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A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – III
Jair Bolsonaro e os militares que o guindaram à Presidência copiaram manuais fascistas, e deles fazia parte a ideia de permanência indefinida no poder, pelo voto ou pela força
“Nós criamos o nosso mito. O mito é a fé, uma paixão. Não é necessário que ele seja uma realidade. (…) A esse mito, a essa grandeza que queremos transformar numa realidade total, subordinamos tudo”. A frase é de Benito Mussolini que, entre a primeira e a segunda guerras mundiais, foi o líder irracional, contraditório, louco, mítico, implacável com seus opositores, sanguinário – e ainda assim, e por isso mesmo, tornou-se a inspiração de todo movimento de extrema-direita internacional e de vários déspotas, inclusive de Adolf Hitler. Jair Bolsonaro e os militares que o guindaram ao poder seguiram fielmente seus ensinamentos. O projeto jabuticaba de tomada de poder começaria com eleições, sob um regime democrático. O momento seguinte seria o de permanência do poder pela força e com o apoio da massa fascista, míope e armada.
Se, como Umberto Eco, entendermos a diferença entre nazismo e fascismo apenas pela consistência ideológica – o nazismo a tinha; o fascismo é uma “uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas” – poderíamos dizer que a construção fascista no Brasil tentou reduzir essa diferença. Jair Bolsonaro e os militares de seu entourage se atiraram no neoconservadorismo ultraliberal que, nas últimas décadas, fixou território em todo o mundo, formou “think tanks” para disseminar o neoliberalismo econômico sem liberalismo político e reinventou um regime que se julgava enterrado pela História.
Esses produtores de ideologia que alimentaram guerras híbridas ao longo das últimas décadas tentaram dar substância ao neofascismo, que passou a arrotar e massificar máximas, tornando sinônimos liberalismo econômico e “liberdade”; “liberdade” e desrespeito ao voto e às instituições; “liberdade”, militarismo e para-militarismo; “liberdade” e uso intensivo da religião e da moralidade como armas de combate a um inimigo externo – de preferência, e ainda, o comunismo, como nos tempos de Mussolini e Hitler, mas sem a existência de similares ao comunista Josef Stálin, hoje figura restrita aos compêndios de história. O inimigo é “oculto”, por isso perigoso. Os neofascistas agregaram ao rol dos inimigos outro fantasma, os “gramscianos”, referência aos adeptos do teórico socialista Antonio Gramsci – que, nas masmorras de Mussolini de 1926 a 1934, formulou teorias para explicar a ascensão de um líder ignorante e rude e o apoio das massas contra os interesses delas próprios.
Em 2018, duas semanas após a vitória de Bolsonaro, o jornalista argentino Marcelo Falak fez um relato representativo. Em coluna publicada no site NoAmbito, relatou as confissões anônimas de um militar do “alto escalão” no governo Temer que formava, com outros generais, um grupo que, desde 2013, articulava a tomada do poder para “extirpar” a esquerda brasileira, já que o centro ideológico não se unia para derrotar o PT. Jair Bolsonaro aceitou representar esta “nova democracia”. Era neoliberal na economia e ultraconservador na política; pregava “uma participação ativa dos militares na política” e a missão de “erradicar” a esquerda.
Segundo este mesmo militar de “alto escalão”, Bolsonaro se submeteu ao projeto (antes disso se declarava nacionalista) e a um trato na sua imagem. Católico, com dois casamentos anteriores e quatro filhos homens, Bolsonaro, já casado civilmente com Michele, com quem tinha uma filha, submeteu-se a uma cerimônia religiosa em 2013. O casamento foi conduzido pelo pastor Silas Malafaia e teria selado o pacto de adesão da comunidade evangélica, cada vez mais significativa no eleitorado brasileiro, ao projeto militar. Malafaia fazia parte do pacote que fora vendido a Bolsonaro pelo grupo de generais que, posteriormente, ascenderia aos mais altos cargos de seu governo.
A “nova democracia” produziu simulacros inimagináveis para equiparar Bolsonaro a um líder fascista. Além de vesti-lo como homem de família cristão – o “homem comum” brasileiro com quem a multidão deveria se identificar – levou o ex-capitão, que no passado quase foi expulso do Exército, para dentro de seus muros.
Benito Mussolini, um ex-militar de baixa patente, também tivera amplo acesso aos quartéis da Itália para a propagação da doutrina fascista.
O projeto de fascistização da sociedade urdido nos quartéis fez Bolsonaro assumir os requisitos que o grupo de militares considerou apropriados a um líder fascista. O chefe em construção era conservador e defendia a família (ele teve várias). A religião veio preencher o requisito mítico e místico: em vez da pureza de raça (e embora o racismo tenha sido reforçado no período de gestação e ascensão do líder Bolsonaro), num país de forte miscigenação e eleitorado majoritário pobre, preto e feminino, a crença religiosa e a palavra da Bíblia tornaram-se a tradição na qual sua liderança se sustentava. De lá emergiu o mito.
Para Mussolini, que não tinha religiosidade, o mito residia no passado romano heroico e no sincretismo com outras civilizações clássicas. O sincretismo religioso de Bolsonaro, o candidato a Mussolini, realizou-se na curiosa aliança religiosa com Israel. O retorno ao passado, clamado pela liderança fascista jabuticaba, é a civilização “judaico-cristã” representada no primeiro testamento. O índio, que está na origem do país tropical chamado Brasil, foi relegado ao mais profundo preconceito e desprezo.
