Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

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A derrota de Orbán não é o fim da sua vitória

Mesmo fora do poder, o líder autoritário triunfa ao tornar praticamente incontestáveis práticas e discursos que antes encontravam resistência na sociedade húngara

A derrota de Orbán não é o fim da sua vitória
A derrota de Orbán não é o fim da sua vitória
Orban foi aos Estados Unidos para reunião pelos 75 anos da Otan - Foto: Brendan Smialowski / AFP
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A derrota de Viktor Orbán é um marco para o mundo contemporâneo. Seja por seu certo pioneirismo, seja pela capacidade de formular de modo sistemático um programa político organizado em torno do conceito de iliberalismo, o autocrata húngaro ocupa um papel global que ultrapassa em muito o peso econômico ou geopolítico da Hungria. Incensado por Donald Trump e Jair Bolsonaro, Orbán ocupa, na ultradireita atual, um lugar semelhante ao de Benito Mussolini nas décadas de 1920 e 1930: o de precursor, inspiração de um outro tempo e de uma nova forma de fazer política.

Sua queda, portanto, é a queda de um símbolo. Durante anos, analistas enxergaram no aparelhamento do Estado húngaro as bases de um regime autoritário duradouro — sustentado pela Constituição de 2011, pelos amplos poderes do Executivo, por leis eleitorais desenhadas para produzir supermaiorias e pelo domínio da Suprema Corte. O resultado das urnas, com pouca margem para questionamentos, surge assim como um alento e uma possível inspiração para a resistência diante de outros projetos autoritários.

A ascensão do sucessor, Peter Magyar revela porém o quanto Orbán foi capaz de transformar profundamente o cenário político húngaro.

Antigo aliado de Orbán, Magyar venceu amparado por uma frente que vai da esquerda a setores da direita recentemente rompidos com o antigo líder. Se, por um lado, sua eleição enfraquece formas autoritárias de exercício do poder, por outro também aponta para a normalização de discursos profundamente antidemocráticos — como a recusa à imigração, ancorada em premissas de racismo étnico explícito. A fragilidade ou mesmo a ausência de oposição mais direta a várias das bases ideológicas do governo Orbán, visível entre os eleitos ao Parlamento, revela um paradoxo: a vitória de Magyar consolida, em parte, a ordem construída ao longo dos últimos 16 anos. Mesmo derrotado, o líder autoritário triunfa ao tornar praticamente incontestáveis práticas e discursos que antes encontravam resistência significativa na sociedade húngara.

Orbán incomoda mais como ‘inimigo do Ocidente’ do que propriamente como ‘inimigo da democracia’

Reconhecer esse cenário não significa diminuir a relevância do resultado eleitoral, mas compreender que o rastro de destruição deixado pela ultradireita não se limita à dinâmica das urnas. Vencer figuras como Orbán é fundamental, mas está longe de ser suficiente.

O entusiasmo de líderes europeus e de parte expressiva da mídia global, por sua vez, revela traços dos grandes embates políticos contemporâneos e também os limites de certas leituras. Apesar da forte aproximação entre o líder derrotado e Trump — com manifestações explícitas de figuras do governo norte-americano durante a campanha —, o maior incômodo gerado por Orbán parece residir em sua proximidade com Vladimir Putin. Orbán incomoda mais como “inimigo do Ocidente” do que propriamente como “inimigo da democracia”. A rejeição a lideranças alinhadas ao regime russo é compreensível, mas soa hipócrita diante da centralidade de uma figura como Giorgia Meloni, de inspiração fascista, na União Europeia, ou da complacência de elites políticas europeias frente aos crimes de guerra associados a Donald Trump.

Esse conjunto de discursos também expõe fragilidades teóricas do próprio conceito de iliberalismo. Utilizado como ideologia declarada pelo governo Orbán, ele foi igualmente incorporado por analistas influentes da mídia ocidental, como Timothy Snyder, Anne Applebaum e Marlène Laruelle. A ênfase no “ocaso do liberalismo” — em detrimento da falência da democracia — não é apenas uma disputa semântica: ela contribui para estabelecer um abismo artificial entre formas “ocidentais” e “orientais” de autoritarismo. O recente genocídio no Oriente Médio, protagonizado por lideranças como Donald Trump e Benjamin Netanyahu em nome dos valores do Ocidente, sugerem, ao contrário, uma proximidade inquietante entre essas experiências.

Parte das interpretações sobre a derrota de Orbán parece apostar, ainda, na possibilidade de retorno a uma espécie de mundo dos anos 1990 — os “bons tempos” da democracia liberal, do multilateralismo, da integração europeia, das guerras justificadas em nome dos direitos humanos e de um neoliberalismo amplamente aceito. Mesmo deixando de lado o quanto esse próprio cenário contribuiu para a emergência do horror posterior, há um problema evidente, escancarado pelo caso húngaro: a ultradireita transformou profundamente o tecido social e político — e isso se torna ainda mais visível em suas derrotas. Apostar em uma simples restauração do passado não só tende a ser ineficaz como pode, paradoxalmente, reacender as forças que recentemente pareciam derrotadas.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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