Justiça

Impunidade no caso de Marielle e Anderson é uma ferida aberta

A verdade precisa vir à tona. Por Marielle, por Anderson, por todos aqueles que hoje sentem medo de assumir seu lado na história

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Passava das 22h quando o então deputado estadual Marcelo Freixo me ligou. Estava com a voz embargada e repetia “mataram a Marielle, mataram a Marielle”. Confesso que levei alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Como assim “mataram”? Quem matou? E por que a Marielle? Eram as perguntas que eu gostaria de ter feito naquele momento. Mas não havia tempo. Freixo estava indo ao local do crime e eu precisava informar ao PSOL que uma das nossas fora assassinada. Estava atônito. Nunca imaginei viver uma tragédia dessas tão de perto.

Depois dos primeiros dias de tristeza e indignação acreditei que o caso seria desvendado rapidamente, talvez em poucas semanas. Afinal, tratava-se de uma vereadora da segunda maior cidade do país que, além disso, estava sob intervenção militar do Governo Federal. Que governo deixaria um assassinato desses sem resposta? Logo surgiram as primeiras hipóteses. Uma afirmava que o atentado poderia ter relação com denúncias de violência feitas por Marielle contra um batalhão da Polícia Militar acusado de disseminar o terror entre os moradores de uma comunidade. Outra envolvia o vereador Marcello Siciliano, acusado de relação com as milícias. Mas nenhuma dessas hipóteses parecia consistente.

Não demorou também para que uma máquina de destruição de reputações fosse acionada nas redes sociais. Foi a mesma máquina usada em favor de Jair Bolsonaro na campanha eleitoral meses depois. Uma das mentiras disseminadas tentava associar Marielle ao tráfico de drogas, afirmando que sua campanha fora financiada por facções criminosas e sua morte seria algum acerto de contas. Mentira canalha, difundida até por um deputado federal – Alberto Fraga – integrante da “bancada da bala” e apoiador de Bolsonaro.

Persistem as primeiras perguntas

Felizmente a campanha de mentiras contra Marielle foi derrotada, contando com o apoio decisivo da imprensa. Com o passar do tempo, restaram as perguntas que me fiz naquele 14 de março, quando Freixo me telefonou. Quem realmente matou Marielle e Anderson? Por quê? Quem pagaria para executar uma parlamentar do PSOL? Um ano se passou e ainda não temos respostas definitivas.

Leia também: PSOL quer CPI das Milícias, mas evita envolver Queiroz e os Bolsonaro

Nesse meio tempo as “fake news” não só venceram uma eleição presidencial (e várias eleições estaduais, incluindo no próprio Rio de Janeiro), como se tornaram recurso constante da guerra suja que o grupo político que está no poder usa contra seus adversários. Durante esses 12 meses outras mentiras foram disseminadas pelos órgãos de segurança, sempre sustentando que as investigações caminhavam para uma conclusão. Do chefe da Polícia Civil ao Ministro da Justiça do governo Temer, passando pelo governador do Rio de Janeiro e pelo comandante da intervenção militar: todos afirmaram em algum momento que o crime estava prestes a ser solucionado.

Um ano depois, finalmente, a investigação chegou a dois ex-PMs. Ronnie Lessa e Élcio Queiroz são acusados da autoria dos assassinatos de Marielle e Anderson. Um deles vivia no mesmo condomínio de luxo da família Bolsonaro. Nas redes e na imprensa circulam fotos dos acusados posando ao lado do presidente da República. E o delegado que investigava o caso – afastado logo depois da prisão dos acusados – admitiu que a filha de um deles teria sido namorada de um dos filhos do presidente. Ao invés de vir a público esclarecer que tipo de relação sua família mantém com esses indivíduos, Jair Bolsonaro se limitou a dizer: “Também quero que descubram quem mandou me matar”. Uma piada de mau gosto.

A impunidade no caso de Marielle e Anderson é uma ferida aberta na democracia brasileira. É claro que Marielle não foi a primeira nem a última defensora de direitos humanos assassinada no Brasil. Sequer foi a única detentora de mandato eletivo executada em 2018. Mas seu crime tomou dimensões internacionais. E isso se deve, não há dúvida, ao símbolo de resistência que Marielle se tornou para toda uma nova geração de novos ativistas. É possível que a maioria das pessoas que foram às ruas no dia seguinte ao assassinato da Marielle em todo o Brasil não conhecessem até então seu trabalho como vereadora. Mesmo assim, sua morte tocou fundo no coração de muitas mulheres, jovens, negras, militantes LGBT, ativistas de direitos humanos, cidadãos indignados, que naquele momento perceberam como pode ser cruel a violência dos detentores do poder.

A morte de Marielle foi um feminicídio político. Ela foi morta porque era mulher e negra, mas também por ser socialista e militante do PSOL. Quem encomendou sua morte está, portanto, do outro lado de nossas trincheiras. Não há dúvida de que o crime que vitimou Marielle e Anderson foi altamente sofisticado, planejado com muita antecedência e financiado por gente poderosa. Considerando as pessoas cuja presença e ação de Marielle na Câmara de Vereadores afrontava, além dos interesses que o PSOL sempre contrariou no Rio de Janeiro, a lista de possíveis envolvidos não pode ser tão extensa que impeça a elucidação do caso. Levantar a hipótese de um crime de ódio – como sugeriram, em coletiva à imprensa, as promotoras que apuram o caso – é um desrespeito à inteligência dos brasileiros e uma afronta à memória de Marielle.

Leia também: "O tempo é nosso inimigo", diz Freixo sobre investigação do caso Marielle

Os possíveis endereços dos mandantes

Os mandantes dos assassinatos de Marielle e Anderson devem ser procurados entre as autoridades que defenderam as milícias que o PSOL denuncia desde 2010. Devem ser procurados entre aqueles que disseminaram mentiras na internet para tentar diminuir o impacto do crime da opinião pública. Devem ser buscados entre os que combatem os defensores de direitos humanos e não suportam mulheres e negros nos espaços de poder. Os mandantes devem ser procurados também entre aqueles políticos que homenageiam, empregam parentes ou defendem milicianos publicamente.

Pode ser que as conclusões sejam quase insuportáveis para as pessoas que não acreditam que a degradação do ambiente político tenha chegado tão longe, ao ponto de envolver, quem sabe, indivíduos que hoje estão no topo do poder. Mas a verdade precisa vir à tona. Por Marielle, por Anderson, por todos aqueles que hoje sentem medo de assumir seu lado na história. Nem que seja para encerrar de vez a agonia que vivemos nesses últimos 365 dias. Queremos verdade e justiça.

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