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Derrota eleitoral obriga governo argentino a mudar o rumo para os próximos dois anos

O presidente Alberto Fernández precisará reconstruir a sua autoridade para garantir a governabilidade

O presidente Alberto Fernández. Foto: JUAN MABROMATA/AFP
O presidente Alberto Fernández. Foto: JUAN MABROMATA/AFP
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O presidente Alberto Fernández sai das eleições legislativas realizadas neste domingo 14 na Argentina com menos capital político para enfrentar os próximos dois anos de mandato. Em todo o país, a oposição ficou nove pontos à frente dos candidatos governistas. Porém, na província de Buenos Aires, principal colégio eleitoral do país, com 38% dos votantes, a derrota do governo foi bem menor do que as expectativas de opositores.

De acordo com o resultado das eleições primárias em 12 de setembro, o governo perderia por uma diferença de 4,3%. No entanto, a conta ficou por apenas 1,3% a favor da oposição. O governo conseguiu diminuir a queda em três pontos. Mas se as eleições legislativas na metade do mandato funcionam, na prática, como um plebiscito ao governo, Fernández acaba de ser reprovado.

Os resultados permitem afastar o temido cenário de uma radicalização no Congresso e abrem espaço ao pragmatismo como saída para contornar os graves problemas da economia argentina. O presidente em disputa de poder com a sua vice, Cristina Kirchner, precisará reconstruir a sua autoridade para garantir a governabilidade.

“A oposição teve uma vitória contundente no conjunto do país, ganhando pela primeira vez em algumas províncias onde o peronismo reinava. O novo equilíbrio de poderes que a oposição conseguiu abre uma nova etapa política na Argentina. Nesse Congresso equilibrado, abrem-se duas alternativas: ou o governo começa um diálogo e chega a um consenso ou o país enfrentará uma paralisia”, indica à RFI o analista político Sergio Berensztein.

“Funcionou uma fenomenal máquina clientelista do peronismo. A forma como distribuíram bens, dinheiro e favores em troca de votos foi obscena”, critica o analista político Marcos Novaro.

Nos últimos dois meses, candidatos, prefeitos e militantes alinhados com o governo distribuíram eletrodomésticos, alimentos, planos sociais e até dinheiro em troca de votos. Sem caixa, o dinheiro veio da emissão monetária sem respaldo, acelerando a inflação que, anualizada, já chega a 52,1%, com tendência de aumento.

Cenário inédito em 38 anos

Na Câmara de Deputados, os governistas terão 118 deputados, dois a menos do que na encerrada legislatura, enquanto a oposição terá 116 parlamentares, numa correlação de forças equilibrada. Nenhum dos dois campos adversários terá os 129 votos necessários para garantir a maioria do plenário.

No Senado, o governo sofreu a maior derrota. Pela primeira vez em 38 anos, desde que o país recuperou a democracia em 1983, o peronismo não terá a maioria na Casa. O governo perdeu seis senadores e terá agora 35 representantes, dois a menos do que precisava para manter vantagem.

Houve ainda outra novidade: a extrema direita inaugura a sua presença no Congresso argentino com quatro deputados, enquanto a extrema esquerda duplica a sua presença, passando também a quatro cadeiras.

Pragmatismo forçado

Antes das eleições, o governo tinha uma maioria no Senado que aprovava qualquer medida ditada pela vice-presidente, Cristina Kirchner, também presidente do Senado. Nestas eleições, Fernández tinha como objetivo conquistar a maioria na Câmara de Deputados. Isso levou a oposição a advertir que “a Argentina estava a sete deputados de se tornar a Venezuela”, em alusão a uma hipotética radicalização.

“O resultado eleitoral obriga o governo a corrigir o rumo da economia. O governo tem de mostrar capacidade para implementar uma política pública que responda aos problemas reais do país. Não está claro que um presidente derrotado conte com esses recursos. A pergunta é: como essa autoridade será reconstruída? Está em jogo a governabilidade”, aponta Berensztein, que vê o pragmatismo como única saída para o governo enfrentar os próximos dois anos de mandato.

“Para encarar a agenda econômica, o governo precisa dar um giro na direção do pragmatismo, algo que até agora não foi visto. O ponto central da questão econômica é o acordo com o FMI. E, para isso, é necessária uma mudança do rumo político e econômico”, afirma.

