Opinião

Mino Carta: A nova face do Kremlin

De como o general Heleno impediria a humilhação de Henrique IV. Mas hoje ele cuida da gente

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O presidente Bolsonaro e o general Heleno estão certos: o papa Francisco é vermelho. É o mínimo que dele se pode dizer. Subversivo declarado com sua pregação contra a desigualdade crescente mundo afora e sua defesa de humilhados e oprimidos. E não é admissível que quem lhe segue as palavras deixe de ser perseguido e punido sem misericórdia. Está na hora de impor ordem em meio à orgia comunista, como diria o Marquês de Sade.

A questão central no momento se estabelece na convocação pelo papa vermelho, carmesim, vale sublinhar, de um Sínodo capaz de reunir 250 bispos para discutir a realidade da Amazônia, à luz de novas formas de evangelização dos indígenas, das mudanças climáticas na região e dos conflitos de terra. Dá para acreditar nesta manobra sorrateira da Igreja Católica para intrometer-se em assuntos exclusivos da soberania brasileira? Há tempo o general Heleno advertia a respeito dos sombrios propósitos dos bandos de batina prontos a semear a sedição na selva.

Este enredo recorda outro que, na segunda metade do século XI, abalou profundamente as relações entre o imperador e o papa por razões similares às que movem o confronto atual. Entendia o pontífice Gregório VII que à Igreja cabia investir novos bispos, enquanto Henrique IV, do Sagrado Romano Império, atribuía a missão a si mesmo. O conflito passou à história como a Controvérsia das Investiduras, e foi áspero a ponto de levar o papa a excomungar o imperador.

Henrique rumou então para Canossa, na Toscana, onde naquele momento se hospedava Gregório no castelo da condessa Matilde. Era inverno rigoroso e o imperador ajoelhou-se na neve nas proximidades da ponte levadiça hirta sobre o portão a negar-lhe o acesso, e lá ficou três dias a fio, a pedir perdão. Ao cabo, o pontífice retirou a excomunhão. Mesmo assim, a desavença não se aquietou, voltou a manifestar-se escassos anos depois.

O litígio decorria de duas distintas afirmações de poder, mas algo indiscutível é que, estivesse o general Heleno ao lado do imperador, Henrique IV jamais se ajoelharia para implorar perdão, ainda mais debaixo da nevasca. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional arca com seu papel com notável empenho. Comove, entre outras coisas, a sua visão de mundo e das relações internacionais. Consta que pretenderia recorrer à intercessão do governo italiano para levar o papa a desistir do Sínodo sobre a Amazônia. O raciocínio obedece a uma lógica implacável, digna de um autêntico estrategista. Onde fica o Estado do Vaticano? Em Roma. Ninguém como o governo de Roma para interferir no caso, sem contar que uma mão lava a outra. E não foi o Brasil de Bolsonaro que presenteou a Itália com a extradição de Cesare Battisti?

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Já dizia minha mãe, que Deus a tenha a despeito do seu temperamento combativo, “Cristo era comunista”. Ela cultivava a certeza de conhecer os endereços do Bem e do Mal e, no caso, tratava-se de mera e pacata constatação de uma evidência sacrossanta. Cristo pregava a igualdade entre todos os seres humanos e com isso não haveria de agradar aos poderosos de então, tanto em Roma quanto em Jerusalém. E foi assim que tomou o caminho do Calvário.

A ideia da igualdade é francamente subversiva, tanto mais no país da casa-grande e da senzala, onde a mentalidade escravocrata se afirma, sem deixar frestas ou escapes, na minoria rica e na maioria pobre e miserável. Nesta, o indivíduo ainda traz nos lombos a marca da chibata e vive resignado em uma ignorância límbica. Naquela, a ignorância mistura-se com presunção, vulgaridade e prepotência, esta exercida de maneira tão absoluta e desvairada até a demência, hoje tornada forma de governo.

Mino Carta

Mino Carta
Diretor de Redação de CartaCapital

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