A guerra contra Bolsonaro deveria estar sendo travada na lei, e não nas redes

Há consenso nos setores poderosos de que esse cidadão que nos desgoverna e atenta diariamente contra democracia, deve disputar as eleições

Foto: Rosinei Coutinho/STF

Foto: Rosinei Coutinho/STF

Opinião,Política

O ponto é de não retorno. Não há mais lugar para recuos na tática de Jair Bolsonaro. O que temos é um psicopata se vendo obrigado a adiantar o passo do projeto autocrático e despótico que sempre balizou suas ambições presidenciais: perpertuar-se no poder a qualquer custo e sob um regime militar-policial-miliciano que dará lugar a um governo já para lá de militarizado.

Jair Bolsonaro nunca quis outra coisa, mas ainda podia contar com um favoritismo eleitoral, que o livrara de pensar nisso até pelo menos um segundo mandato. Mas (quase) tudo errado. Bolsonaro vê sua popularidade bastante comprometida até aqui. E o único capaz de derrotá-lo em 2018 já não mais em uma cela.

O bolsonarismo se alimenta da controvérsia. Principalmente das falsas controvérsias gestadas na comunicação

Tendo a desconfiar, contudo, que para os planos de Jair Bolsonaro, está tudo dando mais do que certo. Haja visto que ele sempre trabalhou pelo caos e dele se favoreceu. É no caos onde sabe melhor atuar. Inclusive no caos cacofônico da comunicação digital.

E é exatamente por isso que não consigo deixar de me assustar e de me indignar com as últimas “estratégias” do Superior Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. E não se trata aqui, de forma alguma, de condenar que essas instituições operem canais de comunicação pública, inclusive nas plataformas digitais. Muito pelo contrário. Trata-se de serviço essencial. Mas não é a questão aqui. Nós estamos falando de um cidadão, com poder presidencial que não esconde que seu cavalo de guerra para virar o regime político no Brasil é lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral e suas instituições e autoridades.

 

Diante disso, STF e TSE resolveram que a guerra contra esse presidente que comete crimes em escala industrial e lhe imputa atos de corrupção, deve se dar no campo da comunicação. E aí temos STF fazendo animações para desmentir a história de que teria tolhido o poder do presidente nas ações de combate à pandemia. E o TSE fazendo uma “live paralela” para desmentir a enxurrada de mentiras que já sabíamos todos e todas que estavam por vir.

É no campo da comunicação digital, esse território em que o bolsonarismo nada de braçada, que essas instituições devem lidar com as acusações levianas, infundadas e os crimes cometidos por Jair Bolsonaro? Não! Pelo amor de Deus. A cada manifestação do TSE sobre o tal do “voto auditável”, maior é o crescimento de menções sobre o tema. E maior, obviamente, a enorme curva de atenção pública promovida pela estratégias do bolsonarismo: não tem mais Covaxin. Tem a urgência do voto impresso e a “guerra de narrativas”(sic!). Alguns institutos de pesquisa já detectam um aumento na desconfiança dos brasileiros sobre as urnas eletrônicas.

STF e TSE resolveram que a guerra contra esse presidente que comete crimes em escala industrial e lhe imputa atos de corrupção, deve se dar no campo da comunicação

Deixem-me lembrar uma coisa importante: na lógica  das redes, a direita e a extrema-direita (não só do Brasil) foram pródigas em conquistar visibilidade e adesões públicas por meio de provocações, insultos, ofensas e desafios feitos a figuras-chave das redes.

Os moleques do MBL foram criando fama e puderam surfar e lucrar na onda do impeachment de Dilma Rousseff ao lançarem iscas, devidamente fisgadas, por atores da esquerda nas redes digitais. Forçavam o antagonismo público por meio de discussões e menções recíprocas e foram galgando posições de visibilidade que conseguiram converter em capital político e eleitoral.

É exatamente a isca que o STF e o TSE fisgaram ao, bizarramente, decidirem que tinham que lutar esse guerra no campo em que o bolsonarismo tem melhor desempenho. O bolsonarismo se alimenta da controvérsia. Principalmente das falsas controvérsias gestadas na comunicação.

Essa guerra já deveria estar sendo travada, há muito, no campo da Lei e da institucionalidade, não da molecagem bolsonarista das redes.

Todavia, enfim tivemos, apesar desse erro alguma sinalização institucional. O TSE abriu um inquérito administrativo contra Jair Bolsonaro por unanimidade em razão das falsas acusações que tem feito sobre o sistema eleitoral. O ministro do STF, Alexandre de Moraes, incluiu o presidente no inquérito das fake news, que já tramita na Alta Corte há meses. Luiz Fux, presidente do STF, veio a público para anunciar o cancelamento de uma enfadonha reunião entre os Três Poderes, cujo objetivo, mais uma vez, era o de vender a falácia de que Jair Bolsonaro teme alguma autoridade, respeita os limites dos Poderes e zela pela Constituição. Ou, em outras palavras, que poderia ser moderado.

Já Luís Roberto Barroso, ministro do STF e atual o presidente do TSE, preferiu declamar versinhos de autoajuda para tratar das acusações e ofensas que vem recebendo. Versinhos dando conta de que não se rebaixaria ao nível do insultante e que o mal se corrompe sozinho. Tá certo. Pode até ser. Mas quanto tempo leva para a deterioração completa desse mal?

Barroso resolveu ceder uns pontos ao descabimento das acusações mentirosas do presidente da República: cogita aumentar o número de urnas sorteadas para auditoria nas próximas eleições. Como se isso fosse frear ou enfraquecer o golpismo engatilhado de Jair Bolsonaro. Na verdade, só fortalecerá o discurso do capitão, que ainda dirá que a medida, além de insuficiente, é uma espécie de reconhecimento de que ele tem razão.

A atitude de Barroso é mais um indicativo do consenso de que Bolsonaro deve chegar a 2022 e disputar uma eleição que, sem sombra de dúvidas, fraudará. Lembremos do recente manifesto de empresários intitulado “Eleições serão respeitadas”. Se a gente chegou ao nível de infantilidade de achar que pensar positivo faz com que as coisas aconteçam como a gente deseja, que ficar repetindo algo fará a coisa acontecer, é porque, realmente, tem sido mais lucrativo aos democratas antifascistas desse país jogar a toalha. O nome do sujeito que está ameaçando as eleições sequer é mencionado no tal manifesto. Um dos empresários que subscreve o documento disse, em entrevista, que não há intenção de “fulanizar” o debate.

Não se trata de fulanizar nada. Trata-se tão e somente de não fingir uma oposição que não existe.

Bem, a verdade é que isso diz muito sobre nós como país. Em 2016, houve enorme consenso destes sobre a deposição de Dilma Rousseff. Hoje, há consenso nos setores poderosos de que esse cidadão que nos desgoverna e atenta diariamente contra democracia deve disputar as eleições em 2022.

Diz muito sobre onde estamos e onde, inexoravelmente, vamos parar.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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