Justiça

O exemplo de Cuba durante a pandemia

Resistente a um embargo econômico histórico, ilha no Caribe vive reflexo positivo de fortes investimentos sociais em saúde

Havana, em Cuba - Foto: YAMIL LAGE/AFP
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Brian Latell é reconhecido nos EUA como um dos mais prestigiados estudiosos de Cuba, tendo ocupado entre 1990 e 1994 cargos centrais na inteligência estadunidense relacionada à América Latina, período em que foi considerado um dos principais analistas sobre a região.

Em 1959 o ditador Fulgêncio Batista sucumbiu diante dos guerrilheiros de Sierra Maestra liderados por Fidel Castro. No livro “Cuba sem Fidel: o regime cubano e seu próximo líder”, Latell escreve que “durante a maior parte do decênio de 1960, e novamente durante o de 1980, o temor de que regimes revolucionários semelhantes fossem galgados ao poder com a ajuda de Cuba mostrou-se uma preocupação central dos responsáveis por decidir os rumos dos Estados Unidos”.

E quais eram os “rumos dos Estados Unidos”? A Louisiana Planter, publicação dos industriais do açúcar, escreveu na virada para o século XX que “pouco a pouco, toda a ilha de Cuba vai passando para as mãos de cidadãos norte-americanos, e esse é o meio mais simples e seguro de conseguir sua anexação aos EUA”. Como se sabe, o crime organizado que ocupou a ilha caribenha até 1959 aderiu de corpo e alma à campanha de Kennedy, que prometera expulsar Fidel Castro e devolvê-la aos mafiosos que antes da revolução faziam dela uma mistura de prostíbulo e cassino.

De Eisenhower a Trump, doze mandatários norte-americanos não conseguiram derrubar o socialismo cubano. Em 1965, o presidente Lyndon Johnson advertiu que não toleraria outra Cuba no Caribe. Tropas dos EUA foram enviadas à República Dominicana para, nas palavras de Eduardo Galeano, salvar a democracia ameaçada pelo povo. A sucessão de golpes ocorridos na América Latina nas décadas de 60 e 70 mostrou que Johnson não brincara. Não só Cuba, mas seu exemplo deveria ter o mesmo destino que as democracias latino-americanas, uma a uma derrubadas por franquias estadunidenses.

O exemplo de Cuba – um pequeno país de 11 milhões de habitantes, vitimado até hoje por um embargo criminoso e situado a pouco mais de 2000 km de seu maior algoz – prossegue sendo um perigo. Diante do êxito das políticas de contenção do novo coronavírus, com registro de apenas 2.300 contaminações e 86 mortes, acaba de retomar seu turismo. Negacionistas como Trump e Bolsonaro não veem horizonte semelhante em seus países.

O sucesso no controle da covid-19 ajuda a explicar por que o fantasma da revolução assombra liberais, suas facções bolso-olavistas e todo esse pessoal que ama arrotar democracia mas, quando se propõe a falar sobre Cuba, cai na vala comum das caricaturas infantis, fazendo pouco caso do genocida embargo econômico que desde a década de 60 os EUA impõem ao país caribenho e que ano após ano é condenado pela Organização das Nações Unidas.

Foi justamente no mais dramático período da história recente de Cuba que pisaram no acelerador para matá-la de inanição. Aproveitando-se do fim da URSS, os norte-americanos aprovaram em 1992 a Lei Torricelli, intensificando o bloqueio ao determinar, dentre outras medidas, a redução de qualquer ajuda econômica a países que importassem açúcar de Cuba, sua principal exportação. Ontem e hoje, os magos do livre-mercado jogam seus princípios no lixo e fecham os olhos para proibições como a de que qualquer empresa com capital norte-americano, mesmo que minoritário, mantivesse relações comerciais com Cuba.

Ao apertarem o nó, porém, não perceberam que estariam presenteando seus delírios macartistas com mais uma assombração: mesmo com abruptas quedas de receita, os investimentos cubanos em saúde não só se mantiveram, como aumentaram. Na década de 1990, a percentagem de seu PIB em serviços sociais era o dobro do que se gastava no restante da América Latina.

Os programas de ajuste aplicados durante o chamado “Período Especial” – muito bem retratado no documentário “Cuba e o cameraman”, da Netflix – não impediram que Cuba incrementasse de forma contínua os recursos destinados a servir à população. Segurança pública e educação foram áreas que também se robusteceram, segundo detalhado relato da historiadora Aviva Chomsky na obra “A história da Revolução Cubana”.

Uma experiência desse tipo deve soar preocupante para quem defende a emenda do teto de gastos. Como continuar sustentando a falta de alternativas à tecnocracia austericida? Devaneios liberais custam para entender que o fato das coisas estarem voltando ao normal em Cuba resulta de medidas categoricamente contrárias à profissão de fé do livre mercado, que propagandeia a hecatombe da austeridade e da morte como trajeto inevitável.

Em entrevista a Fernando Morais, Carlos Rafael Rodriguez, responsável durante anos pelas relações internacionais cubanas, disse que a provocação dos cubanos aos EUA estava no desejo de serem livres, independentes e terem o direito a recuperar suas riquezas naturais. A consigna “¡Patria o muerte!” se encontra gravada ainda hoje nas paredes da Tribuna Antiimperialista José Martí. Da embaixada estadunidense, situada logo à frente, tem-se uma vista privilegiada do lema dos guerrilheiros de Sierra Maestra, o mesmo que se tornou palavra de ordem de toda uma nação.

Em tempos de pandemia, o medo de Cuba permanece tendo todo o sentido.

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