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O que diz a principal pesquisa de mídia do mundo sobre o consumo de notícias no Brasil

41% dos entrevistados pelo Instituto Reuters no País disseram evitar se manter informados; em 2022, eram 54%

(Foto: iStock)
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Da invenção da primeira máquina de impressão em tipos móveis até a popularização das redes sociais, o alcance da atividade jornalística sempre esteve ligado ao desejo – ora maior, ora menor – por informação. Entre os diversos desafios do ofício jornalístico ao longo do tempo, poucos podem ser comparados à instantaneidade permanente criada pelas plataformas digitais. É o que aponta a nova edição do Digital News Reports, publicado pelo Reuters Institute nesta quarta-feira 14.

A pesquisa, realizada em 46 países – entre eles, o Brasil –, mostrou uma tendência já verificada nos últimos anos: o jornalismo, como um todo, enfrenta não apenas dificuldades de financiamento, mas se vê diante de um público cada vez mais seletivo a respeito de como e sobre o quê deseja se informar – especialmente por confiar cada vez menos em grupos tradicionais de mídia.

Os números do Brasil

O caso brasileiro é emblemático: 41% dos entrevistados do país disseram que evitam se manter informados. Embora o número seja significativo, ele já foi maior. No ano passado, quando em meio à disputa entre Lula e Bolsonaro, 54% dos entrevistados diziam evitar as notícias.

A taxa atual do Brasil é levemente superior à média mundial, de 36%. No contexto global, os países nos quais as pessoas menos evitam se informar, segundo o estudo, são Japão (11%), Taiwan (17%), Dinamarca (19%), Coreia do Sul (20%) e Finlândia (21%) – que também surgem topo dos rankings globais da educação. 

No plano global, a pesquisa indicou que 48% das pessoas se disseram muito ou extremamente interessadas em notícias. O índice, porém, era de 63% em 2017. O estudo mostrou, também, que, cada vez menos, as pessoas no mundo acessam notícias diretamente por sites e aplicativos, preferindo redes sociais como Instagram e TikTok.

A questão é que o relatório também apontou que nessas mídias, no geral, o público costuma prestar mais atenção a celebridades, influenciadores e personalidades das redes sociais, em comparação a jornalistas profissionais. 

A pesquisa buscou saber, também, se as pessoas costumam confiar nas notícias a que têm acesso. No Brasil, houve uma queda no índice de confiança: de 48% para 43% nesta. Nesta seara, o ranking é liderado pela Finlândia, onde 69% dos entrevistados disseram confiar na maior parte das notícias, a maior parte do tempo. Os Estados Unidos ocupam a 36ª posição, com índice de confiança de 32%.

Tanto o percentual da população brasileira que evita se manter informada, como o índice sobre baixa confiança nas notícias dizem respeito, inevitavelmente, a um reflexo captado pela pesquisa: dois terços dos entrevistados no país afirmaram que ouvem ou vêem, com frequência, pessoas criticando a imprensa. Postura, aliás, reiteradamente incentivada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Focando nas pessoas que buscam se manter informadas, o estudo procurou saber por onde elas buscam informações. No Brasil, 79% dos entrevistados disseram que se informam online (incluindo mídias digitais). O consumo de notícias via mídias sociais, entretanto, caiu em relação a 2022: de 64% para 47%. O mesmo vale para a televisão, que saiu de 55% para 51%. Em relação ao ambiente online, 20% dos entrevistados brasileiros disseram que pagam assinaturas.

Os números sobre os diferentes meios pelos quais as pessoas no Brasil se informam confirmam um cenário que não é novo e diz respeito ao meio impresso. Jornais e revistas, hoje, são a escolha prioritária de apenas 12% dos entrevistados – percentual que se manteve estável nos últimos dois anos. Há exatos dez anos, 50% diziam que se informavam pelo meio impresso.

O poder do grupo Globo

O estudo apresentou dados qualitativos sobre os diferentes grupos de mídia que atuam no Brasil. Em três níveis – televisão, online e impresso -, o grupo Globo lidera o mercado. No caso do mercado offline, 41% dos entrevistados disseram que assistem semanalmente à TV Globo. Nesse mesmo espectro, 23% disseram que leem, semanalmente, a versão impressa do jornal O Globo,

No mercado online, 36% disseram que assistem semanalmente ao canal Globo News (incluindo o portal G1), percentual que é seguido de perto (34%) pelos que disseram assistir semanalmente ao UOL. O jornal O Globo (online) ocupa a quarta posição do ranking, com 24% de citações.

Críticas de Prêmio Nobel e o poder do algoritmo

No plano global, o estudo identificou que, apesar da queda relativa das mídias sociais, a maioria das pessoas jovens (menos de 35 anos) afirma que utilizam as redes, os mecanismos de busca ou os agregadores de notícias como os principais instrumentos para se manterem informadas no universo online. 

Isso impacta, diretamente, na diminuição do acesso direto aos sites de notícias. Além disso, à medida que as três ferramentas acima citadas se impõem às novas gerações, uma questão salta aos olhos: qual o papel dos algoritmos no processo atual de informação?

O estudo identificou, por exemplo, que existe um “ceticismo generalizado” das pessoas sobre se as notícias as quais têm acesso lhes foi apresentadas por um algoritmo ou por jornalistas e editores. Ao comentar o tema para o Reuters Institute, Richard Fletcher, diretor da pesquisa, expôs que a questão é enxergada com preocupação. 

No instante em que os algoritmos são capazes de direcionar a alguém um conteúdo “super-personalizado”, o que se tem observado no mundo é o crescimento do que é conhecido como bolhas de informação. Cada vez mais, os usuários – ou, tradicionalmente, leitores/espectadores – perdem a possibilidade de se verem expostos a conteúdos com os quais não, necessariamente, concordam. E de ampliarem os seus horizontes, através do debate feito pela imprensa, para além das ideias e conceitos nos quais já acreditam. 

O que pode parecer um salto nos níveis de informação, na verdade, pode gerar consequências no debate público. Um dos papéis fundamentais e tradicionais do jornalismo profissional é a mediação da pluralidade de visões, peça-chave na contribuição para debate público. Quando a questão passa a ser centrada, cada vez mais, em conteúdos direcionados, os públicos se expõem aos riscos de falarem entre si mesmos. Com consequências inevitáveis à própria noção de debate, com tese a antítese.

Apesar dos dados e da repercussão da pesquisa, a jornalista Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2021, teceu críticas ao estudo. Segundo ela, a metodologia aplicada na pesquisa pode colocar em risco jornalistas e veículos independentes, “principalmente no Sul Global”. 

Segundo a jornalista, que renunciou no ano passado ao conselho consultivo do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), a pesquisa apresentada hoje possui financiamento do Google. Com isso, segundo ela, não se levou em consideração o impacto de campanhas de desinformação, por exemplo. Para Ressa, o estudo não foi capaz de medir o poder que as grandes plataformas de tecnologia têm sobre a distribuição de notícias.

O diretor do RISJ, Rasmus Kleis Nielsen, por outro lado, disse que o relatório tem uma metodologia robusta. Segundo ele, a pesquisa é capaz de apontar que as pessoas que dependem das mídias sociais para ter acesso a notícias têm, por elas mesmas, maior probabilidade de se preocuparem quando encontram notícias falsas.

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