Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

Colunas

A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – II

Jair Bolsonaro treinou para tornar-se um líder de perfil fascista ainda militar, quando canalizou a insatisfação de uma massa que, confinada pelos muros dos quarteis, viu decair seu poder político e seus salários

A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – II
A construção do mito: a ópera bufa que gerou o fascismo no Brasil – II
Jair Bolsonaro e Mauro Cid. Foto: Mauro Pimentel/AFP
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Os fenômenos do nazismo e do fascismo impõem a dúvida: o que veio primeiro, Mussolini ou o fascismo? Hitler ou o nazismo? A sociologia se move em torno de um consenso: o líder fascista não floresce se não há uma predisposição da massa em consentir, mesmo às custas de seus próprios interesses. O líder é o personagem histórico que sente o ânimo social porque ele próprio, um homem médio, é produto do meio e compartilha com as massas o mal-estar, o ódio latente, a sensação de perda coletiva irreparável e a paranoia social – o inimigo invisível que trama contra todos e cada um deles.

Os fascistas constituem um país deles, onde apenas cabem o dirigente e “o povo” que a ele adere. É ao “povo” fascista que o líder se dirige e é a ele que o “seu” povo obedece; mas cada fascista extrai para si, desse substrato ideológico, licença para exercer “impulsos cruéis, sádicos, lascivos, sanguinários e invejosos” que afloram no nível de caráter médio da psiquê humana, segundo William Reich. 

Diz Reich, no prefácio à terceira edição alemã de A Psicologia de Massas do Fascismo, que esse caráter médio sanguinário se situa entre o caráter de nível superficial do desenvolvimento social (em que o “homem médio” é “comedido, atencioso, compassivo, responsável, consciencioso”) e um terceiro nível, no qual ele alcançaria o ideal socialista (“o animal racional essencialmente honesto, trabalhador, cooperativo, que ama e, tendo motivos, odeia”). A barbárie reside, portanto, na alma do “homem médio”, entre o caráter compassivo e o caráter ideal.

Isso não é um consenso, mas uma das interpretações da psicologia para o comportamento irracional das massas.

Mas existe outro consenso entre os estudiosos: o de que esse fenômeno – a emergência de uma massa disposta a seguir o líder fascista e a exclusão dos que discordam, os “inimigos” — ocorre em períodos de grande comoção e descrédito nas instituições. O nazismo floresceu no pós-Primeira Guerra, após uma derrota humilhante; Mussolini governou a Itália entre 1922 e 1943 e sua ascensão ocorreu num cenário de grave crise econômica mundial. 

A diferença entre fascismo e nazismo, segundo Umberto Eco em O Fascismo Eterno, é que o nazismo de Hitler conformou uma ideologia própria e única; o fascismo é uma “colcha de retalhos” ideológica, “um alveário de contradições”. Existiu apenas um nazismo. Os fascismos se acumularam. 

Dito isso, vamos aos paradoxos brasileiros da atualidade: o que veio primeiro, o líder Jair Bolsonaro ou o ânimo fascista dos militares brasileiros que o apoiaram e planejaram, junto com ele, um golpe de Estado? O que veio primeiro, Bolsonaro ou a massa fascista?

Na origem, militares golpistas e Bolsonaro são frutos da mesma árvore. O ex-capitão Jair Bolsonaro e os generais que com ele ascenderam ao poder em 2018 eram os militares que cursaram a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) nos anos de 1970, criados nos bancos escolares sob a ideologia da ditadura militar e treinados para combater a sociedade civil, toda ela inimiga potencial do regime autoritário. 

A história registra que parte dos instrutores de Bolsonaro lutou na guerrilha do Araguaia (a guerra suja do Exército Brasileiro que eliminou todos os guerrilheiros do PCdoB, inclusive os que se renderam) e as imagens dos mortos pelo Exército eram exibidas como troféus nas academias. Instigados ao ódio por professores que não apenas concordavam, mas serviram ao aparelho de repressão (a geração da Aman dos anos 1970 endeusava o professor Brilhante Ustra, o torturador), deixaram a academia e passaram a exercer funções militares justamente no período em que o regime autoritário preparava, com o presidente-general Ernesto Geisel, uma “abertura lenta, gradual e segura”. 

Nos quartéis, a contradição entre um corpo de oficiais criados sob uma ideologia autoritária que não admitia diferenças – a escola ensinava que existia apenas um lado certo, o do autoritarismo, e todos que lutavam pela liberdade eram perigosos comunistas – e um governo que desdisse tudo o que se aprendeu nas academias formou bolhas de insatisfação e insubordinação. Acresça-se às divergências quanto ao rumo da “revolução de 1964” (como o golpe militar foi chamado na ditadura) entre o governo militar que preparava a abertura e o “homem médio” da caserna um período de elevadíssima inflação, que corroía os soldos dos militares da mesma forma que fazia sumir o salário dos civis.

