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Mobilizações contra a extrema-direita ganham força na Alemanha

De Colônia a Leipzig, passando por Nuremberg e Berlim, milhares de cidadãos foram às ruas na última semana

Protesto contra a extrema-direita e o partido AfD, em Berlim, na Alemanha, em 17 de janeiro de 2024. Foto: Chrstian Mang/AFP
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As manifestações contra a extrema-direita estão se multiplicando na Alemanha, após a divulgação de uma reunião na qual se discutiu um projeto de expulsão em massa de imigrantes e “cidadãos não assimilados” da qual participaram neonazistas, empresários e membros do partido AfD.

De Colônia a Leipzig, passando por Nuremberg e Berlim, milhares de cidadãos foram às ruas na última semana. Estão previstas outras 100 manifestações no país neste fim de semana.

“Não podemos voltar a cometer o mesmo erro, é terrível que não tenhamos aprendido nada”, declarou Amelie Schmerling, uma aposentada de 76 anos, em Hamburgo.

De acordo com a polícia, cerca de 30 mil pessoas se manifestaram nesta sexta-feira 19 nesta cidade no norte do país. Os organizadores dos atos afirmam que o número foi de 60 mil.

O movimento foi desencadeado após a organização de jornalismo investigativo Correctiv informar, em 10 de janeiro, sobre uma reunião secreta em Potsdam, perto de Berlim, na qual se discutiu um projeto de expulsão em massa de imigrantes, solicitantes de asilo e cidadãos alemães “não assimilados”.

Entre os participantes havia membros do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). O evento também contou com a presença de uma figura de destaque do movimento identitário radical, o austríaco Martin Sellner.

A história abalou o país, que parecia ter se acostumado com a ascensão da AfD, criada em 2013 e que entrou no Bundestag, a câmara baixa do Parlamento, em 2017, com um discurso hostil à imigração.

Uma “maioria silenciosa”

A “reunião escandalosa” despertou “o medo das deportações de milhões de cidadãos ou não-cidadãos, um medo que é parte da herança crítica do nacional-socialismo”, explica Hajo Funke, cientista político especializado na extrema-direita, à AFP.

Os primeiros protestos ocorridos após a revelação do encontro foram significativos. Cerca de 20 mil pessoas em Berlim e 10 mil em Potsdam.

O chanceler alemão, o social-democrata Olaf Scholz, e a ministra das Relações Exteriores do país, Annalena Baerbock, também compareceram às manifestações.

Tanto participantes quanto as organizações que convocaram os atos ficaram surpresos com o grande afluxo.

A “maioria silenciosa deve acordar e se posicionar de forma clara contra o extremismo na Alemanha”, afirmou Thomas Haldenwang, presidente dos serviços de Inteligência do país.

Scholz, por sua vez, pediu em comunicado na sexta-feira que “todos” se posicionassem “a favor da coesão, da tolerância” e da “nossa Alemanha democrática”.

Nos últimos meses, a AfD se beneficiou do medo da população diante das novas chegadas de migrantes. Também tem sido favorecida pelas constantes disputas entre os três partidos da coligação governamental, em um contexto de inflação elevada e recessão econômica.

As pesquisas revelam que a AfD possui uma intenção de voto perto dos 22% a nível nacional, atrás dos conservadores, que lideram. Em algumas regiões, o partido de extrema-direita está em primeiro lugar.

Proibir a AfD?

Desde sua chegada ao Parlamento, a AfD tem feito parte do cenário político, apesar de nenhum partido concordar em se aliar à sigla.

Desde a reunião de Potsdam, “esta normalização terminou”, afirma Funke, embora o partido tenha garantido que não apoiava o projeto de “reemigração” apresentado por Sellner.

Os pedidos de proibição da sigla aumentaram no país, incluindo o partido de Scholz. Uma petição para suspender os direitos constitucionais de Björn Höcke, o seu líder no estado de Turíngia, reuniu mais de um milhão de assinaturas. Mas é improvável que haja sucesso.

Nesta região e na Saxônia-Anhalt, ambas no leste, o partido foi colocado sob vigilância reforçada. Os serviços de inteligência consideram que o grupo defende posições inconstitucionais.

A organização juvenil da AfD em Brandemburgo, nos arredores de Berlim, também está sob vigilância.

“O Estado tem o dever de estudar uma eventual proibição da AfD”, declarou o ex-presidente da câmara baixa Wolfgang Thierse, um social-democrata.

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