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O que está em jogo na visita de Lula a países africanos

Presidente embarca neste domingo rumo ao continente vizinho para uma viagem de 1 semana; agenda ‘atrasa’ a reforma ministerial e deixa o Centrão em compasso de espera

Foto: NORBERTO DUARTE / AFP
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O presidente Lula (PT) embarca neste domingo 20 rumo ao continente africano, onde ficará até o dia 27 e terá agendas em três países diferentes. Entre os compromissos, o destaque é a cúpula dos Brics, a ser realizada na África do Sul.

A longa agenda internacional de Lula tem fortes repercussões em Brasília. Isso porque, ao se distanciar do País, Lula deixará novamente o Centrão em compasso de espera pela reforma ministerial. A definição de quais ministros serão demitidos para a chegada de André Fufuca (PP) e Silvio Costa Filho (Republicanos), que era esperada para a última semana, ficou para o retorno da viagem.

Com isso, é bastante provável que as pautas caras ao governo federal em Brasília tenham novo atraso. Há duas semanas, Arthur Lira (PP-AL) adotou a postura de segurar as votações de temas como o arcabouço fiscal enquanto espera Lula anunciar a nova composição da Esplanada. Publicamente ele nega o recado, mas entre os líderes partidários a leitura é quase unânime.

O andamento das pautas também foi adiado por declarações de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, criticando os poderes da Câmara. A entrevista, exibida na última segunda-feira gerou rusgas entre o ministro e o parlamentar. Haddad estará com Lula na África o que, de certa forma, também dificultará uma solução para o atrito.

As agendas

Fato é a agenda de Lula no continente africano está cheia. O primeiro compromisso listado pelo Planalto é a preliminar da cúpula dos Brics. Na terça-feira, diz o comunicado do governo, “os líderes participarão de um fórum empresarial, e depois farão um retiro, um evento apenas com os chefes de Estado e governo e dos respectivos ministros das Relações Exteriores. O chanceler russo, Sergei Lavrov, estará presente.”

A cúpula, de fato, só acontece na quarta. Neste dia, os líderes do bloco se reunirão presencialmente pela primeira vez desde o início da pandemia de Covid-19. Essa será a 14ª edição do encontro e quase todos os presidentes dos Brics estarão presentes. A única ausência é do presidente da Rússia, Vladimir Putin, participará de forma remota.

A participação online se dá porque Putin tem um mandado de prisão em aberto expedido pelo Tribunal Penal Internacional. A África do Sul, signatária de alguns acordos, teria que cumprir a decisão.

O encontro dos Brics se estende até o dia seguinte, quando se juntam aos líderes representantes de outros 40 países convidados. “Em sua maioria são chefes de Estado e governo de nações interessadas em ingressar no bloco, vindos da África, da América do Sul, do Caribe e da Ásia”, esclarece o Itamaraty.

É justamente a entrada destes países no bloco que será tema central desta reunião. Há no radar uma expansão dos Brics nos próximos meses. Outra pauta do encontro são os conflitos no continente africano. A África do Sul quer propor algumas posições. A ação será avaliada pelos membros do bloco. O conflito entre Rússia e Ucrânia certamente será outro objeto de discussão.

Por fim, o Brics ainda deve se debruçar, finalmente, sobre a proposta de criação de uma moeda própria ou o fortalecimento do uso de moedas locais para as transações entre os membros do bloco. A pauta é fortemente defendida por Lula para se livrar de pressões dos Estados Unidos e de instituições como o FMI, que usam o dólar como parâmetro.

“É possível que haja um resultado nessa área [moeda comum ou uso de moedas locais]”, explicou o embaixador Eduardo Saboia na nota distribuída pelo governo Lula antes do encontro.

Terminados os compromissos com o Brics, na África do Sul, Lula segue para Angola. No país, em dois dias, Lula será recebido pelo presidente João Lourenço, com quem terá uma reunião privada e outra ampliada.

Depois, o brasileiro deve comparecer na Assembleia Nacional de Angola e também participar de um seminário, onde irá falar de um projeto no vale do Cunene. A agenda conta ainda com um evento empresarial que deverá ter a presença de cerca de 60 empresários brasileiros.

“O Programa de Desenvolvimento Regional do Vale do Cunene, área no sul do país castigada pela seca, é desenvolvido a partir de parceria com a Embrapa, e utiliza técnicas de agricultura e irrigação aplicadas no Vale do Rio São Francisco, que possui condições climáticas e de solo semelhantes a essa região do Brasil”, explica a gestão petista.

Por fim, Lula vai no domingo para São Tomé e Príncipe. Na capital, vai participar da 14ª Conferência de Chefes de Estado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), quando o comando do grupo será passado para o país anfitrião. A comunidade reúne Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

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