Intramuros, a oposição do oficialato à política de abertura de Geisel (entrecortada por surtos mais que autoritários, o maior deles a edição do Ato Institucional nº5, com fechamento do Congresso e uma reforma imposta ao Judiciário) era liderada pelo general Silvio Frota, ministro do Exército que tentou impor a sua candidatura à sucessão presidencial pelo Colégio Eleitoral no lugar do candidato oficial de Geisel, o também general João Baptista de Oliveira Figueiredo. O ajudante de ordens de Frota era o hoje general reformado Augusto Heleno (condenado e preso, junto com Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado em 8 de Janeiro de 2023), que saíra da Aman em 1969.

No dia 21 de abril de 1985, José Sarney assumiu a Presidência da República. Tornou-se o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura. A “família militar” perdeu poder, status e dinheiro. Havia sido equiparada à classe média civil. Não tinha papel nem importância numa sociedade que engatinhava no aprendizado de viver em uma democracia. Era o declínio moral e político dos militares, em especial os do Exército, força que se sobrepôs às demais e impôs todos os presidentes da República do período. Era também a fatal decaída econômica dos seus, com soldos engolidos pela altíssima inflação do governo do general João Figueiredo (que governou de 1979 a 1985) que se tornou uma hiperinflação no governo Sarney. 

O sentimento de decadência e a ruína econômica se abateram sobre a fechada sociedade militar. Foi aí que Jair Bolsonaro deu seus primeiros passos como líder fascista. Por trás dos muros dos quarteis que separavam os militares da sociedade civil, o capitão insubordinou-se, mas apenas quando um civil já ocupava a Presidência da República. E tornou o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, o seu alvo principal – o “inimigo” que traíra os militares. Na sua versão, o ministro teria que impor ao governo civil o aumento salarial dos militares. 

Em 3 de setembro de 1986, escreveu um artigo para a revista Veja, com o título O salário está baixo, reclamando da política salarial do governo. Foi punido com 15 dias de prisão. Em 28 de outubro, a revista publicou uma matéria, assinada pela repórter Cassia Maria Rodrigues, sobre a Operação “Beco sem Saída” – uma ação terrorista que estava sendo preparada por capitães, liderada por Bolsonaro e pelo capitão Fábio Passos, que pretendia explodir bombas em quartéis do Exército, “sem ferir ninguém”, para protestar contra os salários baixos. A matéria trazia um croqui da adutora que abastecia de água o Rio de Janeiro e um desenho de uma bomba relógio – segundo perícia encomendada por Veja, de clara autoria de Bolsonaro. Dessa vez, o ministro do Exército mandou o insubordinado para um Conselho de Justificação – um tribunal disciplinar da corporação que decide se o oficial é digno de ser membro da corporação. Foi condenado ali, mas depois inocentado pelo Supremo Tribunal Militar (STM). Perdeu a patente no Conselho e reconquistou-a no STM.

O capitão insubordinado foi acompanhado pelo Centro de Inteligência do Exército até se tornar deputado federal. O prontuário dele é o esboço do que viria a ser o presidente Jair Bolsonaro. O CIE registra, com espanto, o apoio obtido pelo capitão preso – por oficiais que se submeteram também à prisão por se pronunciarem a seu favor e por um movimento de mulheres de militares que, em nome dos maridos, passaram a se reunir para protestar. Também se revela o seu caráter: diante do oficial encarregado de ouvi-lo sobre a operação Beco sem Saída, negou não apenas autoria do plano terrorista e dos croquis, como conhecer a repórter. Chamada a testemunhar no Conselho de Justificação, Cássia foi ameaçada de morte por Bolsonaro antes de depor, e relatou o fato.

Inocentado pelo STM “por falta de provas”, Bolsonaro voltou ao seu público militar. Esqueceu o que tinha negado nos tribunais e seguiu atacando o ministro do Exército e o governo. As mulheres de militares eram as intermediárias dos maridos nas manifestações. A revolta insuflada nos quarteis levou o capitão – um igual, um “homem médio” como os entusiastas de sua insubordinação – à Câmara dos Vereadores do Rio. Foi o começo de tudo.

A série ainda continua, com a tipificação do líder fascista e como essa história se encaixa na política brasileira dos últimos dez anos.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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