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Debate interditado

Acusar qualquer crítico do governo de Israel de antissemitismo é uma distorção dos fatos

Nuances. Os verdadeiros antissemitas não estão nos protestos que pedem o fim do massacre em Gaza – Imagem: Indrek Tolilo
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William Zuckerman nasceu em 1885 na Zona de Assentamento, porção do Império Russo onde grande parte dos judeus foi confinada, um lugar de pobreza e perseguição. Sua família conseguiu escapar e emigrou para os Estados Unidos em 1900. Durante a Primeira Guerra Mundial, Zuckerman voltou à Europa para trabalhar numa instituição beneficente que ajudava soldados norte-americanos judeus. Mais tarde, ele se estabeleceu em Londres, onde abriu a sucursal europeia do Der ­Morgen Zshurnal, influente jornal em iídiche. Em 1948, de volta aos EUA, fundou o Jewish Newsletter, no momento em que nascia o novo Estado de Israel. As colunas de Zuckerman foram distribuídas por dezenas de jornais judaicos, e ele se tornou o correspondente em Nova York do British Jewish Chronicle.

Zuckerman poderia ter sido adotado pelo establishment judaico como figura pública modelo, mas havia um problema. Ele criticava as políticas do recém-criado Estado judeu, especialmente em relação aos refugiados palestinos, centenas de milhares dos quais fugiram ou foram expulsos e eram impedidos de regressar. “A terra agora chamada ­Israel”, escreveu Zuckerman, “pertence aos refugiados árabes tanto quanto a qualquer israelense.”

A defesa dos refugiados palestinos pelo jornalista alarmou os diplomatas israelenses, que organizaram com sucesso uma campanha nos bastidores para impedir a publicação de seu trabalho na imprensa judaica. “Ter induzido o Jewish Chronicle a dispensar os serviços de ­Zuckerman é ter cumprido uma verdadeira mitsvá”, regozijou-se uma autoridade.

A história de Zuckerman e seu “cancelamento” é uma das muitas contadas por Geoffrey Levin em seu novo livro, Our Palestine Question (­Nossa ­Questão ­Palestina), sobre a dissidência judaica nos EUA nas décadas após a fundação de Israel. É um dos vários relatos a ser publicados neste ano sobre a oposição dos judeus norte-americanos ao sionismo e o apoio à causa palestina.

Esses estudos fornecem um pano de fundo essencial para um dos debates mais intensos atualmente nas comunidades judaicas: como responder ao ataque assassino do Hamas em 7 de outubro de 2023 e ao subsequente revide de Israel a Gaza. Para muitos judeus, a ameaça existencial representada pelo Hamas dá a Israel o direito de tomar quaisquer medidas necessárias para eliminar a organização. Para outros, sejam quais forem os horrores do ataque do Hamas, a destruição de Gaza, a morte de mais de 25 mil civis e o deslocamento de quase toda a população são injustos e vão contra a corrente das tradições éticas judaicas. Essa cisão provocou debates turbulentos sobre o que é ser judeu e o significado do antissemitismo.

Nos EUA, ambos os temas são visíveis nas consequências da queda de Claudine Gay na Universidade Harvard. Gay, como presidente de Harvard, teve uma atuação calamitosa numa comissão do Congresso sobre antissemitismo, em dezembro. Em seguida foi forçada a renunciar, depois que críticos descobriram plágio em seu trabalho acadêmico. Na se­quência da demissão de Gay e das críticas a ­Harvard por ter falhado com os estudantes judeus, foi criada uma força-tarefa sobre o antissemitismo, a ser presidida por ­Derek Penslar, diretor do ­Centro de Estudos Judaicos da universidade e um dos mais renomados historiadores do judaísmo.

Para muitos, Penslar é, assim como Zuckerman foi para a geração anterior, o tipo errado de judeu, demasiado crítico a Israel e insuficientemente hostil ao antissionismo. A congressista republicana Elise Stefanik, da comissão que interrogou Gay, denunciou “suas desprezíveis opiniões antissemitas”. Jonathan Greenblatt, da Liga Antidifamação, acusou Penslar de “difamar o Estado judeu”. Bill Ackman, gestor de fundos de hedge que liderou a campanha inicial contra Gay, alertou que Harvard continua “no caminho das trevas”.

Em 2021, um ensaio na revista judaica Tablet rotulou os judeus excessivamente críticos de Israel ou do sionismo como “não judeus”. Três anos depois, essa descrição parece ter encontrado maior ressonância. Talvez em nenhum país o ostracismo oficial dos “não judeus” esteja mais arraigado do que na Alemanha. “Ser um judeu de esquerda na Alemanha hoje é viver num estado de dissonância cognitiva permanente”, diz Susan Neiman, filósofa norte-americana judia e diretora do Fórum Einstein em Potsdam durante o último quarto de século. “Os políticos e os meios de comunicação alemães falam incessantemente sobre proteger os judeus do antissemitismo”, mas muitos “que criticam o governo israelense e a guerra em Gaza foram cancelados e certamente atacados. Sou cidadã israelense e fui acusada pela mídia de ser uma apoiadora do Hamas, e até mesmo nazista. Preciso acrescentar que não sou nenhum dos dois?”

A história do sofrimento judaico impõe a necessidade moral de combater a opressão em todos os cantos

A Alemanha proibiu muitas críticas a Israel, tais como descrever como ­apartheid o tratamento que dá aos palestinos, e muitas expressões de solidariedade com a causa palestina. Os principais alvos têm sido os muçulmanos, mas os apoiadores judeus dos direitos palestinos também foram censurados e presos. Segundo a pesquisadora Emily Dische-Becker, quase um terço dos cancelados na Alemanha sob acusação de antissemitismo era de judeus. Como disse acidamente o arquiteto e acadêmico israelense Eyal Weizman, há certa ironia em “receber lições de como ser propriamente judeu dos filhos e netos dos perpetradores que assassinaram nossas famílias e que agora se atrevem a nos dizer que somos antissemitas”.

Para muitos apoiadores de Israel, a história do sofrimento judaico, que culminou no Holocausto, tornou necessária a defesa da nação e a manutenção de sua segurança a qualquer custo. Para os dissidentes, exatamente essa história cria a necessidade moral de defender os direitos dos palestinos.

O que orientou os críticos judeus, particularmente das políticas israelenses em relação aos refugiados palestinos no fim dos anos 1940 e 1950, foi, como demonstra Levin, seu apego às tradições judaicas que rejeitam a discriminação ou a barbárie contra qualquer grupo. “A opressão tem de ser combatida em todo lugar”, disse Don Peretz, pesquisador do Comitê Judaico Americano e defensor dos refugiados palestinos que, tal como Zuckerman, foi alvo de autoridades israelenses. É também o que orienta os críticos de hoje, como Neiman. Os alemães “esqueceram a profundidade da tradição universalista no judaísmo, que remonta à Bíblia”, ela sugere.

O que torna tudo preocupante, observa Neiman, é o crescimento do antissemitismo na Alemanha e em outros lugares. Em vez de policiar intelectuais e ativistas judeus, “insistir na lealdade incondicional a Israel” e “minimizar o sofrimento em ­Gaza”, é necessário, segundo Neiman, apoiar os indivíduos e as organizações que constroem formas de solidariedade capazes de desafiar o antissemitismo e o preconceito contra muçulmanos, promovendo a justiça na Palestina e em Israel. •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Publicado na edição n° 1298 de CartaCapital, em 21 de fevereiro de 2024.

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