Bolsonarismo: uma pandemia

Quando o negacionismo de Bolsonaro se torna tão epidêmico quanto o próprio coronavírus, é preciso ficarmos em alerta

Presidente Bolsonaro. Foto: AFP Photos

Presidente Bolsonaro. Foto: AFP Photos

Justiça,Opinião

No fim de 2019, o mundo foi tomado por um fato inédito e inesperado, que fez mesmo o nosso modo de vida tremer: do Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Wuhan, na China, surge uma nova doença nos humanos, a síndrome altamente letal de nome SARS-CoV-2, Síndrome Respiratória Aguda Grave – 2, de origem zoonótica, por migração do coronavírus de animais silvestres, como dos morcegos, para os humanos, tendo como hospedeiro intermediário possivelmente um pangolim do mercado chinês. Estava exposta mais uma faceta da relação predatória dos humanos com o planeta, esses que se autoexilaram da Natureza, ao mesmo tempo em que a inventaram como conceito, para dela se apropriarem.

Desde o primeiro caso noticiado, o COVID-19 expôs todo o despreparo e a vulnerabilidade dos Estados nacionais frente a crises globais. Existia aí o terreno fértil, no século XXI, para a eclosão de problemas de dimensões extracontinentais. Com o grande aumento populacional dos humanos e o alongamento frenético das malhas e redes de transportes, o coronavírus cresceu em uma velocidade duas vezes digna de ser chamada de virulenta.

Com rápida travessia, circulou o planeta e colocou em evidência a necessidade do estabelecimento de redes de cooperação e de coordenação globais. O problema de uns é, mais do nunca, o problema de outros. Ninguém é uma bolha. Nenhum Estado nacional, a partir da cartografação fictícia de suas fronteiras, pode mais ser uma. A decisão de uns afeta necessariamente aos outros.

Para além do aumento do número de Humanos, trata-se da aceleração, ainda mais grave e cancerosa, do consumo, problema intimamente relacionado ao colapso climático e ao coronavírus, que costumam ter gatilhos comuns — como quando cai, por exemplo, a floresta, que deixa os animais silvestres sem habitat e altera o equilíbrio termodinâmico da vida terrestre. Teremos que imaginar novas ferramentas, para o enfrentamento de questões cada vez mais graves, sérias, urgentes e globais.

E assim como o vírus se multiplica e sofre mutações para se tornar mais resistente, será necessário multiplicarmos redes e reinventarmos a humanidade, operando mutações profundas no DNA do nosso modo de vida. Usando expressão de Stengers, a “irrupção de Gaia” exige soluções transversais, multifatoriais e inteligentes, retomando a abandonada arte de ter cuidado, que reclama um pensar para além das fronteiras territoriais e cognitivas.

A outra pandemia

Foto: Carolina Antunes/PR

O negacionismo climático de Bolsonaro, presidente do Brasil, em meio à pandemia global do coronavírus, torna-se um negacionismo de outra ordem: o pandêmico.

E seja quanto ao problema do clima ou quanto ao coronavírus, o negacionismo bolsonarista é altamente epidêmico: torna-se um problema de dimensões globais que deve ser tratado com a seriedade que exige uma perigosa pandemia.

Na típica necropolítica negacionista, Bolsonaro chegou a falar em pronunciamento oficial que se trata apenas de uma “gripezinha” ou de um “resfriadinho” e agora ameaça afastar o Secretário de Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que diverge da postura do Presidente e reafirma categoricamente que o COVID-19 é uma ameaça séria, que não deve ser minimizada, e, ao contrário do seu chefe, defende a necessidade do isolamento horizontal. Em ato desesperado junto à comunidade evangélica, Bolsonaro diz que certo ministro virou “estrela”, que a “Economia não pode ser paralisada” e ameaça demissão, com o bordão de que sua caneta “funciona”.

Pois se trata justamente de paralisação e suspensão: o coronavírus, algo invisível ao nossos olhos, pôde mesmo fazer o nosso modo de vida tremer, fazendo balbuciar os nossos governantes, como pequenas crianças despreparadas, desmoronando o Deus, até então Soberano, chamado Economia, dada a funcionar como se fosse transcendental.

O COVID-19 trouxe à surpresa dos ecologistas uma solução ainda mais transcendental e invisível, com efetividade ao mesmo tempo sutil e inesperada: o poder dos comuns em ações globalizadas, mesmo aquelas pequenas, que, quando coordenadas, que podem criar e derrubar barreiras, paralisando até mesmo um Presidente (daí o seu poder de estancar as doenças mais pútridas…).

Nunca antes no Brasil, os governadores e prefeitos tiveram tantas vozes e soluções localizadas e coordenadas que foram, juntas, feitas como vozes coletivas capazes de isolar um presidente, estancando, de alguma forma, a doença que é a sua existência. Superou-se, por vias anormais, a ausência de liderança nacional séria e responsável.

As mesmas medidas de isolamento que estão sendo aplicadas para estancar o espalhamento do coronavírus estão sendo aplicadas ao Bolsonaro, agora isolado e estancado, sem conseguir governar.

Emburrado como uma criança de quem foi retirado o doce, em tempos de COVID-19, não há ouvidos sequer para birras. Até mesmo a justiça isola Bolsonaro, ao suspender a publicidade do programa “O Brasil não pode parar” e parcialmente suspender um decreto presidencial, que impunha limitações ao acesso à informação, por meio do ministro do STF, Alexandre de Moraes.

A forma como Bolsonaro vem lidando com a pandemia, minando o Ministro da Saúde com discordâncias estratégicas, somado aos desmontes da ciência, da saúde pública e do meio ambiente, tem se mostrado ainda mais letal, virulenta e perigosa que o próprio vírus. Bolsonaro se torna um problema global, uma pandemia que afeta a própria continuidade de existência da humanidade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Direito na FND/UFRJ. Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada.

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