Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – I

O líder das massas escolhido foi Jair Bolsonaro, que tinha currículo de ‘homem médio’: militar de baixa patente e parlamentar medíocre, como Hitler e Mussolini

A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – I
A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – I
Jair Bolsonaro e militares do Exército. Foto: Sergio Lima/AFP
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Foi como encenar uma ópera bufa. O enredo, subtraído de fenômenos políticos que produziram os regimes mais cruéis da humanidade, o fascista italiano e o nazista alemão, tinha o propósito de levar as massas ao delírio com frases que não significavam absolutamente nada, exceto ódio, impropérios, manifestação explícita de preconceito, ameaça de desobediência à ordem instituída e culto ao uso da força. O espetáculo deu certo. A massa, embevecida, imprimiu em seu cérebro não apenas um líder agressivo e inculto que deveria ser imitado, mas a ideia de impunidade – para o ódio, a violência, o preconceito e o atentado contra as instituições que podem criminalizar e punir o ódio, a violência e o preconceito.

A história brasileira da última década relata o fenômeno quase incompreensível de fascistização das massas sem que o país tenha saído derrotado de uma guerra, nem fatalmente afetado por crises econômicas mundiais. A velocidade com que isso ocorreu e as circunstâncias – após períodos de estabilidade econômica que sucederam décadas de instabilidade, de redução da desigualdade social histórica e de baixas taxas de desemprego, obtidos em governos de um partido de esquerda – contrariam a lógica.

A massa ter persistido fascista depois de quatro anos de governo Bolsonaro, que atacou sistematicamente os interesses da população pobre, matou milhões com o descaso à saúde pública e às regras sanitárias durante a pandemia da Covid e praticamente eliminou os programas sociais construídos nos governos petistas é um total despropósito. Mas isso faz sentido quando alguns fatos se encontram.

Em primeiro lugar, o mundo vivia um momento de grande popularização do uso da “guerra psicológica” – as chamadas “guerras híbridas – como arma de guerra e destinada à manipulação e desestabilização de governos. O país imperialista não apenas usou, mas abusou dessa estratégia para remoldar a Europa e o Oriente Médio aos seus interesses. As “primaveras” que pipocaram no mundo, de repente, sem explicação, como se surgissem do nada, em áreas de interesse estratégico daquele país, resultaram invariavelmente em regimes pró-EUA. O intercâmbio com militares e serviços de inteligência dos países da órbita de influência econômica estadunidense não apenas produziu, mas infectou corporações do mundo inteiro. De fora, com a aquiescência dos “de dentro”, houve um movimento internacional de ataque sem tréguas às soberanias já vilipendiadas pelo capital especulativo sem pátria, que traz em si o poder de derrubar economias quando acorda de mau humor.

No caso brasileiro, a novidade alegrou a chamada “geração dos anos 70” da Academia Militar de Agulhas Negras – os militares que frequentaram e saíram da escola de formação de cadetes no período mais duro da ditadura e foram treinados para o combate sem tréguas à esquerda. No momento em que eram fincadas as raízes para cultivo do fascismo, na década que se iniciou em 2010, eram eles os generais. Todos eles ultradireitistas, com vínculo visceral com os Estados Unidos e convertidos à “guerra psicológica”. E fundamentalmente antipetistas. A nova era das guerras não lançava bombas físicas, mas ataques imperceptíveis com resultados espantosos sobre o ânimo das massas, por meio do uso exaustivo de novas tecnologias e mídias sociais, um recurso com o qual a velha geração de partidos políticos ainda não se familiarizara. Foi um casamento bem-sucedido com os plutocratas do novo capitalismo que, ao longo das décadas anteriores, acumularam o conhecimento, a propriedade e a riqueza que girava em torno da tecnologia de informação em rede, e chegaram ao século XXI como donos da maior parte da riqueza mundial. Também não deixa de ser irônico que técnicas tão sofisticadas de comunicação tenham sido colocadas a serviço do capitão avesso ao conhecimento e à ciência – mas o capital tem interesses, não simpatias.