Alberto Fernández vê vitória nas urnas

Mesmo derrotado, o presidente cantou vitória. Fernández convocou a militância, os sindicatos e os movimentos sociais, financiados pelo governo, “a celebrarem o triunfo” na próxima quarta-feira 17 na Praça de Maio, em Buenos Aires.

“O governo procura demonstrar uma força que não tem. Quer exibir o apoio da militância e dos sindicatos que respondem ao peronismo. É um sinal para a vice-presidente, Cristina Kirchner, num momento de fraqueza política”, interpreta o analista Rosendo Fraga.

Dilapidação contínua

Ao longo dos dois últimos anos, Fernández dilapidou o seu capital político. Em abril do ano passado, tinha 70% de popularidade; hoje, não passa de 20%. À medida que permitia a intervenção de Cristina Kirchner no seu governo, o ritmo de desgaste aumentava. Atualmente, a tensão política entre os dois ameaça a governabilidade. Muitos se perguntam quem vai mandar no país pelos próximos dois anos.

Cristina Kirchner pediu mudanças após o fracasso nas primárias legislativas que mergulharam a coalizão governista em uma profunda crise (Foto: JUAN MABROMATA / AFP)

“Na minha opinião, ela não tem mais força para impor nada. Talvez possa vetar decisões do presidente, mas não tem mais chances de uma radicalização. Sai derrotada destas eleições”, acredita Berensztein.

“Eu não subestimaria Cristina Kirchner como líder política. Essa crise interna está latente. O peronismo todo está enfraquecido. Caso contrário, o presidente não procuraria o diálogo com a oposição. O peronismo só procura o diálogo quando perde as eleições”, pondera Rosendo Fraga.

Plano econômico com o FMI ao Congresso

Assim que as urnas revelaram uma tendência irreversível, Fernández entrou em rede nacional de TV para convocar a oposição a avançar com uma agenda em comum.

“O mais breve possível, vou-me dirigir aos representantes da vontade popular e às forças políticas que representam para uma agenda o mais compartilhada possível. Uma oposição responsável e aberta ao diálogo é uma oposição patriótica”, apontou, anunciando que vai envolver a oposição no acordo com o FMI.

“Quero anunciar que, na primeira semana de dezembro, enviaremos ao Congresso um projeto de lei com o ‘Programa econômico plurianual para o desenvolvimento sustentável’ com os entendimentos que o nosso governo conseguiu nas negociações com o FMI”, antecipou Fernández.

Enquanto convidava a oposição ao diálogo, o presidente argentino culpava a mesma oposição pela situação econômica. Enquanto anunciava que apresentaria um plano ao FMI, avisava que não aceitaria um ajuste fiscal.

“Parece oportunismo. Essa não parece a melhor maneira para um convite”, criticou o ex-presidente Mauricio Macri.

“Alberto Fernández é consciente da sua perda de credibilidade. Esse convite é uma forma de socializar com a oposição os custos de uma correção fiscal e cambial”, observa Sergio Berensztein.

Março é o limite

Os desequilíbrios na economia argentina forçam o governo a um ajuste fiscal e a uma desvalorização da moeda.

“Ou esse ajuste virá de forma administrada ou virá à força pelo mercado. Se o governo redobrar a aposta e insistir nas restrições cambiais, nos controles financeiros e no congelamento de preços, a economia entrará em colapso. Sem credibilidade, como fará o governo para aguentar com esta política por mais dois anos?”, adverte o economista Roberto Cachanosky.

O horizonte é março, quando o país não terá mais dinheiro para pagar os vencimentos com o FMI.

“A Argentina tem uma situação urgente com o FMI. Estamos a quatro meses de um ‘default’. Sem acordo com o FMI a tempo, será mais inflação, mais volatilidade e risco de que uma corrida cambial se torne uma corrida bancária. É uma situação complicada e tensa que, se não for corrigida pelo governo, será pelo mercado, mas de forma drástica”, conclui o analista Sergio Berensztein.

 

RFI

RFI
Rádio pública francesa que produz conteúdo em 18 línguas, inclusive português. Fundada em 1931, em Paris.

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