Alberto Villas

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Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

De onde vens?

O sonho está acabando por aqui. Com as placas do Mercosul, que não mostram de onde aquele carro vem, o meu mundo caiu

Foto: Alberto Villas
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Tinha eu sete anos e pouco quando aprendi a ler. Foi quando me amarrei nas placas dos automóveis. Sempre gostei de ler as placas, não os números, mas o nome da cidade.

Quando corríamos o estado de Minas Gerais com o meu pai, era um divertimento quando ele parava para um xixi e um cafezinho. Ficava lendo placa por placa dos carros estacionados.

São Lourenço, Cambuquira, Araxá, Santa Rita do Sapucaí, Itajubá… tinha carro de todos os lugares ali parado para também uma esticada nas pernas.

Nossa diversão era chegar em uma cidade, Ponte Nova, por exemplo, e soltar a piada que nos acompanhou toda vida:

– Nossa! Como tem carro de Ponte Nova nesta cidade!

Virou vício ver de onde aquele carro vinha. Aqui em São Paulo, me assustava quando via um carro de Manaus ou de Belém.

– Gente! Como esses carros vieram parar aqui?

Já percebi, por exemplo, que é difícil ver um carro do Rio de Janeiro por aqui. Não sei por quê. O carioca não gosta de vir de carro pra Sampa.

Já percebi também que quase todo carro com placa de Belo Horizonte por aqui é carro alugado. Quase todos os carros de locadora foram emplacados na minha cidade natal.

Adoro quando encontro uma placa de uma cidade cujo nome nunca poderia imaginar existir: Rolândia PR, Jardim de Piranhas RN, Ponto Chique MG ou Solidão PE. Ficava imaginando quem nasceu nessas cidades, o que eram? Rolandense? Jardimpiranhense? Pontochicano? Solitário?

Mesmo nos anos de exílio, a mania continuou. Logo soube que toda placa que começava com 75 era de Paris. Lá, o barato era ver placas de outros países: Bélgica, Alemanha, Suíça, Itália.

Amava ir na Itália, principalmente quando descobri que as placas com as letras RO eram de Roma, FI eram de Firenze, MI de Milão, BO de Bolonha.

O sonho começou a acabar quando vieram as placas da Comunidade Europeia. O máximo que sabia era de que país veio aquele carro. DE é Alemanha, FR é França, ND é Países Baixos.

Um dia, fiquei feliz ao ver, num navio grego, um carro com a placa BG. Dei um Google rápido e fiquei sabendo que era da Bulgária. Até fotografei.

Mas, de repente, o sonho está acabando por aqui. Com as placas do Mercosul, que não mostram de onde aquele carro vem, o meu mundo caiu.

Hoje ando procurando as placas cinza que ainda dizem que aquele carro veio de Espumoso, no Rio Grande do Sul, que veio de Descanso, em Santa Catarina, que aquele carro veio de Coité de Nóia, em Alagoas, ou mesmo de Nova Iorque, lá no Maranhão.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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