Opinião

Diplomacia africana se mostra mais coerente e corajosa que a latino-americana

Caberá ao Quênia liderar uma força policial internacional para o Haiti, a qual, entretanto, ainda não tem data para a chegada. O Brasil deverá integrá-la

Policiais lançam gás de pimenta durante um protesto em Porto Príncipe, no Haiti, em 14 de agosto de 2023. Foto: Richard Pierrin/AFP
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“A gente deve ser sensual em relação à vida” – Vinicius de Moraes

Uma dica de filme: Folhas de Outono. O filme finlandês é uma metáfora do amor sob o capitalismo (quase uma contradição em termos). Belíssimo e poético ao extremo.

Em São Paulo, está passando no Cine Belas Artes, icônico cinema de rua.

Se os países nórdicos, outrora modelo de “capitalismo civilizado” (sic), estão como a película bem demonstra, o Sul está em chamas, literalmente.

Não apenas no Oriente Médio, onde prossegue o genocídio em Gaza, perpetrado pela extrema-direita de Israel (prefiro “em” Israel, pois é a mesma internacionalmente, só mudando o país em que se situa), mas também nas Américas, o nosso continente.

Com efeito, o Estado mínimo tão desejado por ela extrema-direita, com tantos defensores aqui no Brasil – incluindo os desgovernadores de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, entre outros – no Haiti atingiu seu ápice: 80% da capital, Porto Príncipe, está sob o domínio das milícias, gerando o inferno de sequestros de pessoas (seis freiras foram sequestradas há três dias, junto com todos os passageiros de um microônibus) e bens (as pessoas simplesmente são expulsas de suas casas pelas milícias, que então delas se apropriam, podendo repetir a desapropriação mais de uma vez, como em Gaza…).

Um fracasso para o Brasil: a medida do êxito da diplomacia brasileira não pode ser outra que o desenvolvimento socioeconômico continental.

Caberá ao Quênia liderar força policial internacional para o Haiti, a qual, entretanto, ainda não tem data para a chegada.

O Brasil deverá integrá-la.

Mais uma vez, a diplomacia africana se mostra mais coerente e corajosa do que a latino-americana: menos palavras, mais cooperação, para a qual o Itamaraty continua despreparado, não contando sequer com março legal adequado para a cooperação internacional.

“Inteligentemente”, conseguimos (para o consumo interno) passar a ideia de sermos gigante diplomático, do que estamos muito longe, embora a estatura do País o permitisse: população, extensão, riquezas naturais e fronteiras inteiramente delimitadas com os vizinhos – há mais de um século, entre outros fatores distintivos.

Uma pena, pois o mundo necessita desesperadamente de paz, inclusive para poder enfrentar (se é que ainda há tempo) o aquecimento global, que, cada vez mais, ameaça a existência humana sobre a Terra.

Infelizmente, não é o que se vê: o ministro da defesa da Inglaterra pede preparação para a guerra contra Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, sendo que pelo menos dois dos citados países podem pulverizar a pérfida Albion, em minutos…

O país deverá enviar 20.000 militares para os próximos exercícios bélicos da Otan, que envolverá contingente superior a 90.000 homens, contribuindo, literalmente, para o fim do mundo, seja pelo risco de confrontação – dolosa ou culposa – com a Rússia, seja pela imensa contribuição que darão à emissão de mais CO2 na atmosfera.

Vale recordar, por outro lado, que o Reino Unido deve mais de 100% do PIB, assim como a Itália (amonta a 140%: 3,05 trilhões de euros). A França, que tem dívida de 2,85 trilhões de euros, também estará naqueles exercícios mortais.

Nada faz o século XXI se parecer tanto ao século XX quanto a Europa… A Corte de Apelo italiana julgou que a saudação fascista não constitui crime, embora a legislação italiana (leis Scelba de 1952 e Mancino, de 1993) preveja o contrário. Para quem apostava que a Lava Jato não seria possível na Bota, uma derrota.

Em analogia, seria como uma Corte alemã julgar que a saudação nazista “Heil Hitler” não constitui crime, mesmo que a apologia do nazismo seja.

Não parece uma notícia alvissareira, há exatos 101 anos da tomada do poder pelos fascistas, em Roma.

Por outro lado, a sociedade civil europeia reage: uma liga de times alemães promoveu manifestação pública contra o perigo de retomada do poder pela extrema-direita, algo inédito não apenas no país mais importante da UE, mas também em qualquer outra nação daquele bloco e não apenas.

Que bela forma de exercer a liberdade!

Aprendemos com esses times e seus treinadores que a liberdade tem de ser cuidada e o autoritarismo, preventivamente combatido; que a política está intrinsecamente ligada à liberdade, como a cultura e a inclusão social também estão.

Nesse sentido, em Gramsci – uma nova biografia (editora Expressão Popular), Angelo d’Orsi cita uma companheira do biografado, Teresa Noce, como testemunha desse desejo do fundador do PCI em incluir e formar:

“Por isso, quando ele ia à casa de seus companheiros, entrava na cozinha e o pouco que sabia fazer, secar a louça, fazia. Enquanto isso, ele conversava, porque não concordava que nossos camaradas não tentassem falar com as mulheres, isto é, que eles não tentassem dar educação. Quando Gramsci observou essas coisas, nossos companheiros responderam: ‘Tanto que não entendem nada’. Ele, ao contrário, nunca pensava que uma dona de casa não entendesse nada. Por isso, ele queria sempre a esposa por lá quando ele falava com o marido e se dirigia a ela, tentando envolvê-la na conversa.”

Se pensarmos que isso ocorreu há apenas um século atrás, quanto caminho a libertação feminina percorreu nesses anos! Quão visionário fora o líder italiano, também nesse campo!

Em outro trecho daquela biografia, lemos a respeito da preocupação central de Gramsci no jornal L’Ordine Nuovo, do qual era redator-chefe:

“Outro depoimento sublinha a particularidade desse jornal que, diferentemente de muitos exemplos anteriores no campo socialista, estava preocupado em ‘melhorar a cultura política de base’, e, nesse trabalho, Gramsci surgia como um mestre autêntico, capaz de ‘atrair, galvanizar a inteligência dos outros’ – sempre ensinando, porém com ‘compreensão e simpatia.”

Que o passado seja uma luz que nos ajude a trilhar os caminhos da liberdade, mais desafiadores do que podemos imaginar, mas também mais bonitos.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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