos contingenciais de UTI e elevará as estatísticas de óbitos mundo afora. A diferença é que, agora, a infecção massiva também tem levado a uma perigosa depleção de pessoal qualificado nos sistemas de saúde: não vai ter profissional da saúde para tratar quem precisar.

Enquanto os testes escasseiam no SUS, no sistema privado e nas farmácias de um país que jamais estabeleceu políticas robustas e públicas de testagem, a falta de dados oficiais impossibilita que se tenha uma ideia mais precisa do quadro epidemiológico corrente no país. O que se sabe, por ora, é que a variante ômicron está lambendo a população brasileira assim como em outros países.

Eis o cenário preocupante no qual, em algumas semanas, deverá começar um novo ano letivo no Brasil. O terceiro da pandemia.

A insegurança do cenário coloca mais uma vez em polvorosa os setores da sociedade que, em 2021, trabalharam diligentemente para convencer a população de que as escolas são os ambientes mais seguros do mundo e que as redes públicas e privadas estão municiadas de protocolos, recursos e políticas claras para a prevenção de surtos escolares de Covid-19. Isso, porém, nunca se comprovou, com o adicional de que, com a ômicron, não é força de expressão dizer que as escolas poderão se transformar em verdadeiros covidários. Em contrapartida, a liberação pela Anvisa da vacina da Pfizer para aplicação em crianças de 5 a 11 anos trouxe uma nova variável para o debate, pois há uma grande diferença entre uma escola com crianças e adolescentes vacinados e outra com parcela substantiva de não vacinados. A vacina infantil, portanto, é demanda ainda mais urgente que a do retorno presencial a qualquer custo.

Entre os defensores do retorno incondicional está aquele movimento denominado “Escolas Abertas”: um grupo de mães da elite paulistana que atua predominantemente no Instagram e que ganhou relativa visibilidade midiática no ano passado, em meio ao movimento – endossado por parte significativa da imprensa – de “reabertura econômica”, o que obviamente incluía recolocar nas escolas quase 50 milhões de crianças e adolescentes e alguns outros milhões de adultos com diferentes graus de envolvimento com a educação. No final de 2021, o Escolas Abertas se apresentava como “um grupo de pessoas inconformadas. Somos cidadãs, mães, preocupadas com a educação dos nossos filhos (…) Cansadas e indignadas com as notícias no jornal, decidimos agir”.

A ação do grupo (como mostramos aqui) se baseia em discursos simplórios e moralistas do tipo “salvem as criancinhas”, com o objetivo de constranger políticos a reabrirem escolas em momentos de grande insegurança sanitária – quando nem mesmo a população adulta estava vacinada. Entre chavões como “primeiro a escola, depois o shopping”, o grupo reivindica a autoridade das evidências científicas (somente aquelas que interessam) para defender pontos de vista elitistas e para criticar profissionais da educação, famílias, sindicatos, prefeitos ou governadores mais cautelosos com relação aos impactos da Covid-19 nas escolas.

O périplo do Escolas Abertas começou com uma ofensiva judicial contra o governo de São Paulo e a prefeitura de sua capital, mas o movimento rapidamente se converteu em plataforma de propaganda da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP). As postagens com ataques ao secretário Rossieli Soares da Silva – que passou a vocalizar as demandas do Escolas Abertas, tornando-se aliado –, foram todas apagadas. Abertas as escolas (não importam as condições), o grupo voltou seus interesses a Brasília, onde buscou os holofotes em encontros com membros do governo Bolsonaro e sua base de apoio no Congresso Nacional.

A frequência das postagens do Escolas Abertas no Instagram, frenética no primeiro semestre de 2021, rareou a partir de agosto. Os rostos públicos do movimento foram sumindo do Instagram, à medida em que a sua visibilidade na imprensa diminuiu. O número de curtidas e comentários também caiu, e pérolas fascistas como “Escolas Abertas haja o que houver, morra quem morrer” tornaram-se menos frequentes. Isso até 10 de janeiro de 2022, quando o Escolas Abertas passou a ser cobrado de um posicionamento sobre a vacinação das crianças. Até então, as ardorosas defensoras dos direitos das crianças não haviam dado um pio sobre o tema mais relevante para um retorno seguro às escolas em fevereiro.

