Como substituir essa oligarquia míope por uma verdadeira democracia?

'A lacuna em política externa decorre da estupidez e ignorância das oligarquias nacionais'

Foto: EVARISTO SA / AFP

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Opinião

“Você deve pensar de tal modo que todos possam olhar para dentro de sua alma e ver o que está acontecendo lá.”
Sêneca.

Uma das coisas mais fascinantes é poder captar o “espírito do tempo”, o Zeitgeist, na expressão alemã que consagrou o conceito.

Uma das características do nosso tempo, por exemplo, é a libertação da opressão de gênero.

Simbolicamente, as Olimpíadas de Tóquio contabilizam o maior número de delegações com membros LGBTQIA+.

No nosso continente, a Argentina adotou a identidade de gênero não binária.

Ambas representam conquistas libertárias e distintivas do espírito do nosso tempo. São evoluções culturais, que também repercutem no Brasil, mesmo em nosso pior período histórico.

Com efeito, vimos queimar, ainda na semana passada, parte do acervo da Cinemateca Brasileira, pela absoluta incúria do responsável, o desgoverno federal.

Pior, aquele que sinalizou com fogo o absurdo de se ter um monumento para um etnocida foi encarcerado. A oligarquia brasileira não acredita em lágrimas, quer sempre sangue, indígena ou negro, de preferência, de empobrecidos, oprimidos.

Vale notar, com Gramsci, que se a cultura é o centro da política a destruição dela é instrumental para a dominação, a opressão.

Certamente, foi esse o sentido do encontro do genocida com a neta do ministro das finanças de Hitler, também na semana passada, e a descoberta de carta do assassino local para apoiadores nazistas. Genocidas se reconhecem, sem limitações de tempo ou espaço.

Em contraponto, na teia que forma o tecido político-cultural do tempo, temos a escolha iluminada dos formandos e formandas do Instituto Rio Branco, que forma diplomatas. Os alunos e alunas que se formam escolheram como patrono o diplomata torturado e assassinado pela ditadura militar, embaixador José Jobim, mártir que denunciara a corrupção militar na construção da usina de Itaipu.

A corajosa decisão joga luz sobre as trevas da diplomacia brasileira Pós-Golpes de 64 e 16. Com efeito, a ausência brasileira no âmbito internacional resultou em mortes em massa na Palestina, na África e na América Latina e Caribe, principalmente.

Um exemplo é a região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, assolada pelo terrorismo fundamentalista, que, aparentemente, busca conquistar território na África, uma vez expulso, parcialmente, de países do Oriente Médio, como Síria e Iraque.

Embora Moçambique seja membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Brasil está totalmente alheio à ação internacional de respaldo ao governo moçambicano na luta contra o terror. Os membros da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), no entanto, estão empenhados na ajuda militar e humanitária, havendo os parlamentos de Angola e da África do Sul aprovado o envio de tropas, que também poderão ser expedidas por Zimbábue e Botswana.

A lacuna em política externa decorre da estupidez e ignorância das oligarquias nacionais, que se reflete em que o nível de investimento direto estrangeiro tenha caído ao seu menor nível, em cinco anos.

O agronegócio tem auferido ganhos significativos, mas à custa do alijamento de camponeses – cada vez mais expulsos para as periferias das grandes cidades – e da derribada do meio ambiente, em níveis inauditos, gerando mudanças climáticas no Brasil e no mundo.

Como substituir essa oligarquia, míope, sem projeto socioeconômico sustentável por uma verdadeira democracia?

Em “A atualidade sociológica de Florestan Fernandes“, de Heloísa Fernandes, na publicação “Pensando com Florestan Fernandes“, da Escola Nacional Florestan Fernandes, temos algumas pistas: “Numa sociedade como a brasileira, uma sociedade de classes, dependente, subdesenvolvida e periférica, a revolução dentro da ordem, como ele a chama, ou seja, a revolução democrática, tornou-se uma tarefa histórica que só pode ser realizada pelos ‘estratos da população que sempre foram excluídos, como os trabalhadores do campo e da cidade, e todos aqueles que não têm peso e voz na sociedade civil.”

A rejeição maciça do Nordeste ao projeto oligárquico parece confirmar essa teoria.

Prossegue Heloísa Fernandes: “Para Florestan, a Segunda Abolição precisará enfrentar e derrotar o ‘superego nacional’, de modo a poder realizar as ‘reformas capitalistas (como a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma educacional, o combate à miséria, às desigualdades extremas, à fome, à exclusão etc.”

Em “Paulo Freire – Vida e Obra“, organizado por Ana Inês Souza, editado pela Expressão Popular, no texto de Marilene Bertolini, “Sobre Educação: diálogos”, lemos: “…segundo Freire, o conhecimento não se transfere, se sabe, se conhece, se cria, se recria, curiosamente, arriscadamente.”

Que belas incitações ao saber, à descoberta, ao viver, realmente.

Aduz a referida autora: “…educação como um processo de emancipação dos seres humanos, enquanto classe ou como indivíduos…”.

O espírito do nosso tempo poderá ser esse, da procura libertadora, do pensar com a própria cabeça e o próprio corpo, do querer juntos vida plena, em abundância – como sublinhou João, não por acaso o discípulo que Jesus amava.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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