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Aliados de Bullrich rejeitam apoio a Milei no 2º turno e escancaram racha na centro-direita argentina

Governadores da direita tradicional da Argentina, que acompanharam a terceira colocada no 1º turno, anunciaram neutralidade diante do duelo entre Milei e Massa

Javier Milei e Patricia Bullrich. Fotos: Luis Robayo e Juan Mabromata/AFP
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Desde que o resultado oficial da votação do primeiro turno para presidente da Argentina foi confirmado, no último domingo 22, uma divisão em uma das principais forças políticas do país, a coalizão Juntos por el Cambio, vem sendo escancarada na cena política. 

Na última quarta-feira 25, uma nova faceta do racha na coalizão foi conhecida: governadores do Juntos por el Cambio anunciaram que vão neutros no segundo turno, rejeitando apoio tanto a Sergio Massa quanto a Javier Milei. O movimento contraria a decisão da ex-candidata Patricia Bullrich, anunciada ontem.

De acordo com o jornal argentino Clarín, uma reunião entre governadores atuais e eleitos do Juntos por el Cambio foi realizada na noite de quarta. No encontro, liderado pelo governador da província de Corrientes, Gustavo Valdés, ficou decidido que a sigla optaria pela neutralidade. Um dos principais nomes presentes na reunião foi Geraldo Morales, governador de Jujuy, e um dos líderes da ala radicalista da coalizão.

No total, onze governadores estiveram presentes no encontro que decidiu pela neutralidade e, mais do que isso, marcou uma posição contra Patricia Bullrich e, como se verá a seguir, contra o ex-presidente Mauricio Macri.

Após o encontro, o grupo emitiu um comunicado com críticas a Massa e a Milei. O grupo afirmou que será “a principal resistência” ao que chamou de “populismo econômico que nos colocou de joelhos frente ao flagelo da inflação”. De acordo com os governadores, a inflação atual no país, que superou os três dígitos este ano, é fruto “de um governo fiscalmente irresponsável”.

As críticas a Milei também se fizeram presentes no documento. “Um país não se moderniza negado em nome da liberdade os direitos civis mais essenciais”, afirmou o grupo, que disse que a democracia “é o único método que as nações encontraram para governarem sem cair em autoritarismos nem messianismos próprios do atraso e da estagnação”.

Confira, abaixo, um passo a passo sobre a crise na coalizão de centro-direita argentina.

1 – A presença de Javier Milei

Desde que a Argentina superou a última ditadura militar, terminada em 1983, a disputa política no país, tanto a nível nacional como a nível local, ficou centrada em duas forças políticas principais: o peronismo e a oposição ao peronismo. A principal força de oposição ao movimento ligado a Juan Domingo Perón foi, por anos, uma sigla conhecida como Unión Cívica Radical (UCR), um partido fundado ainda em 1891, e que acolhe setores da classe média argentina, de perfil social democrata. 

Um salto na história até a segunda década do século XXI levará à disputa mais recente na Argentina: o kirchnerismo (uma ala do peronismo que se centra na figura da ex-presidente Cristina Kirchner, mas, também, do seu antecessor, Néstor Kirchner), e a coalizão liderada por Mauricio Macri. 

Essa coalizão já se chamou, quando Macri foi eleito, em 2015, Cambiemos. Mais recentemente – desde 2019 -, o grupo de partidos atende pelo nome de Juntos por el Cambio. Ele une uma série de siglas de centro-direita, a exemplo do Propuesta Republicana (PRO), o partido de Macri, e o já citado UCR.

Acontece que as eleições de 2023 trouxeram um fator novo no campo da oposição ao peronismo: o ultralibertário Javier Milei. Com um discurso fortemente liberalizante, Milei criou, pela sua presença no quadro eleitoral, uma divisão de forças. O exemplo pode ser medido em números: na votação do último domingo, as coalizões La Libertad Avanza e Juntos por el Cambio obtiveram, juntas, mais de 50% dos votos. 

Em outros termos, duas configurações resultaram da votação do último domingo: 1) a oposição ao atual governo e ao peronismo, de fato, é majoritária na argentina – ao menos, por enquanto; e 2) essa mesma oposição, que sempre esteve ligada às forças citadas acima, não possui unidade eleitoral. Se tivesse, ganharia a eleição no primeiro turno. Esse é o pano de fundo sob o qual se sustenta a divisão específica do Juntos Por El Cambio, que será tratada nos tópicos a seguir.

2 – Os rumos do Juntos por el Cambio 

Quando o resultado do último domingo confirmou o segundo turno entre Sergio Massa e Javier Milei, a principal pergunta sobre o quadro eleitoral dizia respeito a que caminho seguiria a centro-direita tradicional na Argentina. 

Guardadas as diferenças de conjuntura e de formação política histórica, esse mesmo questionamento foi feito no Brasil, em 2018, quando a eleição presidencial ficou por ser decidida entre o então deputado federal Jair Bolsonaro e o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Ali, setores da tradicional (a saber, o PSDB e o MDB) estavam diante do aparente conflito entre apoiar um candidato do PT ou ceder ao radicalismo da direita. 

No caso da argentina, Patricia Bullrich, como dito, declarou, de saída apoio a Javier Milei. Na coletiva dada ontem, ela ressaltou que a sua decisão era pessoal. Figuras de peso da sigla Juntos Por El Cambio, como Horacio Rodríguez Larreta, confirmaram que, antes do anúncio – na noite da terça-feira 24 -, foi realizado um encontro entre Javier Milei e Mauricio Macri, onde se estabeleceu os termos do acordo pelo apoio.

Larreta, aliás, é uma figura importante para se compreender o racha na coalizão. Nas eleições primárias, realizadas em agosto, ele concorreu com Patricia Bullrich pela candidatura. Derrotado, ficou distante da campanha até os últimos dias antes do primeiro turno, quando, em um movimento para tentar unificar a centro-direita, Bullrich anunciou que ele faria parte do seu governo, caso fosse eleita.

Ontem, em entrevista coletiva, Larreta defendeu a unidade da coalizão e, indiretamente, criticou a postura de Patricia Bullrich de apoiar Milei. Ele definiu o candidato ultralibertário como um “salto no vazio”, embora não tenha deixado de criticar, também, o peronismo.

“As duas opções no segundo turnos são muito ruins para os argentinos. Massa é a reeleição do populismo kircherista, para continuar com a hiperinflação, e Milei é um salto no vazio e nas ideias que estão à beira da democracia”, afirmou Larreta.

3 – Como a coalizão, enfim, se dividiu 

Ao fim e ao cabo, a decisão pública de apoiar Javier Milei, dentro do Juntos por El Cambio, foi tomada, por ora, apenas por uma figura de peso: Patricia Bullrich. Por outro lado, figuras do próprio peronismo, representantes do Juntos Por El Cambio e a maior parte da imprensa argentina – inclusive, apoiadores da sigla – apontam que o principal articulador do movimento seria (e não de agora) Mauricio Macri. O ex-presidente, aliás, indicou que deverá se pronunciar nos próximos dias.

Diante do apoio, duas alas de relevo declararam neutralidade: os governadores atuais e eleitos, como mencionado, a UCR. Na coletiva de imprensa da UCR, realizada ontem, Geraldo Morales afirmou que “tanto Patricia Bullrich como Mauricio Macri são os grandes responsáveis por colocarem em risco o Juntos por el Cambio“, que, segundo ele, já não existe mais como coalizão. 

“Sinto vergonha alheia”, afirmou, ao definir, também, que Milei seria “a antidemocracia e o fim da República”.

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