Como era de se esperar, a posição do Escolas Abertas sobre a vacinação é a mesma do negacionista Marcelo Queiroga, o ministro da saúde de Jair Bolsonaro que empregou artifícios participacionistas para retardar o início da vacinação infantil no país, elevando ainda mais o nível de criminalidade do governo que ele representa. Queiroga, que é pusilânime mas não é burro, jamais se afirmou contrário à vacinação infantil. Em vez disso, nas suas falas públicas, o ministro faz questão de sublinhar o caráter opcional da vacinação – um convite à abstenção das famílias nos postos de saúde. Sem poder ignorar o clamor de quem o segue e compartilha seus conteúdos, o Escolas Abertas resolveu adotar a mesma estratégia de Queiroga: enfatizar as letras miúdas para esvaziar a pauta da vacinação urgente.

Mas não tem sido fácil vender a defesa de que as escolas são seguras – falando, como sempre, em nome dos mais pobres – e ser contra a vacinação das crianças, cerrando fileiras com Bolsonaro e seus acólitos. Alguns seguidores do Escolas Abertas se mostraram decepcionados ao perceberem que o grupo é bolsonarista. E quem imaginaria que, detrás do moralismo elitista e antiesquerda das postagens de 2021, estaria escondido um bando de negacionistas antivacina?

Ao tomar uma posição minoritária na opinião pública, as mães indignadas do Escolas Abertas estão tendo dificuldade para, como antes, selecionar argumentos de autoridade que validem suas posições. No caso das vacinas infantis, a solução encontrada foi utilizar dois trechos em vídeo em que médicos defendem a volta às aulas ainda que nem todas as crianças tenham sido vacinadas, dando a entender que os dois profissionais relativizam a necessidade da vacinação.

Uma dessas postagens traz um vídeo da pediatra Ana Escobar, que desde fins de 2020 defende a reabertura das escolas. Embora Escobar se esforce para apresentar argumentos honestos, ela claramente não conhece a realidade das escolas públicas do país, e repete no vídeo que é preciso lutar pela volta às aulas, seguindo todos os protocolos e estimulando o uso de máscaras etc. etc. Em seu perfil pessoal no Instagram, a médica produz vídeos curtos em que responde a perguntas específicas: no vídeo compartilhado pelo Escolas Abertas, a pergunta era “Qual a perspectiva de volta às aulas com o aumento de casos da ômicron?”. Quem ouve Ana Escobar no perfil do Escolas Abertas fica com a impressão de que a pediatra relativiza a vacinação, embora em outros oito vídeos no perfil da médica ela afirme peremptoriamente a importância de vacinar as crianças. Isso parece não importar muito para o seletivo “Escolas Abertas”.

No segundo vídeo aparece o pediatra Rubens Cat, chefe do Departamento de Pediatria da UFPR que também sabe pouco sobre o funcionamento das escolas. No trecho, Cat reforça a necessidade de manter o retorno das aulas com base no argumento de que a epidemiologia da Covid-19 nas escolas reflete a forma como a doença se comporta na sociedade. Uma obviedade. Nos segundos finais, porém, o pediatra afirma que “devemos vacinar as nossas crianças o mais rápido possível”. O vídeo é cortado na frase seguinte, em que o médico continuaria a explicação sobre a necessidade de proteger as crianças. Simplesmente por defender a importância da vacinação, Cat não foi poupado nos comentários à postagem, tendo sido acusado por uma das seguidoras de receber dinheiro da Pfizer para divulgar a vacina pediátrica liberada pela Anvisa. Não é difícil verificar que Rubens Cat, assim como Ana Escobar, está há algum tempo produzindo conteúdo informativo (e favorável) sobre a vacinação das crianças. Conteúdo que é invisibilizado ou sumariamente cortado pelas administradoras do perfil do Escolas Abertas.

