Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

A agressão à professora de Ceilândia e o silêncio conivente do racismo

Até o último segundo do vídeo, ansiei por qualquer manifestação por parte da turma. O que se viu foram gargalhadas e silêncio. Quem ri diante da violência aplaude

Foto: Reprodução
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No início desta semana, viralizou o vídeo em que Edmar Sônia Vieira, professora de Língua Portuguesa do Centro de Ensino Médio (Ceilândia/DF), foi agredida moral e verbalmente ao receber de “presente” um pacote de esponja de aço no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

Diante da ação racista, machista e misógina cometida por um estudante de 17 anos, chamou-me a atenção uma série de elementos contidos no vídeo, como também no desenrolar do episódio inaceitável de desrespeito à dignidade humana. Os minutos captados em gravações feitas pela turma são um reflexo de um País que nos últimos anos fez do desprezo às mulheres uma política de Estado. Mostram ainda que o silêncio tem sido uma ferramenta eficaz para a manutenção do racismo que está no DNA da sociedade brasileira.

Percebe-se que a ação foi arquitetada, pois esponja de aço não faz parte dos materiais escolares que alunos e alunas levam para a escola diariamente. Assim como as câmeras bem posicionadas para registrar a ação indicam uma combinação prévia. A verdade é que o estudante se sentiu autorizado a ofender, humilhar e discriminar a professora, fazendo coro ao imaginário social de que o lar, o trabalho doméstico, a pia e o fogão são os únicos destinos possíveis para nós, mulheres. O ato cometido pelo estudante vai ao encontro de falas de parlamentares que têm usado as tribunas para diminuir e criminalizar a condição feminina, negando direitos e atacando programas de promoção da equidade de gênero.

Além de reduzir a professora ao ambiente doméstico, acrescenta-se o fato de que ao longo de toda a vida, nós, negras, temos nosso cabelo comparado justamente com “bombril”, “palha de aço” e assemelhados, em atitudes racistas que visam a desqualificar nossa pertença racial. A atitude do rapaz é mais uma em um contexto de acirramento da violência racista, que traz como finalidade a perpetuação de uma ordem social que naturaliza as desigualdades, o sofrimento e as péssimas condições de vida às quais a população negra é submetida.

Ainda ao gesto do estudante, soma-se o processo público de depreciação de professores. São inúmeras as falas de políticos que colocam educadores como verdadeiros inimigos da sociedade, que devem ser filmados, perseguidos e denunciados. Na visão dos detratores dos docentes, é preciso também negar direitos trabalhistas e liberdade de cátedra. Ao violentar a professora daquela maneira, o aluno mostrou que corrobora com tudo isso.

Até o último segundo do vídeo, ansiei por qualquer manifestação por parte da turma. O que se viu foram gargalhadas e silêncio. Um silêncio conivente. Conforme já escrevi diversas vezes neste espaço, quem cala, consente. Quem ri diante da violência aplaude, concorda.

Desde a década de 1980, o pesquisador da UFMG Luiz Alberto Oliveira Gonçalves tem denunciado que o racismo se mantém e não dá trégua também em razão da omissão e da cumplicidade daqueles que testemunham manifestações discriminatórias contra sujeitos negros.

Em entrevista, Edmar Vieira relatou que duas alunas prestaram apoio, se insurgiram em relação ao descalabro do qual ela foi vítima. Acompanhando o caso, ainda não é possível afirmar que essa mesma posição tenha sido adotada pelo Centro de Ensino Médio ou pela Secretaria de Educação do Distrito Federal. Esta limitou-se a emitir uma nota vazia, que, pelos dizeres genéricos, parecia estar pronta, como se fosse resposta para qualquer tipo de transgressão cometida nas dependências das escolas que estão sob sua jurisdição. Em nenhum momento, há menção a medidas tomadas para o enfrentamento das desigualdades de gênero e para o combate ao racismo, conforme determina a legislação educacional vigente no País.

Diante da mobilização que se formou em torno do episódio ultrajante, a Polícia Civil do Distrito Federal informou que vai apurar o caso. Segundo o delegado Flávio Messina, o fato de a professora não ter registrado um boletim de ocorrência não impede a instauração de um procedimento, uma vez que se trata de um ato infracional de injúria racial. Racismo é crime.

Ao pedir que eu comentasse o caso, uma repórter perguntou qual deveria ter sido a atitude de Edmar Vieira diante dos fatos. Respondi que é preciso inverter a pergunta, uma vez que, sobre nós, negros, vitimados pelo racismo, pesa a responsabilidade de agir e criar medidas para o fim da injustiça racial, como se essa obrigação fosse somente nossa.

Está na hora de perguntar: quando os brancos vão deixar de nos violentar, discriminar, açoitar, explorar, matar?

Toda a minha solidariedade à professora Edmar Sônia Vieira.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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