Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

Depois do Datafolha, Bolsonaro terá de reajustar a agenda do golpe

A pesquisa divulgada é mais um indício da tese que venho defendendo: temos um cenário para lá de consolidado com pouquíssimas chances de mudanças

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Filipe Araujo/AFP
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Filipe Araujo/AFP
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Para quem precisava ou estava realmente sedento por uma pesquisa presencial de confiança, saíram hoje números recentes do Datafolha. O resultado não poderia ter sido pior para Jair Bolsonaro.

Na pesquisa estimulada, Lula abriu 21 pontos de vantagem sobre o ex-capitão. Aparece com 48%, contra 27% do adversário. Acreditem, esses são dados menos importantes. O que realmente importa é a medição espontânea de intenção de votos, que não oferece opções para a escolha dos entrevistados e entrevistadas. É consenso que a pesquisa espontânea tem uma capacidade superior de medir a cristalização dos votos, ou seja, a convicção do voto do eleitorado.

Na espontânea, Lula saiu de 30% na última pesquisa, realizada em março, para 38%. Em outras palavras, a predileção espontânea por Lula é expressivamente maior do que a predileção por Jair Bolsonaro na pesquisa estimulada. A cristalização do voto em Lula é maior do que o alcance de Jair Bolsonaro entre aqueles eleitores e eleitoras que, talvez, ainda precisem de um “empurrãozinho” de memória para escolher entre as opções.

A coisa está feia para Jair. Só não está pior para jornalistas que ainda insistem naquilo que nunca existiu nessa disputa presidencial fora do universo dos desejos: a terceira via. Ciro Gomes aparece com seus eternos 7%, que podem ainda minguar com a aproximação de outubro. Abaixo dele, os candidatos somam incríveis 6%. Brancos e nulos e indecisos somam 11%.

Para colocar a coisa numa perspectiva realista e sustentada por dados e evidências, de Ciro para baixo, há 24% de votos em estoque, contando os inválidos (brancos e nulos) e indecisos. Se Jair Bolsonaro conquistasse 100% desses votos – o que é uma total impossibilidade – ainda assim só empataria com Lula segundo a margem de erro, que é de dois pontos percentuais.

Lula lidera entre os jovens de 16 a 24 anos com 58% e marca 36% entre os evangélicos, que, ao lado dos autodeclarados “empresários”, formam a base mais consistente do bolsonarismo. Jair Bolsonaro lidera entre os que possuem renda superior a 10 salários mínimos (39% a 36%), entre empresários (56% a 23%) e entre evangélicos (39% a 36%).

Lula consolida sua vantagem na região Nordeste, com 62%, contra 17% de Jair Bolsonaro. Uma das provas daquilo que já expliquei aqui: primeiro, não há pobres apenas no Nordeste; segundo, pobre não troca voto por auxílio e não vota diferente de como outras pessoas votam . Entre os beneficiários do Auxílio Brasil, 59% declaram voto em Lula e apenas 20% declaram em Jair Bolsonaro. Se Jair Bolsonaro e uma infinidade de articulistas e comentaristas achavam que o presidente ia conseguir comprar voto (nunca o deles, é claro), erraram feio. Não foi por falta de aviso.

O Datafolha de hoje é mais um indício da tese que venho defendendo nesta coluna há um tempo à luz, principalmente, dos resultados das pesquisas do Ipespe e da Quaest: temos um cenário para lá de consolidado com pouquíssimas chances de mudanças, ou seja, é extremamente improvável que Jair Bolsonaro consiga se reeleger diante dos dados disponíveis, da conjuntura e da dura realidade que vem entregando à maioria dos brasileiros desde 2019.

Ao menos no que diz respeito às regras do jogo, Jair Bolsonaro está sendo demitido pela maioria dos brasileiros. Mas não estamos falando de um cenário em que as regras do jogo estão postas e serão devidamente respeitadas pelo adversário derrotado. Ao contrário.

A Jair Bolsonaro já está muito claro que sua disputa não é contra Lula. É contra a democracia brasileira, que, há um bom tempo, tem sido expressiva e demonstrativamente mais frágil do que a força eleitoral de Lula. A Jair, só resta o golpe. Ou seja, reitero minha recomendação: preocupem-se muito menos com esta eleição do que com o golpe que nos avizinha.

Encerro compartilhando a notícia de que, coincidentemente, o presidente transferiu sua live semanal de quinta-feira para sexta. Não é de se estranhar, afinal, com as notícias trazidas pelo Datafolha, Jair Bolsonaro vai precisar reajustar as datas da agenda do golpe. Será que há generais convidados? Apostas abertas.

O tempo urge. Os democratas que fiquemos atentos.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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