Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

Opinião

O que esperar de um País que bate em professores?

No Brasil, os educadores, vitimados pelo projeto em curso de precarização e destruição da escola pública, tornaram-se os inimigos a serem abatidos

Imagem: Sind-Rede-BH
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No último 16 de março, após realização de assembleia, professores da rede municipal de Belo Horizonte decidiram entrar em greve. Entre as reivindicações, está o pagamento do piso salarial da categoria. Historicamente, a greve, direito garantido por lei, tem sido um dos instrumentos utilizados para exigir o reconhecimento e a valorização dos profissionais da educação.

Reconhecer e valorizar parecem, cada vez mais, verbos em desuso quando o assunto é o trabalho docente. O que observamos por meio de pesquisas e falas de gestores públicos é um processo constante de desqualificação e desmoralização daquelas e daqueles que dedicam a vida a promover a cidadania e contribuir para o fortalecimento da democracia nas salas de aula espalhadas pelo País.

Prova do descaso com que o Brasil trata os professores são as imagens divulgadas nesta semana pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte (Sind-Rede). Nos vídeos, pode-se ver guardas municipais agredindo educadores com empurrões e bombas de efeito moral, fazendo uso da violência de forma desmedida e injustificada. Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Prevenção afirmou que “uma sindicância investigativa foi instaurada imediatamente após o fato e, como medida preventiva, foram adotados afastamentos de dois envolvidos na operação, até o término da apuração”.

Infelizmente, a violência física e verbal vem sendo comumente utilizada quando profissionais da educação saem às ruas em defesa de seus direitos. Não é difícil elencar episódios em que cenas como as vistas no centro de Belo Horizonte foram registradas em outras partes do País. A mais recente ocorreu na noite de quinta-feira 31. Um guarda civil de Goiânia agrediu uma professora com um soco no rosto. Ela participava de um ato que exigia melhorias nas condições de trabalho e também o pagamento do piso nacional do magistério.

O autoritarismo e o uso excessivo da força contra os profissionais que atuam no campo da educação intensificam-se no momento em que é notória a influência do neoliberalismo e do populismo de extrema direita sobre as escolas, acompanhados pelo sucateamento, pelo ataque às políticas públicas e por tentativas incessantes de entregar a educação a grupos privados, conforme apontou a socióloga afro-americana Patrícia Hill Collins. Soma-se a isso o crescimento da violência policial durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, o que foi constatado no estudo realizado por Cesar Muñoz, pesquisador sênior da organização Human Rights Watch.

No Brasil, os educadores, vitimados pelo projeto em curso de precarização e destruição da escola pública, tornaram-se os inimigos a serem abatidos, ao passo que aqueles que se comportam como verdadeiros Barrabás, em instituições como o MEC, seguem agindo impunemente, fazendo da educação um balcão de negócios “em nome de Deus e da família”. Para quem não se lembra, Barrabás foi o criminoso escolhido pelo povo para ser salvo da crucificação e libertado, em vez de Jesus. Há muito, Paulo Freire escreveu: “A qualidade do ensino passa por uma série de questões. Uma delas é a falta de dignidade no tratamento do corpo docente”.

Desse modo, como pensar em desenvolvimento, em superação das desigualdades sociorraciais, em educação pública de qualidade, quando professores, além de não terem seus direitos garantidos, são tratados de forma indigna, cruel e desumana?

Fica mais uma pergunta: o que esperar de um País que bate em professores?

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Luana Tolentino

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