Os símbolos foram sendo criados. Mussolini era o “Duce”, o líder; Hitler o Füher, o guia. Bolsonaro tornou-se o “Mito”. O bolsonarismo apropriou-se de tal forma dos símbolos pátrios – a bandeira nacional e o hino – que a camiseta “canarinho” da seleção brasileira acabou cumprindo outro papel, o de uniforme. Os fascistas italianos usavam a camisa preta. Os nazistas adotaram como símbolo a suástica. Foi a massa vestida da camiseta amarela que cruzou a Esplanada dos Ministérios no dia 8 de janeiro de 2023 para invadir os prédios dos três Poderes da República.
O país de Bolsonaro passou a ser a “nação” ou a “pátria”, que trazem uma conotação patriótica, necessária a qualquer movimento fascista. Era também preciso forjar um lema. A inspiração também veio do passado: um dos lemas de Hitler, e o mais usado, era “Alemanha acima de tudo”, primeira frase do hino nacional daquele país. O de Mussolini, “Deus, Pátria e Liberdade. Os criadores do líder jabuticaba misturaram ambos: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. A primeira parte também é uma cópia do lema da Brigada de Infantaria Paraquedista, herança do passado fascista brasileiro, o Estado Novo de Getúlio Vargas.
Faz parte do script do fascismo acenar sempre com inimigos e conspirações. O PT, é claro, era (e continua sendo) o primeiro da lista, para Bolsonaro e para o grupo de militares que o ajudaram a ascender à Presidência. Na entrevista ao site argentino, o militar que se declarou parte da conspiração que elegeu Bolsonaro em 2018, ao ser perguntado por quê o Exército Brasileiro, que tinha tradição nacionalista, tornara-se ultraliberal, deu uma resposta simples, ao modo fascista: se o PT é nacionalista, “nós (os militares) somos o oposto”. Pela experiência de governo fascista de 2019 a 2022, a máxima “somos contra tudo o que o PT for a favor” vale para as agendas educacional, de saúde, social, do meio ambiente e, também, para a agenda democrática. Parte do grupo de generais que articulou o personagem Bolsonaro foi para a cadeia junto com ele, por tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
Eleito Bolsonaro, o projeto fascista partiu para a etapa de criar as condições para a sua permanência no poder, pelo voto ou pela força. A segunda hipótese exigia um processo rápido de militarização da sociedade – quer pela captura e submissão das Forças Armadas, quer pela formação de milícias. Hitler e Mussolini formaram seus exércitos milicianos, compostos por uma pequena burguesia sensível ao ódio e à beira da marginalidade, que mais tarde submeteram as instituições militares. No caso brasileiro, em que os militares operavam como núcleo formulador de um governo de extrema-direita de massas, tratava-se de consolidar a ideologia fascista nas Forças Armadas e, uma vez no governo, operar para a criação de milícias fascistas.
O processo de “fascistização” das forças militares prosseguiu no governo Bolsonaro e alcançou as polícias militares de governos estaduais sob sua influência. Assim como Hitler e Mussolini, o líder fascista, já no início do governo, levou adiante o projeto de criação de uma milícia própria, um exército informal que poderia ser mobilizado sem entraves legais em confrontos com adversários que fatalmente ocorreriam, em função da radicalização das bases e da transformação de apoiadores em massa fascista.
A liberalização do porte de armas, o estímulo à proliferação de arsenais privados por meio de Certificados de Registro de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC) e o incentivo à criação de clubes de tiro são, potencialmente, um efetivo fascista que sobreviveu à prisão do líder, e foi armado legalmente. Tem uma força considerável. Hoje, por conta das iniciativas do governo anterior para armar o “seu povo”, o Brasil possui 1.022.021 colecionadores declarados de armas. Destes, cerca de 700 mil têm em estoque 1,58 milhão de armas. O restante usa armas em estandes de tiro. O país passou a abrigar dois mil clubes de tiro, contra apenas 160 em 2018.
A estratégia de ganhar pelo voto e acumular poder para demolir a democracia é cópia tirada da história do fascismo e do nazismo. Hitler e Mussolini foram eleitos chanceler e primeiro-ministro pelo parlamento e, uma vez no poder, destruíram as instituições democráticas e se tornaram ditadores. A paradoxal propaganda que os permitiu dar golpe dentro do governo foi um discurso “antissistema” – os líderes estavam no sistema, mas o sistema não os permitia governar para o “seu” povo (o povo fascista é composto, sempre, apenas pelos adeptos do líder), e por isso o “sistema” tinha que ser destruído.
Bolsonaro se declarou “antissistema” mesmo depois de ser eleito presidente da República. Diante de uma maioria parlamentar eleita junto com ele, cuja maioria coincidia com o seu perfil como parlamentar (foi deputado por 28 anos) – clientelista, fisiologista, cooptável e conservador), e com o firme apoio da instituição militar, Bolsonaro mirou no Judiciário. Era uma medida preventiva: ao jogar contra as urnas eletrônicas e se atacar sistematicamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mesmo depois de eleitos pelas regras instituídas, o líder fascista já mirava o momento seguinte, de ampliação de seus poderes com ou sem vitória eleitoral, ou seja, pela força. O dia 8 de janeiro faz parte de um script iniciado no dia da posse do líder fascista, em 1 de janeiro de 2019. O que falhou foi o apoio das Forças Armadas à segunda etapa do projeto criado de acordo com o manual fascista: a destruição das instituições democráticas. O Supremo Tribunal Federal, principal vítima dos ataques de Bolsonaro desde o primeiro dia de seu governo, foi o grande guardião da democracia. O julgamento exemplar dos golpistas, inclusive de Jair Bolsonaro e dos militares do programa Nova Democracia que criou o “Mito”, não estava no script.
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