Gustavo Freire Barbosa

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

Opinião

Alckmin como vice pode trazer vantagens, mas não ao povo

São óbvios os riscos de construir alianças e só depois se debruçar sobre o programa de governo

Geraldo Alckmin é indicado pelo PSB a vice de Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert
Geraldo Alckmin é indicado pelo PSB a vice de Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert
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Em 2006, Geraldo Alckmin, então candidato à presidência da República, compareceu a um compromisso de campanha vestindo uma jaqueta e um boné com os símbolos do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras e Correios. A indumentária não foi à toa: para se defender das acusações feitas pelo seu adversário de que privatizaria estatais, resolveu, literalmente, vestir a camisa delas .

Na ocasião, Alckmin palestrou para a Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (ANABB). Apesar da fantasia e de afirmações como a de que os bancos públicos são instrumentos de desenvolvimento para o País, o ex-governador de São Paulo defendeu as privatizações realizadas pelo governo FHC, citando como exemplo a venda da Telebrás. Nada mais coerente. Se aparência e essência se confundissem, não precisaríamos lembrar que, por trás da jaqueta das estatais, estava também o sujeito que presidiu o Programa Estadual de Desestatização (PED) quando ocupou o cargo de vice-governador de São Paulo.

As acusações de que iria retomar a cartilha privatista de FHC foram feitas por Lula, que seria reeleito. Os temores de Alckmin acerca dos seus efeitos eleitorais mostraram-se corretos: ao politizar a campanha no sentido de diferenciar programas políticos – um voltado ao fortalecimento do Estado e das políticas públicas e o outro neoliberal/privatista -, Lula fez com que o ex-governador alcançasse a façanha de ter menos votos que no primeiro turno . Foram quase dois milhões e meio de eleitores que desistiram de repetir o voto.

A estratégia de Lula em se mostrar diferente do seu adversário, fazendo um debate programático, causou uma derrota não só aos tucanos, mas ao projeto neoliberal que só viria a ser retomado dez anos depois, com o golpe contra Dilma Rousseff e o PT – golpe apoiado por Alckmin, diga-se de passagem, que em 2018 ratificaria seu golpismo ao apoiar a prisão e a interdição eleitoral de Lula, chegando, inclusive, a tentar justificar os tiros contra os ônibus de sua caravana.

Na campanha de 2010, Dilma retomou as acusações que Lula fez contra Alckmin quatro anos antes. O alvo agora era outro grão-tucano, o ex-governador e ex-ministro José Serra, que, também com algum receio em defender o legado de FHC, saía pela tangente ao responder que as estatais já haviam sido privatizadas com as nomeações de indicados pela base aliada.

Serra, assim como Alckmin, foi derrotado. A quarta derrota tucana em 2014, agora com Aécio Neves, fez com que as frações dominantes do poder econômico batessem o pé e decidissem que não mais respeitariam as regras do jogo democrático, vez que a via eleitoral vinha se mostrando um caminho improvável para que seu projeto, enfim, retornasse ao Planalto. O golpe, a emenda do teto de gastos, o desmonte de serviços públicos e a eleição de Bolsonaro são melhor explicados a partir do que ainda pretende a burguesia financeira, que pisou no acelerador quando, sob Michel Temer, conseguiu implantar as condições políticas ideais para que pudesse tocar a rapina do patrimônio público.

A proximidade programática entre Temer, tucanos e bolsonaristas nunca foi um segredo: se Temer apoiou Alckmin em 2018 , e o programa de Paulo Guedes, segundo o mesmo, é uma continuação do de Temer , qual a conclusão que podemos tirar? No mínimo, que Alckmin não foi, não é e jamais será um companheiro, como afirmou Lula recentemente ao defendê-lo para compor sua chapa após a indicação do PSB para a vice-presidência, indicação aprovada por ampla maioria pelo Diretório Nacional do PT. Trata-se, afinal, do tucano que por mais tempo governou São Paulo desde que o PSDB tomou as rédeas do estado em 1995.

São óbvios os riscos de construir alianças e só depois se debruçar sobre o programa de governo. Se o objetivo é derrubar efetivamente as reformas de Temer/Bolsonaro, como defende o ex-presidente, o correto seria fazer o caminho inverso. “Alckmin será o seu Temer”, alertou Dilma para Lula . Acusando o golpe, Temer, que por mais de uma vez reconheceu seu próprio golpismo, respondeu que “se Alckmin for igual a mim, Lula vai ter grande vantagem”.

Enquanto isso, o presidente do PSB, sigla na qual o ex-governador se filiou recentemente, afirma que o programa de governo apresentado pela chapa Lula-Alckmin não pode ser de esquerda .

Como é de se esperar, o neófito já se mostrou incomodado com as críticas do ex-presidente à reforma trabalhista . É razoável que também nutra certo amor pelo teto de gastos e pela reforma da previdência. Ao passo que Bolsonaro vem crescendo nas pesquisas eleitorais, o acréscimo de Alckmin à pré-campanha de Lula, diferente do que apregoam os pragmáticos entusiastas da frente ampla, não vem apresentando resultados.

Temer está certo. Ao menos parcialmente. Alckmin na vice-presidência pode realmente trazer muita vantagem. Só não será ao povo brasileiro.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Gustavo Freire Barbosa

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

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