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Análise: Arce, o representante da bonança econômica na Bolívia

Candidato foi ministro das Finanças quando País reduziu a pobreza de 60% para 37%

FOTO: RONALDO SCHEMIDT / AFP
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O economista de esquerda Luis Arce, que surpreendeu ao conquistar a presidência da Bolívia no primeiro turno no domingo, de acordo com as projeções de institutos privados, se beneficiou do capital político construído durante décadas pelo ex-presidente Evo Morales.

Sua inesperada vitória no primeiro turno, não antecipada pelas pesquisas, abre caminho para Morales voltar à Bolívia do exílio na Argentina e favorecerá à legitimação política do líder do Movimento Ao Socialismo (MAS) 11 meses após sua renúncia em meio à convulsão social.

“O MAS ganhou as eleições amplamente, incluindo a Câmara de Senadores e Deputados. A Bolívia tem Arce como presidente”, disse Morales em Buenos Aires.

“Lucho (apelido do candidato do MAS) será nosso presidente, ele vai devolver à nossa pátria o caminho do crescimento econômico”, acrescentou.

Arce venceu as eleições erguendo a bandeira do boom econômico do governo Morales (2006-2019), quando era Ministro das Finanças.

Economista de 57 anos, estudou na Universidad Mayor de San Andrés, em La Paz, e fez mestrado na British University of Warwick. Trabalhou 18 anos no Banco Central, onde ocupou diversos cargos, e foi ministro da Economia e Finanças durante a maior parte do mandato de Morales, com um hiato de 18 meses. Tem um perfil mais de tecnocrata do que político.

No governo Morales, a Bolívia aumentou seu Produto Interno Bruto (PIB) de 9,5 bilhões de dólares anuais para 40,8 bilhões de dólares e reduziu a pobreza de 60% para 37%, de acordo com dados oficiais.

A bonança possibilitou o pagamento de auxílios a milhares de gestantes, estudantes e idosos, e investimentos milionários para tentar industrializar a exploração do lítio e do gás natural.

“Tomamos as decisões apropriadas que levaram nosso país a liderar vários indicadores econômicos e sociais na região”, disse Arce após ser designado candidato do MAS.

Em campanha durante o governo de transição de Jeanine Áñez, da direita, Arce afirmou que “a economia não é um jogo”, apresentando-se como um conhecedor da economia boliviana.

Pai de três filhos, Arce nasceu em 28 de setembro de 1963 em La Paz em uma família de classe média. Seus pais eram professores.

Sua origem e formação são diferentes das de Morales, que nasceu em uma família de modestos camponeses e pastores de lhamas, trabalhou durante toda a infância, e por isso foi à escola por um curto período e tem como língua materna o aimará.

No esporte também são diferentes, já que o ex-ministro gosta de basquete, enquanto o ex-presidente adora futebol.

“Caixa do desperdício”

Arce sempre liderou as pesquisas, favorecido pelo capital político de Morales, mas também pelas questionamentos de sua disputada vitória em outubro de 2019, em uma eleição que depois foi anulada.

As denúncias de fraude a favor da reeleição de Morales geraram protestos que o levaram à renúncia três semanas depois. Ele pediu asilo no México e mais tarde na Argentina, onde atuou como gerente de campanha virtual da Arce.

O governo de direita e os outros candidatos dirigiram toda a sua artilharia contra o representante do MAS durante a campanha.

Além disso, a Procuradoria Geral, ligada ao governo, o acusou de “enriquecimento ilícito” enquanto era ministro, o que Arce negou.

O candidato de direita Luis Fernando Camacho afirmou que “Luis Arce não é um candidato, é um fantoche do ditador Evo Morales”.

O ex-presidente de direita Jorge Quiroga, que disputava a eleição mas retirou sua candidatura no último minuto, chamou-o de “caixa do desperdício”, pelo milionário gasto com obras públicas durante 14 anos.

Mesa, por sua vez, assegurou que as conquistas econômicas de Arce e Morales não foram “por mérito próprio”, mas graças aos altos preços das matérias-primas “que nenhum governo jamais recebeu” na Bolívia.

“Os resultados foram palácios, aviões, luxos, desperdícios, corrupção. Obviamente, o responsável foi o presidente Morales, mas em particular seu ministro da Fazenda”, disse Mesa.

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