Negros, latinos, gays: de Nova York ao Congresso para desafiar o status quo

Novas figuras estão energizadas pelas manifestações que reuniram multidões contra o racismo nos Estados Unidos

Mondaire Jones, candidato democrata. Foto: TIMOTHY A. CLARY/AFP

Mondaire Jones, candidato democrata. Foto: TIMOTHY A. CLARY/AFP

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Eles são jovens, negros, latinos, homossexuais. Energizados pelas manifestações que reuniram multidões contra o racismo nos Estados Unidos, um grupo de políticos nova-iorquinos de esquerda, com fortes chances de chegar ao Congresso federal em novembro, espera mudar o status quo.

Se ganharem as eleições gerais em 3 de novembro, que ao que tudo indica o farão por terem vencido as primárias em seus respectivos distritos de maioria democrata, Mondaire Jones, de 33 anos, e o afro-latino Ritchie Torres, de 32, se tornarão os primeiros representantes negros e abertamente homossexuais do Congresso.

“Não sou candidato ao Congresso para fazer história como primeiro representante negro abertamente gay. Mas o meu poder de representatividade não fica de fora. Quando cresci, nunca imaginei que alguém como eu pudesse ser candidato ao Congresso, e muito menos ganhar, já que isso nunca aconteceu antes”, disse Mondaire Jones em entrevista à AFP.

Une-se a eles nessa lista Jamaal Bowman, de 44 anos, um diretor escolar negro e heterossexual, e que como Jones e Torres acaba de vencer as primárias em seu distrito após vencer Eliot Engel, de 73 anos, que acumulava 16 mandatos em Washington D.C., e contava com o apoio da elite democrata, como Hillary Clinton e a líder da Câmara, Nancy Pelosi.

“A nova esquerda”

Jones, Bowman e Torres – que é vereador há sete anos e representa o sul do Bronx, um dos distritos mais pobres do país – fazem parte de uma onda de políticos nova-iorquinos bem sucedidos nas pesquisas contra os candidatos veteranos em atuação, em sua maioria brancas.

Eles seguem os passos de Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), representante de ascendência latina de 30 anos, que em 2018 surpreendeu a todos ao assumir a cadeira de um democrata que estava na Câmara há 20 anos.

“Esta é uma vitória para a nova esquerda, para a ala socialmente mais abertamente socialista do Partido Democrata que até recentemente não existia de forma real, e que agora é uma força maior”, disse à AFP David Barker, especialista em Política Americana na American University.

Sob a ala dos ex-democratas Bernie Sanders e Elizabeth Warren, esses jovens políticos querem agitar seu partido e empurrá-lo mais à esquerda.

Enquanto isso, o presidente Donald Trump garante que o Partido Democrata se tornou controlado por uma “esquerda radical”, e promete que os republicanos derrotarão em novembro “os marxistas, os anarquistas, os agitadores”.

A pandemia do novo coronavírus, que evidenciou as disparidades raciais no sistema de saúde, causando mais casos e mortes entre negros e latinos, além dos protestos em massa após a morte de George Floyd, fortaleceram suas candidaturas, também apoiadas por muitos eleitores brancos.

Jones, por exemplo, venceu em um distrito majoritariamente branco, onde apenas 10% da população é negra.

 

Um Congresso polarizado

“Estamos vendo uma mudança no Partido Democrata. Novas e diversas vozes, que trazem um senso de urgência sobre a crise climática, a saúde, a crise imobiliária”, defende Jones, que, como Torres e Bowman, é um defensor de um sistema de saúde público para todos, em um momento em que mais de 40 milhões de americanos perderam seus empregos como resultado da pandemia.

Esse advogado cresceu nos subúrbios de Nova York em meio à pobreza, junto aos seus avós, que eram auxiliares de limpeza, e apesar das suas origens conseguiu estudar em Stanford e Harvard, e depois trabalhou no governo de Barack Obama.

Ele considera que muitos democratas em Washington D.C. não lutam o suficiente contra o atual governo e “devem sair e ser substituídos por pessoas que entendem o que está em jogo, especialmente sob o governo de Trump, onde tudo parece ser uma ameaça existencial”.

Além de lutar pela justiça racial, Jones e Torres prometem defender causas essenciais para a comunidade LGBTQ+ em Washington, como a falta de acesso à moradia.

“Suas vozes farão uma tremenda diferença no Congresso”, ressalta Elliot Imse, do Victory Institut, que defende a incorporação de mais pessoas LGBTQ em cargos políticos nos Estados Unidos, à AFP.

A representação democrata no Congresso “tornou-se muito mais diversificada em gênero, raça e religião”, especialmente nos últimos quatro anos, segundo Barker. “Mas o oposto acontece no lado republicano, que é cada vez mais branco, mais masculino… Mais cristão”, acrescenta.

Atualmente, apenas dois senadores americanos de um total de 100, e sete representantes de um total de 435, se declaram membros da comunidade LGBTQ+.

Apenas 0,17% de todos os cargos políticos no país são ocupados por pessoas abertamente LGBTQ+, embora a comunidade represente 4,5% da população, segundo o Victory Institute.

“Certamente temos um longo caminho pela frente”, finaliza Imse.

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