A soma da tecnologia, dinheiro e know-how em guerra psicológica levou a geração dos anos 70 da Aman ao êxtase. Um deles, em off, numa entrevista após a vitória do candidato de extrema-direita, vangloriou-se da façanha de transformar um ex-capitão e deputado obscuro em ídolo das massas. É a guerra híbrida, disse ele. A conquista do poder sem precisar dar nenhum tiro. Ser um artífice da explosão fascista da massa, para esse militar, deve ter sido a glória suprema.

Num mundo em que a mentira é a melhor arma, foi criada a versão de que Bolsonaro foi até os militares pedir apoio quando decidiu se candidatar a presidente. A outra versão é que sua candidatura saiu de uma articulação dos seus colegas de Aman, então no topo da carreira, e sua ascensão foi construída de dentro dos quartéis para fora. Qualquer que seja a verdade, o fato incontestável é que foi montado um teatro para forjar o líder, e este seguiu literalmente o roteiro da ascensão de Benito Mussolini na Itália, em 1922, e de Adolf Hitler na Alemanha, em 1934.

O personagem construído para Bolsonaro a partir dos livros de história que analisam o inquietante fenômeno da fascistização das massas do início do século XX, que levou a classe média e trabalhadores a conspirarem contra seus próprios interesses, interpretou, cena a cena, o papel original de seus líderes fascistas. Ao líder, foram agregados os demais elementos: manter as instituições do Estado sob permanente ataque; apresentar-se como o defensor da família e dos valores conservadores; a religiosidade (a mística é elemento importante do enredo, pois o líder é eleito de Deus); a articulação legal (liberalização do porte de armas) para formação de uma milícia própria, força que seria agregada à corporação militar institucional, mas que não se impusesse limites legais para “defender” o líder e o regime.

A escolha de Bolsonaro para liderar a massa criada pela extrema-direita foi o primeiro passo. Trata-se de levar ao poder o ‘cidadão médio’. Para William Reich, que escreveu Psicologia de Massas do Fascismo (1933) – uma tentativa de entender o movimento de massas alemão à luz de sua experiência como seguidor de Sigmund Freud na psicologia e sua militância no Partido Comunista – definiu o fascismo como “a expressão da estrutura de caráter mística e autoritária do homem médio”. Bolsonaro logicamente se encaixa nessa definição. Até demais. O personagem foi além disso: é quase como uma cópia da origem dos dois maiores líderes do fascismo mundial. Benito Mussolini foi soldado raso; depois, um parlamentar medíocre. Hitler lutou na guerra e dela saiu como soldado raso. Bolsonaro foi capitão – um militar mediano, aliás – e depois tornou-se um obscuro parlamentar.

Confesso que sempre me intrigou o fato de generais terem aderido de forma voluntária a um capitão, uma situação insólita numa corporação de hierarquia tão rígida. Além de patente baixa, o líder escolhido, segundo relato dos próprios colegas, era pouco afeito a tarefas intelectuais. Seu apelido era “Cavalão” — o bruto que só se sobressaía nos esportes. Mas a entourage militar não estava atrás de um general para chamar de seu. Queria forjar um líder, um “homem médio”, capaz de tocar os sentimentos de massas que, até então, só haviam se encantado por dois líderes: Getúlio Vargas, um estancieiro gaúcho que flertou com o fascismo quando ditador (1937-1945), tornou-se um líder popular e foi reconduzido à Presidência pelo voto em 1951, deixando como legado a industrialização brasileira e a lei trabalhista destruída no governo de Michel Temer (2016-2018); e Luiz Inácio Lula da Silva, o líder sindical metalúrgico convertido à política, principal liderança do Partido dos Trabalhadores.

Agora, a massa surfaria na onda de um líder fascista. Mussolini era o “Duce”, o líder; Hitler, o “Führer”, o “guia”; Bolsonaro se tornou o “Mito”.

O tema é vasto e vai continuar em artigos posteriores.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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