Trata-se, como se vê, de iluminar a opcionalidade da vacina e, ao mesmo tempo, de ocultar as evidências retumbantes em favor da imunização das crianças. Dessa operação meticulosa de edição, dois pediatras que – não obstante a defesa questionável da reabertura incondicional das escolas – produzem conteúdo sério em prol da vacinação infantil e emprestam a sua imagem para divulgação no Instagram do Escolas Abertas, acabam sendo vistos pelos seguidores do grupo como negacionistas.

O mesmo acontece em um terceiro vídeo, com uma fala editada de um dos maiores ídolos do Escolas Abertas: o secretário da educação de São Paulo. No trecho da gravação, Rossieli Soares tenta justificar a não exigência da obrigatoriedade da vacina nas escolas estaduais paulistas, alegando que a decisão de se vacinar não é tomada pela própria criança, e, portanto, condicionar a frequência à escola à vacinação representaria uma dupla penalidade à criança. A intenção do Escolas Abertas é extrair da fala de Rossieli a conclusão de que tanto faz vacinar ou não as crianças.

Rossieli obviamente não se ajuda, uma vez que a própria Seduc-SP já tentou por diversas vezes forçar famílias inseguras a enviarem seus filhos para as escolas: usou para isso termos de responsabilidade, ameaças de denúncias ao conselho tutelar e até o cancelamento da matrícula de estudantes. Logo, não seria difícil, dentro do escopo usual de procedimentos de “persuasão” do governo paulista, criar mecanismos para obrigar mães e pais a vacinarem crianças e adolescentes. E teria amparo legal para isso. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei n. 8.069/1990) é cristalino quanto ao tema da vacinação. Está no parágrafo 1º do artigo 14 – “É obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias” – que integra o capítulo que trata do direito de crianças e adolescentes à vida e à saúde. Já o artigo 4º do mesmo ECA, estabelece que é “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.

Não se pode afirmar que o secretário da educação de São Paulo seja um militante antivacina, visto que o próprio governo paulista divulgou no início de janeiro um plano para vacinar mais de 4 milhões de crianças em um período de três semanas, com postos de vacinação instalados inclusive dentro das escolas. No perfil do Escolas Abertas, contudo, Rossieli Soares soa como Marcelo Queiroga.

Uma pesquisa da Fundação Seade, encomendada pelo governo de São Paulo, realizou 1.127 entrevistas sobre a vacinação infantil (06 jan. 2022) e mostrou que 84% dos responsáveis por crianças de 5 a 11 anos pretendem vaciná-las, parcela maior nos entornos da capital do que no interior do estado de São Paulo. A adesão à vacinação, ainda segundo o levantamento, é maior entre famílias cujos filhos estudam na rede pública, e também decresce com o aumento da escolaridade e da renda familiar dos responsáveis. Esta última informação – omitida na nota oficial de divulgação dos resultados da pesquisa – sugere que o não condicionamento da frequência escolar à vacinação (medida governamental festejada pelo Escolas Abertas) beneficia principalmente o negacionismo nas classes médias e altas e nas escolas privadas. Não surpreende, pois, que um abaixo-assinado contra a vacinação obrigatória de estudantes tenha surgido não em uma escola pública, mas em uma instituição educacional privada das elites cariocas.

Daqui alguns meses encontraremos as mães negacionistas do Escolas Abertas candidatas a cargos eletivos nos legislativos estadual e federal, fazendo a mesma defesa vazia de uma escola “efetiva”, “ativa”, “segura” e “aberta”. Há um ano, nesta CartaCapital, eu e duas colegas pesquisadoras perguntávamos: que outro propósito levaria essas mulheres da elite, cujos filhos estudam nas escolas privadas mais caras da cidade de São Paulo, a se portarem como ativistas da “educação como serviço essencial”, senão a manutenção dos serviços “essenciais” que perpetuam a sua existência como elites? O posicionamento deplorável do “movimento” em relação ao pacto social que representa a vacinação confirma as nossas suspeitas.

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