Opinião

Chances de prosperar o acordo Mercosul-UE são cada vez mais distantes – graças a Deus

Nesse quadro, cabe a pergunta inevitável: por que não conseguimos defender nossos interesses por nós mesmos?

O presidente Lula e o presidente da França, Emmanuel Macron, durante a COP28, em Dubai, em 2 de dezembro de 2023. Foto: Ludovic Marin/AFP
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“Não acredito em Deus. Mas que existe, existe” – Vinicius de Moraes

O Brasil estava prestes a assinar um péssimo acordo de “livre” (falso adjetivo) comércio com a União Europeia.

Entretanto, como, ao final, o mal acaba por se autodestruir, as chances de que ocorra estão cada vez mais distantes, graças a Deus.

No caso, coube ao mal a defesa de nossos interesses: o imperialismo europeu, que concorrera para a guerra na Ucrânia, obrigou o continente a abrir os mercados agrícolas aos produtos ucranianos.

Como resultado, houve uma invasão ucraniana, que levou os produtores europeus – premidos por um sem número de regulamentações emanadas por Bruxelas – a protestar veementemente contra a desleal concorrência.

Por causa dos bloqueios de estradas que promoveram na França, na Alemanha, na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Polônia, o bloco europeu foi obrigado a recuar nas práticas predatórias de acordos de trocas de manufaturados por produtos primários – como o que propusera ao Mercosul -, uma vez que os governos não podem prescindir do apoio e dos votos dos agricultores e agricultoras, às vésperas das eleições europeias.

Utilizando técnicas inovadoras para chamar a atenção da imprensa, os produtores e as produtoras, entre outras formas de protesto, ocuparam supermercados, ao longo de dez dias, algumas vezes usando apenas cuecas e calcinhas. Recordaram que nos últimos vinte anos o lucro da distribuição cresceu 188%; o das cadeias alimentares, 64%; enquanto que o dos produtores foi de zero por cento.

Deixaram claro, portanto, que é a distribuição que sequestra, de forma ilegítima, os ganhos, às expensas da produção, principal razão pela qual os jovens abandonam o campo, que, ademais, encontra-se sempre crescentemente vitimado pelas mudanças climáticas e pelas incertezas que essas geram.

A propósito, a imprensa francesa já dava como sepultada a referida minuta de acordo Mercosul- UE, fazendo a ressalva de que apenas à Alemanha ela ainda interessava, para a desova de seus manufaturados.

Convém lembrar que a principal economia do bloco, a alemã, apresentou retração do PIB de 0,3 % em 2023 e que, em média, seus produtos não conseguem mais colocação favorável no mercado internacional, inclusive pelos altos custos da produção, resultantes, parcialmente, do atraso tecnológico que apresentam, seja na produção ou no produto final, quando confrontados com os similares asiáticos.

Ao lado disso, ao deixarem de receber gás e petróleo russos, a custo inferior, os europeus se viram, em certa medida, novamente atrelados aos Estados Unidos da América para o suprimento energético do continente, com a agravante da atual instabilidade no Oriente Médio, principalmente no Mar Vermelho, obrigando os petroleiros ao contorno de toda a África, em vez de utilizarem o trajeto mais curto pelo Canal de Suez.

Nesse quadro, cabe a pergunta inevitável: por que não conseguimos defender nossos interesses por nós mesmos?

Talvez porque os movimentos culturais sejam bem mais lentos do que os políticos: as capitanias hereditárias saíram de nós, mas nós não saímos delas, e os temas públicos são tratados como privados. A participação popular é escassa, mormente em questões internacionais, em que os burocratas implicados são facilmente aliciados pelos interesses das oligarquias (das quais provêm ou das quais farão parte), com rarefeitos contrapontos do Congresso e da sociedade civil organizada.

No caso do acordo supracitado, foi notável a corajosa oposição do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, infelizmente recém-falecido, e do economista Paulo Nogueira Batista Júnior, à negociação daquele instrumento, de caráter nitidamente neocolonial.

Mais ainda, as influências externas aqui são notáveis e magnificadas pela brutal estratificação social, que nos conduz, na prática, à existência de pelo menos dois países, dentro de um só.

Com muita clareza, nota-se, por exemplo, que a cultura da nossa periferia identifica-se mais com o ‘hip-hop’ estadunidense do que com outras manifestações nacionais, como se pode aferir, em excelente exposição temporária no Museu da Língua Portuguesa, nos depoimentos, candentes, de autores e autoras, cantores e cantoras daquele ritmo contagiante.

Em complemento, Luiz Antonio Simas, em Almanaque Brasilidades – um inventário do Brasil popular (editora Bazar do Tempo) observa:

“O Rio de Janeiro criou um funk próprio, carioca, distinto daquele que veio se estruturando nos Estados Unidos, ainda que beba na fonte dele. Misturando um caldeirão sonoro de referências da ‘black music’, com letras que tematizavam os diversos aspectos do cotidiano nas favelas e periferias cariocas, o funk no Rio tem também, em suas vertentes, influências de batuques oriundos das rodas de samba e dos atabaques sagrados das umbandas e candomblés. Ouvidos mais atentos podem perceber que o alujá de Xangô, ritmo rápido e contínuo tocado para o orixá do fogo, e o toque do congo, característico das casas de candomblé de Angola e da umbanda, estão potencialmente diluídos no caldeirão sonoro do tamborzão funkeiro, misturados às batidas repetitivas do rap, do ‘freestyle’ e do ‘miamibass’ dos sons negros norte-americanos. É como se a memória sonora da cidade, profundamente marcada pelos sons da África e aqui redefinidos, gritasse a ancestralidade nos bailes que balançam o Rio de Janeiro e os corpos cariocas”.

Só a essas boas referências e trocas deveríamos nos curvar, saudar e festejar.

A propósito, bom carnaval a todas, todos e todes!

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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